Vô Antônio, o destemido

Coisa de avós e netos

Memórias e lembranças que só corações saudosos entendem

O tempo. O tempo não existe, mas às vezes é brutal. O tempo existe, mas às vezes nem o sentimos. Tem hora que congela, e você fica imerso em lembranças e sonhos sem ter certeza das partes que condizem com a realidade e aquelas que sua mente inventou.

A gente inventa bastante. Principalmente para preencher as lacunas que, com o tempo (ele de novo), insistem em se apresentar em meio às nossas lembranças. Difícil. Gostoso. Anestésico. Tempo e sonho.

Eu tenho sentido muita saudade. Deles. Os meus avós. Únicos. Do jeitinho deles, perfeitos. Velhinhos calmos, tranquilos, que contavam histórias de fantasia… Meus avós não eram assim.

Do vô Antônio, herdei a altura. Moreno, de voz grossa, muito respeitado. Ai de mim se errava no café. Ele gostava de tudo forte, que era pra ter coragem de enfrentar o dia, o sol, a labuta. Trabalhar, era isso que realmente importava. Tirar isso dele, era como lhe arrancar a vida. Teimoso um tanto que só quem é da família entende. Sem meias palavras. Amava no sorriso. No apelido. Vem cá, minha loura. Não, não do cabelo. Loura, da flor de louro. Valiosa. Aquela que cura. Que anima.

Ah, e a vó Isabel? A mais doce de todas. Gostava das flores, mas reclamava sempre da saúde. Tudo doía. Mas sempre dava pra costurar mais uma pecinha de roupa. É pra netinha. Vale o esforço. Não gostava de bagunça. Nem sabia brigar demais.

No Natal, todo mundo ajudava a montar o presépio. Tinha que ter capricho. Deixar a casa alegre pra chegada da família. Tinha a tradição entre os primos: quebrar uma moringa da vó. Ela chegava juntinho, chamava pra cozinha: quer me ajudar? Eu te ensino a fazer o tempero.

Vó Isabel, a flor; mãe, irmão, vô Alcides, o contador de histórias.

Do lado dela, sempre o vô Alcides. Corcunda. Piadista de quinta. A minha melhor conversa no meio da tarde. Os causos, já sabia de cor: a vinda pra São Paulo, o retorno pra Bahia, a saudade da minha avó. O cafuné e, como nunca poderia faltar, uma boa sessão de cócegas que é pra nunca perder o riso de criança.

Sentados na sala com as mãos dadas, as horas passam e sempre arrumamos mais uma história. É repetida, eu sei. Mas não tem problema. Eu só quero aproveitar mais um pouquinho da companhia dele.

Ah, como seria bom se a gente pudesse parar o tempo toda vez que a saudade aperta. Só pra conversar de novo. Rir de novo. Dar mais um abraço…

A gente cresce e percebe como esses velhinhos, brincalhões, carinhosos e muitas vezes rabugentos ficaram em nós. Nas pessoas que nos tornamos. E não por acaso, a cada novidade, lá no fundo, a gente imagina como seria se eles estivessem aqui. E que alegria sentiriam.

Eles, que foram pais duas, quatro, dez vezes. Eles, que nos amaram além da vida, além do sangue e da paciência. Que ouviram nosso choro e só rezaram pela nossa felicidade. Aos nossos avós, todo amor do mundo!

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Carolina Rocha’s story.