Porque o “psiu” me causa repulsa (e outras questões a esclarecer)

Uma cena típica do dia a dia da mulher é: você está andando sozinha ou com um grupo de amigas (se tiver um homem acompanhando isso nunca acontece, “código de respeito” entre a comunidade masculina) e aí um ou uma roda de caras começa: “psiu”, “nossa, linda”, entre outros adjetivos e olhadas de cima a baixo que é pra conferir o “produto” que está passando pela vitrine da vida. Muitas vezes, esses homens começam a comentar sobre o seu corpo como se você não estivesse ali e, claro, em alto e bom som que é pra todos os brothers ouvirem.

O que eu e tantas outras mulheres sempre fizemos? Abaixamos o olhar, aceleramos o passo e fingimos que não era com a gente. Seguimos nosso caminho como se nada tivesse acontecido — até chegar o próximo bar/ponto/grupo e a mesma coisa acontecer. A gente nem sabe quantas vezes isso já se repetiu, desde a adolescência, desde a faculdade, desde sempre. De dia, de tarde, de noite, principalmente de noite. Talvez por ser o horário em que costumamos andar mais apreensivas com medo do que pode acontecer ao virarmos na próxima esquina.

Pra muita gente, isso não é nada demais. Só uma olhadinha, só um “elogio”. MAS como pode ser uma coisa legal quando outra pessoa fica constrangida? Como pode ser algo divertido se a outra parte não parou, pediu um copo e a partir de então viraram grandes amigos? Questões.

O lance da roupa nem sempre tem muito a ver. Você pode estar de terninho preto, gola alta e com as pernas bem cobertas que nem isso impede um “deixa eu ver o que você está escondendo”.

E por que tudo isso me causa repulsa? Porque me dá pena. Eu tenho pena de homem que precisa fazer esse tipo de coisa pra mostrar toda sua heterossexualidade. Eu tenho pena de quem tem a mente tão pequena e ainda acha que nós, mulheres, estamos aqui só para satisfazê-lo. E pena é umas das piores coisas que você pode sentir em relação a alguém.

Antes que alguns venham dizer que feminista prega ódio aos homens, deixa eu pontuar uma explicação: nós não queremos criar uma redoma que coloque homens e mulheres de lados opostos. Essa já é a realidade, migos (risos). O que nós queremos é que parem de nos olhar de cima a baixo e olhem de frente, como iguais. Afinal, acreditem ou não, é isso que somos. ;)

Quando alguém não consegue entender o que estou dizendo é porque temos de falar sobre uma segunda questão: onde de fato a mudança acontece. E se você estava achando que a resposta era: a sociedade está evoluindo e tornando-se mais aberta, menos preconceituosa etc. sinto dizer que, infelizmente, não é bem por aí.

O crescimento da voz e dos adeptos ao feminismo, à luta contra o racismo, contra a intolerância religiosa, a favor do movimento LGBT, enfim, das minorias e dos oprimidos se deu não necessariamente porque agora a mídia é legal e os dominantes estão em busca de redenção. Tudo isso está acontecendo porque o lado sempre tido como o mais “fraco” cansou de aguentar tanto desaforo e está aprendendo a unir forças. Em muito, somos gratos à tecnologia por isso. Um espaço antes inimaginável se abriu e se tornou um dos maiores recursos para que, além de compartilhamentos e curtidas, pudéssemos nos encontrar, trocar conhecimento e articular ações em coletivo.

Não é que alguém deixou, é direito. Ponto. E isso implica numa condição básica para a vida em sociedade: respeito.

Dito isso, podemos partir para o último esclarecimento e fechamento deste texto: só porque você não sofre determinadas agressões (sim, gente, palavras machucam) não quer dizer que elas não existam, você só foi privilegiado em algumas esferas sociais. Por sua vez, o outro lado não quer e nem deve diminuir as dificuldades de ninguém. Entretanto, é preciso admitir que ainda vivemos em meio a um sistema que favorece e recompensa um estereótipo específico às custas da diminuição (física e intelectual) daqueles que não correspondem a ele.

Querer ser livre é também querer livres os outros.
Simone de Beauvoir
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