Meus roteiros favoritos: verdades escancaradas e um pó de técnica

Por: Andresa de Carvalho


Talvez tenha sido Nora Ephron a grande responsável pela paixão que sempre nutri por New York, antes mesmo de conhecer a cidade. Roteirista de ícones das comédias românticas, como os deliciosos Sintonia de Amor, Mensagem para Você e Harry & Sally Feitos Um para Outro — este último indicado ao Oscar — , a escritora e diretora trouxe para sua produção muito de sua experiência de vida e não teve pudores em escrever cenas icônicas como quando Sally, na linda pele de Meg Ryan, fingiu um escandaloso orgasmo publicamente.

Seus romances se passavam pelas ruas de Manhattan e pelas pontas de seus dedos acompanhamos a vida nova-iorquina entre homens que traíam como nunca (ou como sempre?) e a dura realidade da velhice. Nora sofria de câncer quando faleceu no dia 26 de junho de 2012, aos 71 anos, não sem antes ter se tornado uma grande inspiração para mim.

A vida não tratou a filha dos dramaturgos Henry e Phoebe Ephron com meias-verdades. Pode ser que esteja aí o sucesso dos filmes, embora sem grandes revelações, queridíssimos por uma geração inteira. Ela falava dessas verdades que conhecemos, mas evitamos tratar. Seus filmes, embora doces, nos encheram de coragem.

Antes de ganhar minha atenção, lá no final da década de 1990, e me fazer revisitar sua obra, na época da minha separação, Nora já escancarara ao mundo as hipocrisias do casamento ao transformar a traição de seu marido em livro e filme. Casada com Carl Bernstein, um dos jornalistas do Washington Post que derrubaram o presidente americano Richard Nixon no caso Watergate, ela descobriu que ele estava tendo um caso. Passou a mão nas duas crianças e saiu de Washington para Nova York. O fim do casamento lhe rendeu A Difícil Arte de Amar, livro que virou filme com os brilhantes Meryl Streep (com quem voltou a trabalhar em Julie & Julia, de 2009) e Jack Nicholson. A partir de então, Nora trocou o jornalismo pela literatura e pelo cinema e sua visão bem-humorada a despeito da dor que a vivência pode causar foi transmitida para cada uma de suas obras. Irônica, engraçada e absolutamente verdadeira, Nora escreveu sobre a vida.

Parece fácil ter sucesso escrevendo sobre o que seus olhos veem, mas transportar seus experimentos para personagens encantadores demanda muito mais que talento para escrever meramente sobre si. Ainda que suas ideias e projetos venham de suas experiências mais íntimas, afaste-se do autoengano: elas não serão suficientes se você não souber como trabalhar esse turbilhão de emoções. Sempre haverá técnica para que um trabalho seja sinônimo de qualidade e sucesso, especialmente quando envolve tantas etapas, áreas e pessoas, como é o caso de um roteiro a ser rodado.

Enfim, as dicas!

“Invente histórias, mas que sejam reais”. Parece uma dica escrita por Nora, mas este foi o segundo de dez conselhos dados por um grande roteirista hollywoodiano quando perguntado sobre o segredo do sucesso. E ele foi além…

Em 2013, Tony Gilroy, um dos roteiristas mais cotados de Hollywood graças a sucessos como Armageddon, O Advogado do Diabo e Conduta de Risco, vencedor do Oscar de melhor roteiro original, respondeu a uma pergunta da BBC: “qual é a chave para escrever e ser bem-sucedido no centro da indústria cinematográfica americana”. Ele, maravilhoso, respondeu EM TÓPICOS (❤) e a gente reproduz essas dicas de ouro aqui embaixo.

10 conselhos de quem entende para quando a coisa não sai como a gente quer \o/

1. Consuma cinema

Não acho que se aprenda muito com cursos ou livros. Quem vai ao cinema desde pequeno encheu a vida de narrativas. É algo que está na área mais profunda do ser.

Ir ao cinema, ter algo a dizer, ter imaginação e ter a ambição de fazê-lo é realmente tudo o que se precisa. O resto se aprende.

2. Invente histórias, mas que sejam reais

Escrever roteiros é um trabalho de imaginação. Nós, os roteiristas, inventamos histórias. Tudo o que tenho na vida é resultado de ter inventado muita coisa.

