Pedalando em Paris

O fenômeno das bicicletas em Paris tem nome: Velib’, um projeto adotado pela prefeitura que se choca aos interesses da indústria automobilística dos nossos tempos e tem democratizado ainda mais os deslocamentos na cidade. Com mais de 20 mil bicicletas e 10 mil estações o sistema atende necessidades diversas que vão desde pequenos deslocamentos entre paradas de ônibus e estações de metrô, até médios deslocamentos pela cidade. Os dados são ainda mais impressionantes. Uma média de 110.000 locações de bicicletas são feitas todos os dias! Mas não é só isso. Muitas pessoas circulam com suas próprias bicicletas pelas cidade percorrendo médias ou longas distâncias, que variam entre 5 e 15 km.
Ao chegar em Paris e me surpreender com o sucesso das bicicletas Velib’ ou particulares, logo me perguntei quais foram efetivamente as medidas bem sucedidas pela prefeitura, e não pude deixar de remeter à minha própria experiência como ciclista e “cicloativista independente” nas cidades onde eu morei.
Na realidade brasileira percebemos um processo lento de reformulação da vida pública, do entendimento do direito à cidade e da busca por soluções para o deslocamento de um número cada vez maior de pessoas desde a instalação de conexões férreas no século XIX e o favorecimento da comercialização de automóveis, construção de rodovias e auto-estradas no século XX. Nas últimas décadas esse processo tem sido recheado por medidas diversas que vão da implantação de ciclovias à abertura de vias rápidas.

No ano passado as medidas do prefeito de São Paulo para implantar mais ciclovias reverberaram em todo o Brasil. A repercussão levantou ainda mais o debate em cidades que aparentemente não estão conseguindo tornar efetivas soluções para seus problemas urbanos (como redução do tempo de deslocamento, ampliação e integração das redes de transporte público e diminuição dos índices de acidente de trânsito e poluição). O caso de Belo Horizonte, por exemplo, que adotou as bicicletas compartilhadas implementadas a partir da iniciativa privada é emblemático e repete os mesmos erros de outras gestões municipais espalhadas pelo Brasil. Inclinados ao alargamento de vias públicas e aumento da velocidade média de deslocamento motorizado, prevalece até hoje na capital mineira a preocupação com o automóvel particular enquanto meio de transporte prioritário. Os investimentos medíocres em ciclovias e a falta de incentivo do poder público municipal fazem com que as bicicletas partilhadas cumpram somente sua função mercadológica ao figurar como suporte publicitário.
Paris, então, deixou mais claro que há diferentes maneiras de pensar os problemas urbanos, consequentemente, tornar a cidade mais democrática ao se mobilizar para que as soluções propostas estejam conectadas ao interesse público e que os recursos sejam bem empregados em consequência de um bom planejamento. A experiência das bicicletas em Paris começa por uma percepção de espaço público partilhado, ou seja, à todas as pessoas incidem os mesmos direitos e responsabilidades estejam elas em um ônibus, em um carro particular, de bicicletas ou à pé.
Mas é preciso dizer, no entanto, que paris conta com uma escala que confunde nossa imaginação sobre o que é uma cidade grande. Com apenas 87 km² dentro do seu Boulevard Peripherique, a cidade perde em tamanho para outras grandes cidades europeias, como Londres e seus 321 km², Madrid com 607 km² e Moscou com 879 km² mas fica no topo quando se trata de densidade: 21 347 habitantes por km², com uma população totalizando 2 249 975 habitantes. Para facilitar nossa comparação, vejamos São Paulo: uma população estimada em 11 895 893 com densidade de 177,4 habitantes por km².

São detalhes de um meio de transporte que está se tornando orgânico nas grandes cidades. Especificamente em Paris onde a bicicleta é uma solução muito adequada à demanda por mobilidade. Uma cidade com alta densidade populacional, mas com um território não muito extenso. Foi nesse contexto que vivi uma das experiências mais positivas em relação à mobilidade urbana em uma grande cidade. Apesar de contar com uma extensa malha de ciclovias, foi a sensação de estar seguro pedalando em qualquer lugar que prevalecia em Paris no ano passado. Tal sensação era assegurada pela velocidade média da maioria das pequenas vias da cidade, estabelecida em 30km/h, e no comportamento de motoristas habilitados, que pareciam ser mais preparados para conviver e dividir pistas com ciclistas. Para se ter uma ideia, era tão seguro dividir uma pista com ônibus quanto percorrer uma pista ciclável exclusiva para ciclistas.
Torço para que a bicicleta seja devidamente reconhecida e respeitada como meio de transporte no Brasil e que as políticas públicas para mobilidade urbana incluam a educação e fiscalização dos veículos motorizados.