Databending e a beleza no erro

Por: Filippo Comini


Afinal, o que é databending? Você provavelmente já viu alguma destas imagens estranhas e distorcidas que mais parecem resultado de uma fita VHS defeituosa ou ouviu músicas com sons que parecem ter saído de um teclado musical com defeito. Estas imagens e sons são muitas vezes obtidos por meio do databending que é um processo de manipulação das informações contidas dentro de um arquivo de mídia de um determinado formato (por exemplo uma imagem), usando um software projetado para a edição de arquivos de outro formato (por exemplo um editor de textos). Esta manipulação causa literalmente um defeito na estrutura do arquivo que ao ser interpretado novamente pode apresentar infinitos tipos de falhas e erros. Por conta disso, há alguns anos o databending vem sendo utilizado como uma das principais técnicas em trabalhos na glich art e glitch sounds que exploram estas falhas como estética e forma de expressão.

O termo databending (ou data bending) é derivado de uma outra prática chamada circuit bending onde aparelhos eletrônicos como brinquedos de criança, teclados e pedais de efeitos — para instrumentos musicais — são deliberadamente colocados em curto-circuito para gerar sons espontâneos e imprevisíveis. Em ambas situações uma intervenção, combinação ou corrupção de informações é feita para criar novos conteúdos e novas linguagens.

Existem três técnicas que podem de certo modo “categorizar” o databending, são elas:

Edição Incorreta: Arquivos de um determinado formato são manipulados usando um software projetado para editar arquivos de um formato diferente. Por exemplo, editar um arquivo de imagem em um software para edição de arquivos de áudio.

Reinterpretação: Arquivos de um determinado formato são simplesmente convertidos para arquivos de um formato diferente. Por exemplo, converter um arquivo de texto em um arquivo de imagem.

  • Sonificação: É uma sub-categoria da reinterpretação na qual arquivos que não possuem dados de áudio são convertidos e inseridos em arquivos de áudio. Por exemplo, um arquivo de imagem é convertido em arquivo de áudio e utilizado para criar e compor outros sons.

Erro Forçado: Falhas em programas são exploradas para forçá-los a encerrar, normalmente ao escrever os dados, na esperança de que o arquivo escrito seja corrompido. Esta é a técnica mais complexa no databending, e muitas vezes produz resultados altamente imprevisíveis.

A beleza no erro

O databending como conjunto de técnicas possibilitou que a glitch art sofresse um grande fortalecimento nos últimos anos conquistando diversos artistas que adotaram as falhas binárias e os erros de programação como linguagem e estética na era digital. Tudo bem que o “imperfeito” já permeia e provoca produções artísticas há décadas mas o databending — bem como a glitch art — chama atenção por explorar fragilidades não somente para criar uma linguagem visual mas também para levantar reflexões acerca da informação que percorre grande parte do nosso cotidiano. Conforme os anos se passam, os computadores se tornam cada vez mais complexos e ainda assim basta um pequeno bug para arruinar o conteúdo de um arquivo. Além disto, por meio da técnica é possível aprender um pouco mais sobre como funcionam os dados e até mesmo os seus limites, ainda que sejam demasiadamente complexos. Outro fato que me chama atenção é como os computadores são obedientes e fazem tudo o que os mandamos fazer, mesmo quando enganados por processos como o databending eles continuam executando a tarefa sem emoção, crítica ou julgamento proporcionando verdadeiros espetáculos e explosões de pixels no final.

Já esteticamente falando a impressão que tenho é de que o databening dialoga com a tendência — que se popularizou nos tempos digitais — de resgatar falhas causadas por meio de processos analógicos. Creio que o maior exemplo seja o Instagram e seus filtros que emulam imperfeições fotográficas como vazamentos de luz, aberrações cromáticas e filmes fotográficos vencidos. Assim como os filtros do Instagram, o databending torna possível virtualmente a emulação de erros e falhas que inicialmente foram gerados a partir do mau funcionamento em circuitos, placas e interferências eletrônicas.

Analisando o processo de criação por meio do databending eu enxerguei uma grande similaridade com o design generativo, que se utiliza de códigos, algoritmos e parâmetros inspirados na formação genética e na natureza para processar e criar imagens. Assim como o databending, o design generativo permite a elaboração de imagens estonteantes, complexas e em sua grande maioria imprevisíveis pois uma simples alteração do código é capaz de apresentar uma nova composição totalmente diferente. Em ambos processos o papel do artista muitas vezes é de buscar um resultado esperado dentro do inesperado, o que pode se tornar um processo bastante demorado e complexo.

Estas são algumas das minhas reflexões acerca do databending que como conjunto de técnicas, estética e processo criativo tornou possível o aparecimento de uma boa leva de trabalhos interessantes nos últimos anos. Uma forma de expressão que na minha opinião casa muito bem com os tempos em que vivemos onde a cultura do hacktivismo cresce cada dia mais junto de uma rede caótica de dados e informações desordenadas e totalmente incontroláveis.

Se você gosta deste tipo de estética não deixe de experimentar as técnicas e até já existem aplicativos para smartphones que facilitaram ainda mais o contato com o databending.

Veja alguns deles:

Para iOs:

Para Android:

Sobre o Autor

Filippo Comini é diretor de arte digital, aficionado por música, fotografia, novas tecnologias e arte. Há mais de 10 anos atuando no mercado criativo já trabalhou para diversos clientes em diferentes ramos da indústria. Atualmente seu trabalho está focado em projetos multidisciplinares e integrados.