“Ninguém é obrigado a nada” ou; o egoísmo legitimado

É evidente que ninguém, dado o devido respeito à lei, é obrigado a nada. Qualquer um é livre para ir e vir, ter a sexualidade que quiser, e recusar em programas de TV quantos nhoques de abóbora quiser. Isso é tácito, não se precisa ostentar como troféu ou uma vitória conquistada após anos de opressão — opressão de quê e de quem, aliás? Quem te oprime no ocidente? Quem te chicoteia se você for gay?

Atualmente está assim: há a necessidade de provar que “é dono do próprio nariz”, ainda que, na primeira vicissitude da vida, escrevam-se depoimentos no Facebook contando as mazelas como se fosse um ato inspirador de coragem. Me desculpe, geração cocô na cueca, mas não é.

Não é um paradoxo triste constatar que essa leva de gente que geralmente se diz “do bem”, preocupada com o “outro”, é a mesma que diz “não sou obrigado a nada” na primeira oportunidade? A obrigação da cordialidade, o pequeno sacrifício isolado, aquele que deveria ser desprendido e discreto, quase intuitivo, é primordial na vida comunitária.

Fico com a impressão de que essa gente está agindo como se as grandes causas atuais pós-modernas fossem muito mais importantes do que se obrigar a comer o arroz com passas da tia avó. O direito de não comer abóbora ou o que o valha é alardeado como uma grande liberdade individual.

É mais ou menos assim:

“Não sou obrigada a comer isso porque eu luto aqui da minha casa contra a misoginia do presidente Donald Trump, absurdo aquele muro também! ”, é assim que entendemos a Maria Clara, estudante de sociais de 23 anos. Maria Clara, um arquétipo simples e que o filósofo Francis Bacon jamais perdoaria. Como o mesmo Bacon disse em “Ensaios Sobre Moral e Política”, no capítulo sobre a Falsa Sabedoria do Egoísta:

Francis Bacon ficaria horrorizado.

“O homem que faz de si mesmo o centro de todas as aspirações e designíos é um homem vil.”

É evidente que a analogia proposta aqui com a atitude de comer algo que não se goste feito e oferecido por alguém é mero gatilho para uma análise de um ponto de comportamento, é bom avisar.

A gentileza é obrigatória? Ah, vamos esquecer essa palavra “gentileza” que foi muito usurpada por esse pessoal, falemos então em cortesia. A cortesia não seria uma espécie de desapego das próprias vontades? Prove do bolo com a cara horrorosa e se for o caso dá para ser sincero sobre o gosto e ajudar a elevar o mau cozinheiro a um patamar melhor.

Todo mundo sabe que você não é “obrigado a nada”, mas pequenos deveres de cortesia podem ser maiores e mais transformadores do que a primazia das próprias vontades, essa necessidade de autoafirmação de uma personalidade “única”.

Por que não provar o doce de jaca que te oferecem? Vai que você gosta.

Tira o dedo da flor roxa da rede social e vai ser mais generoso com os outros nesses tempos em que “ninguém é obrigado a nada” — mas quer cobra todos os direitos rigorosamente em dia.