Edward Pitt

Tédio, empresa, trabalho, casa, comida, televisão, tédio.
O protagonista, o qual, convenientemente, não se sabe o nome (uma maneira de universalizar sua situação), alterna entre diversas ações cotidianas que o levam a exaustão. Com insônia existencial, tudo que ele pode fazer é comprar e comprar mais ainda, folheando os catálogos de compras. E assim ele se torna viciado em grupos de ajuda para poder, de fato, dormir em paz. Parece não fazer sentido, mas quando ele se vê rodeado por grandes nadas com menos sentido ainda, no planeta Starbucks da galáxia Microsoft, o contato com pessoas que expõem seus sentimentos e dores em um mundo de pedra e papel, o faz ficar viciado no contato humano. O protagonista é a representação da busca de significado e fuga da impessoalidade excessiva.
Mesmo assim, Ele não consegue lidar com alguém sabendo demais de seu segredo: Marla Singer, que está na mesma situação, arruína tudo. Isso porque a conexão que Ele faz é de uma via só. Usa as pessoas apenas por si mesmo. Egoísmo: o primordial da sociedade capitalista. No meio de tanto vazio, a contraposição e o conflito que Marla proporciona ao protagonista é o ponto de ignição do filme. Ele sai da inércia.
É interessante notar cada detalhe do roteiro, como por exemplo, a parte que Ele começa a exemplificar como tudo na vida é “uma porção única”, uma grande viagem sem fim na qual você não tem ideia do que está fazendo. Depois de tantos lugares “será que você pode acordar como outra pessoa?” O protagonista chega ao ponto de querer um acidente de avião para ganhar o seguro. A sagrada contradição. É ai que o icônico Tyler Durden surge, o vendedor de sabão que utiliza a gordura, os rejeitos do ser humano, para fazer algo que a função é limpar.
De repente tudo colapsa, tudo em chamas, e quando Ele perde todos seus pertences é que ele se encontra. O clube da luta é a sua libertação das amarras da sociedade, um escape insano para sua insanidade mental, é o retorno ao estado primitivo do suposto homem-animal. Quando todos estão lutando, sem camisa ou sapatos, suas versões consumistas se vão. A frase “nós compramos merdas que não precisamos com dinheiro que não temos para impressionar pessoas que não gostamos” torna-se um lema máximo.
A quebra da quarta parede em algumas partes do filme causa a inserção do espectador num universo que ele está bem familiarizado, com uma linguagem levemente cômica e uma fotografia sombria, encardida e suja (a qual nem o sabão, igualmente sebento, consegue limpar), mas que ele ainda não reconhece.
Quando Ele decide largar a vida socialmente aceitável, Ele se vê livre em um grande poço de sujeira que é o submundo da sociedade. A luta é mais do que um entretenimento, é uma forma de epifania em grupo. A insanidade toma conta do clube. O que não é difícil de fazer com uma boa retórica e um líder cativante. Tudo se torna uma grande organização “terrorista”, de acordo com a fala Dele. A perda do controle é ponto máximo do filme. A perda do controle em meio a um planejamento sistemático, o sistema de compra e venda de tudo e todos.
O filme aborda questões importantíssimas como efemeridade da vida, o consumismo, a sociedade usurpadora de almas e como às vezes é difícil achar significado na vida sem perder um pouco, ou melhor, ganhar outra parte de si mesmo. Mas é claro que nada disso aqui foi dito, porque não se fala sobre o Clube da Luta.
