Fotografia de Cadú Fernandes

“Junto à minha rua havia um bosque
 Que um muro alto proibia
 Lá todo balão caía
 Toda maçã nascia
 E o dono do bosque nem via
 Do lado de lá tanta aventura
 E eu a espreitar na noite escura
 A dedilhar essa modinha
 A felicidade
 Morava tão vizinha
 Que, de tolo
 Até pensei que fosse minha”

(Até Pensei — Chico Buarque, 1968)

O que seria este espaço que plantamos nas pedras dos cinco continentes de nosso planeta?

Por uma convenção lançada ao longo de centenas de anos de experiências em acolher os sujeitos que andavam a nascer na face da terra, hoje entendemos como natural a existência de paredes, tetos, muros, grades, trincos e fechaduras nos lugares onde a formação de mais de 2 bilhões de sujeitos se apresentam diariamente para se encontrarem com outras pessoas no interior de um edifício ao qual denominamos escolas.

Naturalmente um espaço só tem sentido na medida em que atribuímos a ele qualidades, ou mesmo ocupamos o campo simbólico sobre o que seriam estas paredes. Sendo assim, não há espaço escolar sem sujeito, sem pessoas, sem memória, sem histórias, sem o cheiro, os sons e imagens daqueles que o habitam. Foi exatamente aí que me encontrei e me perdi. Foi nos diálogos com os sujeitos das escolas que por vezes me vi no momento que antecede a saída e o medo que não permite pensar no amanhã. E assim, como quem teme e quem não sabe inteiramente para onde vai que me lanço a escrever sobre o que vivi e desejo viver.

Porém, dizer sobre gente, sobre as mãos que tocam o mobiliário escolar, sobre a provocação de reconhecer-se na existência, exigirá de nós um outro espaço aberto no tempo. Por hora, será preciso destelhar estes edifícios, lançando telha após telha ao chão, a ponto de conseguirmos identificar nos cacos as digitais de homens e mulheres que se puserem a construir o teto de quem lhes tirava a terra. Será preciso deixar que chova neste lugar a ponto de nos perguntarmos qual o papel da água que não está nos canos da escola, nem nos bebedouros das crianças! Por que a água insiste em cair sobre nós e sobre todo e qualquer sujeito? Sem telha, sem teto, teremos a luz dura do sol que ilumina e recorta a existência de meninos e meninas, homens e mulheres. Vamos assim, fazendo escola no espaço difícil de ser aquilo que não podemos. Será preciso ser escola de corpo e espaço inteiro, não no recorte dos 35 m² de piso frio que desatamos a construir nas duas últimas décadas. Não havendo mais nada acima, já não faz mais sentido manter os tijolos que se erguem verticalmente criando um labirinto com muitos espaços sem saídas. Pronto, de horizonte amplo lá estarão pessoas.

No movimento de quem está vivo e cumprindo o ato comum de ocupar este espaço, pergunto-me o que significa imaginar um mundo, fantasiar relações impossíveis entre um escaravelho e uma borracha, o casamento de um pregador com uma tampinha de garrafa enquanto correm com o joelho ralado e o braço rabiscado pela caneta hidrocor? Falo de um lugar das interações, das infâncias que os territórios construíram nas ilhas da cidade em diálogo com o mar de 10 milhões de habitantes. Há também o olhar curioso de quem se toca olhando no reflexo do celular, passa o cabelo para trás da orelha, acerta a gola da camiseta e procura escutar sua voz nos momentos em que ela vacila. De corpo inteiro e de desejos infinitos estão as adolescências e juventudes chegando às salas com ideias que estiveram distantes dos projetos que deram origem aos edifícios que ocupamos para mediar a educação de quase um milhão de sujeitos na cidade de São Paulo.

São bebês tal qual meu filho. São meninas e meninos, homens e mulheres, idosos e idosas que ao longo de 17 anos poderão se relacionar com espaços dedicados a educação básica, carregando toda sorte de experiências familiares e pessoais. Carregam consigo as narrativas de quem nunca teve direito a voz e que não estão estampados nos livros didáticos ao lado daqueles que reconhecidamente ocuparam o poder de mudar o país. Vejo mulheres que querem discutir as campanhas “Vai ter shortinhos SIM!”, que assumem seu corpo enquanto seu, em consonância com aquilo que lhe é próprio e que não pode haver um risco iminente apenas por reconhecerem seus corpos. Na trança do jovem transexual apresenta-se a força de alguém que não se reconhece no corpo que a ciência repartiu em masculino e feminino, em pênis e vagina. O que pode o corpo, assim como as suas identidades não cabem num prospecto ou em um manual de classificação. Vejo negros e negras lutando para que sua história não seja negada e que a luta travada em mais de 4 séculos não seja minimizada como passado que já não dialoga com o contemporâneo. A sorte da vida deu-me dois irmãos negros que durante parte de sua infância entendiam que seus cabelos não podiam ser apresentados aos amigos, pois eles não são os mesmos enrolados dos meus cabelos. Ver a sua irmã de cabelo preso machuca, pois, as representações nos canais de televisão, nas revistas e nos comerciais condicionaram-na a uma luta contra aquilo que lhe era próprio.

Em tempos de nascer e de uma natureza descuidada, estamos em diálogos com sujeitos que apresentam outros tempos para a sua aprendizagem, para o domínio de seu corpo e, por vezes, da difícil relação com as ruas da cidade em que estamos. Negando o processo fabril, a experiência educacional dessas pessoas coloca em xeque a existência tradicional da escola secular republicana. É mais uma anunciação de que não há a possibilidade de construirmos uma voz que chegue a todos com o mesmo sentido. A escola é polifônica.

Estando em uma metrópole estamos ao lado de pessoas que se deslocaram pela face do globo terrestre a fim de serem felizes em um lugar possível e, que pesem todas as contradições que isto possa parecer, em um lugar seguro. Dessa maneira, sujeitos de todas as idades caminharam, navegaram e voaram até aqui para propagar a condição humana de nossa existência. Com credos e culturas distintas reconhecemo-nos naquilo que é diferente de nós e assim construímos mais significados sobre aquilo que desejamos ser. Sem hinos nacionais, cada língua e sotaque, cada etnia e grupo indígena, permite-nos entender o quão potente é a experiência de se estar vivo.

Por fim, falo de uma cidade! Uma cidade na América do Sul com a qual tenho uma relação de amor e ódio, pois nem só de coisas positivas somos feitos. Nesta cidade residem mais de uma centena de milhares de profissionais da educação. Professoras e professores que viram os seus trabalhos serem disputados ao longo do último século por muitas forças. Reconhecendo-se como políticos, cada profissional da educação tem anunciado as suas visões de mundo de tal forma que as suas histórias povoam o imaginário de cada pessoa que sai de uma escola. Não há quem não se lembre de um gesto, de um hábito ou de uma história de uma professora ou professor. Lá estão estas pessoas, raiando antes do sol, a irem para os pontos de ônibus ou aos seus veículos, conferindo em silêncio as experiências que terão ao longo de sua jornada de trabalho e com a coragem de não renunciarem dia após dia! Tratemos de conhecer estas histórias bonitas e potentes que me fazem crer que um outro amanhã ainda é possível. Até breve.