Aquele dia quando eu fui ao endocrinologista

Em 2 de Julho de 1994 nasceu um bebê gordinho no Hospital Samaritano em Belém do Pará. Quisera eu poder escrever que nasci na Santa Casa de Misericórdia sem mentir.

Eu fui um bebê gordinho, mas em algum momento (que nem a mamãe sabe quando) eu deixei de sê-lo para me tornar uma criança raquítica. A criança se tornou o adolescente esquelético, que se tornou um jovem magro pra cacete. Quem acha que magro não sofre bullying nunca ouviu meus parentes crentes me chamarem de Ezequiel 37.

Como criança pele-e-osso, eu tive que lidar com os chiliques da dona Carmen e suas tentativas desesperadas de voltar a ter o seu bebê gordinho. Aqui vai a lista do que passou por mim nos últimos 15 ou 16 anos: Umas 5 garrafas de biotônico fontoura (essa coisa tinha álcool mesmo?). Algumas latas de Sustagem. Alguns quilos de farinha láctea. Uma ampola inteira de Durateston (tomei quando tinha 12 anos!). Multimistura (Uma mistura farelos e casca de ovo desenvolvida para reduzir a mortalidade infantil. Sei lá onde a mamãe arranjou isso). Um pote de hipercalórico, só um mesmo.

Há alguns meses, minhã irmã soltou no ar de casa a solução mágica para o problema que aflige o jovem pele-e-osso e sua mãe desesperada: O Endocrinologista Famoso. A entidade capaz de transformar uma vassoura em Valesca Popozuda sem precisar dos 2400 mililitros de silicone.

Eu não tenho diabetes, ou problemas de tireoide, ou qualquer doença que eu acredito que seja da competência de um endocrinologista. No entanto, acordei cedo num sábado encontrar o guru das glândulas.

O consultório fica no segundo andar de um prédio comercial quase ao lado do cemitério da Soledade. É um prédio antigo. O elevador era moderno. A escada era estreita com um corrimão velho de madeira e aço.

Chego à recepção, que também era sala de espera e depósito para algumas caixas velhas ali no canto. Falei com a recepcionista. Forneci alguns dados pessoais. Ela solicitou o pagamento pela consulta. Fui interrompido ao puxar o cartão de crédito. Somente dinheiro e cheque. Tive que sair pra sacar o dinheiro e voltar.

Sim, eu tenho plano de saúde, mas Endocrinologista Famoso = “Unimed? Só tem vaga em dezembro… do ano que vem”. Mãe desesperada = “Estou disposta a pagar mais pra não ter que ouvir outra velha na rua me perguntar por que esse moleque é tão magrinho.”

As paredes brancas da recepção/sala de espera/depósito eram enfeitadas com objetos de gosto estético duvidoso. Um relógio gigante com pássaros ao invés de números, um quadro do Romero Britto. O resto eram coisas que você encontra em qualquer sala de espera: Café, água mineral, um pote de biscoitos, uma TV ligada na Globo, um revisteiro cheio de Caras de dois anos atrás.

Depois de uns 50 minutos de espera eu já não aguentava mais rolar pelo Twitter e ver tutoriais de artesanato na TV, mas a minha hora havia chegado. Eu ia me encontrar com ele, o mago das tireoides!

A enfermeira assistente abriu a porta e lá estava ele: Um homem nos seus quarenta anos. Cabelo curto, levemente calvo. Cabeça achatada, óculos estilosos. Uma camisa social de cor forte - vinho ou azul, não lembro - listrada de branco. Gravata borboleta e nada de jaleco.

Sentei no consultório. A decoração era moderna, destoava da recepção/sala de espera/depósito. Botei meu caderno de anotações sobre a mesa de vidro e comecei a responder as perguntas de forma bem objetiva:

“Por que você está aqui?”

“Eu sou magro e minha mãe é meio surtada, só isso.” respondi.

“O que você come no café?”

“Cafe com leite, pão, queijo e uma fruta às vezes.”

“O que foi seu almoço ontem?”

Pausa pra lembrar. “Frango grelhado, feijão, arroz, salada.”

Depois destas e outras perguntas sobre a minha vida, chega a enfermeira para a parte constrangedora do procedimento. Tirou minha pressão, glicemia, escutou minha respiração, viu meu peso, altura e outras medidas do meu corpo. Fazia anos que eu não ficava só de cueca num consultório médico. Nem tentem imaginar.

Vestido, voltei a estar diante do médico. Ele disse que eu deveria ganhar peso para que eu não corresse risco de ter problemas cardíacos, hormonais e infertilidade. Infertilidade não deve ser tão ruim, pensei em silêncio.

Ele me passou duas receitas impressas com letras em caixa alta. TODAS AS LETRAS MAIÚSCULAS. Uma delas com a receita de uma gororoba de Whey Protein, Farina Láctea e outros suplementos. “Essa vai ser a sua ração” ele falou. Quem diria que a farinha láctea, que engrossou meu café da manhã por anos, ia me salvar da infertilidade.

A outra receita tinha uma caralhada de remédios manipulados. 60 cápsulas de cada. Tome este depois do café, estes depois do almoço, este depois da janta. Puta merda, vou ter que comprar aquele estojinho de plástico pra andar com tudo isso por aí. E eu já ando com Dramin, Buscopan, isotretinoína, Sorine e Bepantol na mochila.

Acabou? Não! Meia hora depois da consulta recebo um e-mail do doutor com o que deverá ser a minha dieta. ASSIM, TODO EM CAIXA ALTA, DE NOVO. Ri da mensagem motivacional: “VC VAI CONSEGUIR! A LUTA É NOSSA!!!” [sic]. Abaixo, umas 400 palavras provavelmente copiadas e recopiadas várias vezes por alguém que não tem tanta intimidade com um computador.

Daqui pra frente minha dieta deverá incluir frango grelhado, queijo ricota e saladas de quatro cores. Nenhum martírio aparente, a não ser ter que engolir a gororoba de Whey com Farinha Láctea duas vezes por dia.

A vida é assim. A classe alta reclama da inclinação da poltrona no voo pra Nova Iorque enquanto a massa se espreme nos ônibus urbanos. O livro de Pierre Dukan Eu não consigo emagrecer ficou meses entre os mais vendidos, enquanto isso, eu estou recebendo frases motivacionais pra engordar. ¯\_(ツ)_/¯

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