Marina Abramovic

Nascida na Iuguslávia, hoje Servia, em 1946, Marina Abramovic é filha de pais muito ativos politicamente: comunistas que participaram da Segunda Guerra Mundial. Formada e pós-graduada na Belas Artes, desde a década de 70 dedica-se a fazer performances mundo afora.

Hoje é considerada a “avó da arte performática”, apelido que ela mesma se deu, já que está perto de completar 70 anos e continua muito ativa. Seus trabalhos exploram os limites do seu corpo e mente e a interação com a platéia.

Abramovic teve um grande companheiro (e amor) também performático: o artista Ulay. Os dois ficaram juntos por mais de doze anos, realizaram diversos trabalhos e hoje, infelizmente, disputam na justiça por diretos autorais.

Em 2010 foi realizado no MOMA, Museu de Arte Moderna de Nova York, uma grande exposição com a retrospectiva da carreira dela. Batizada de “O artista está presente”, Marina ficava sentada em uma cadeira, e quem quisesse podia sentar-se na cadeira em frente à dela, com o intuito de trocarem olhares, por quanto tempo desejassem. Ao final da exposição, contabilizou-se mais de 700 horas de Marina sentada, sem se mexer, trocando apenas olhares com os visitantes. Mas um visitante desestabilizou Marina — o próprio Ulay participou da performance. A artista fica visivelmente emocionada e dá as mãos para ele. O vídeo com essa cena viralizou na internet em muito pouco tempo, e pode ser conferido nesse link: https://www.youtube.com/watch?v=OS0Tg0IjCp4 .

Até o rompimento com Ulay aconteceu de forma inusitada e performática: partindo cada um de um extremo da Muralha da China, encontraram-se três meses depois, já ao centro da construção. E ali encerraram a parceria.

Uma das explorações mais radicais se deu com a performance “Rhythm 0”, de 1974, na Itália. Nela, Abramovic fica passiva, e os expectadores eram incentivados a interagir com ela e com os mais de 70 objetos que estavam à disposição. Entre os objetos, estava uma arma de fogo carregada, espinhos de rosas, tesouras, penas, entre outros. O resultado foi surpreendente — em seis horas de performance, ela teve uma arma apontada para sua cabeça, a roupa cortada e espinhos cravados em seu peito. Esse trabalho ficou fortemente marcado tanto pela imprevisibilidade do público como pela radicalidade dela, exposta dessa maneira tão passiva ao público. Nas palavras da própria artista: “O que eu aprendi é que se você deixar nas mãos do público, eles podem te matar. Eu me senti realmente violada. Cortaram minhas roupas, enfiaram espinhos de rosa na minha barriga, uma pessoa apontou uma arma para minha cabeça e outra a retirou. Isso criou uma atmosfera agressiva. Depois de exatamente 6 horas, como eu tinha planejado, me levantei e comecei a caminhar em direção ao público. Todos fugiram para escapar de uma confrontação presente”.

A artista tem ainda interesse por religião e pelo sagrado. Tanto que filmou, em 2012, o documentário batizado de “A Corrente”. Nele estão registrados os 40 dias de uma viagem que Marina fez ao Brasil, para conhecer as mais diversas religiões e experiências envolvendo o sagrado. Passou por comunidades mediúnicas do Jardim de Maytrea, na Chapada dos Veadeiros, Goiás; a doutrina espiritualista do Vale do Amanhecer, DF; o xamanismo cultivado na Chapada Diamantina, a confraria afro-católica Irmandade da Boa Morte, os rituais de candomblé no Terreno do Gantois e a Igreja Nossa Senhora do Bonfim, Bahia; as minas de cristais em Cortino, Minas Gerais; e os ritos com o chá ayahuasca da doutrina Santo Daime, Amazonas, entre outros.

Abramovic é, sem dúvidas, uma artista contemporânea, mas mesmo assim podemos associar seu trabalho a vanguardas artísticas modernistas do século 20, principalmente o futurismo e o dadaísmo, por darem início ao rompimento da passividade do público. Tanto o futurismo quanto o dadaísmo não eram obras prontas, precisavam do público como co-criadores. Segundo o antropólogo Canevacci, “futuristas e dadaístas entenderam pela primeira vez que a obra está profundamente conectada com a vida, sem o princípio dicotômico do público passivo, de um lado, e do artista como grande criador que elabora sua arte para museu ou galeria, de outro”.

Definir sua obra como sensacionalista é um erro brutal, mas que acomete grande parte de quem se põe a escrever sobre Abramovic. Seu trabalho tem como objetivo definir os extremos possíveis do corpo e da mente, numa relação da criadora com a criatura, que é o próprio corpo e o público.