Mas há algo que se deve compreender bem e que faz a diferença: o comportamento humano.

A qualidade da história está diretamente relacionada com a compreensão do comportamento humano. É preciso se transformar em um jornalista para o filme que está tentando criar em sua mente. É preciso investigar, fazer reportagens… Cada cena tem que ser real.

3. Comece com uma ideia modesta

As grandes ideias não funcionam. Comece com uma ideia pequena que possa ser expandida.

Com a saga dos filmes Bourne, eu nunca li os livros (uma trilogia de Robert Ludlum), preferi começar do zero.

A premissa simples do personagem Jason Bourne é: “eu não sei quem sou, nem de onde venho, mas talvez eu possa me definir através do que sei fazer”.

Construímos todo um universo a partir desta pequena ideia. Isso começa modestamente e vai sendo construindo passo a passo. É assim que se escreve um filme para Hollywood.

4. Aprenda a conviver com a sua invenção

Meu pai era roteirista, mas não existe um “gene criativo e boêmio” na nossa família.

Aprendi a observar o quão duro ele precisava trabalhar, e compreendi o tempo que rege a vida de um escritor. É preciso escrever nos momentos de inspiração.

Se você vive com outras pessoas, elas aprendem a não se assustar ou se queixar destes ritmos criativos.

5. Escreva para a TV

É cada vez mais difícil fazer filmes bons. Mas nas produções de televisão, é possível encontrar a ambiguidade e os tons cinza de realidade. É aqui que as histórias podem se tornar interessantes.

Muitos roteiristas estão bastante entusiasmados com a televisão no momento, e é um negócio controlado por escritores. Quando os roteiristas estão no comando, sempre há coisas boas na televisão.

Eles são mais racionais, trabalham mais duro e são mais benévolos também.
Quando os escritores comandam o entretenimento, o negócio funciona.

Talvez agora vejamos a TV se convertendo em uma utopia guiada pelos roteiristas.

6. Aprenda a escrever em qualquer lugar, a qualquer momento

Eu tenho um escritório na minha casa, mas já escrevi em milhares de quartos de hotel. É preciso escrever em toda a parte.

Se estou feliz com o que escrevo, não quero parar. Agora que sou mais velho e mais sábio, não me prendo ao fato de meus escritos estarem fluindo ou não. Telefono para casa, digo que não vou chegar para o jantar e sigo trabalhando.

Mais do que nada no mundo, eu desejo continuar tendo vontade de ir ao escritório, sem medo de trabalhar.

7. Consiga um emprego

Eu passei seis anos trabalhando em um bar enquanto tentava entender como escrever roteiros.

Se você quer escrever, se é jovem e ninguém o conhece, busque um trabalho que pague a maior quantia de dinheiro possível com a menor quantidade de horas possível para que você tenha uma boa parte do dia para escrever.
Trate de viver em alguns lugares onde possa ter acesso a boas conexões culturais, onde possa ver muitos filmes e conhecer muitas pessoas. E trate de achar um lugar onde possa simplesmente escrever, escrever, escrever.

8. Viva a vida

Se você não tem nada para dizer e não viu nada mais do que um punhado de filmes, sobre o que você vai escrever? Só se pode contar aquilo que se conhece.

Busque se interessar por uma grande quantidade de coisas, temas e pessoas, e mantenha-se interessado. Meu conhecimento é muito amplo, ainda que incrivelmente superficial, porque não sinto falta de mais.

Costuma ser muito mais interessante uma história escrita por um jornalista, por um policial ou por um banqueiro do que algo vindo de alguém que estudou cinema por 20 anos.

Há exceções, é claro. Mas quase sempre é o caso de “se você não tem nada para dizer, para que está aqui”?

9. Não se mude para Los Angeles

Eu não acho que exista um motivo de peso para se morar em Los Angeles (centro da indústria cinematográfica americana).

Eu acredito que L.A. é um lugar muito ruim para alimentar a mente. Em Los Angeles, as pessoas passam grande parte do tempo dentro de carros e rodeadas de outras pessoas deprimentes.

Não acredito que Hollywood seja uma boa vizinhança para um escritor jovem, isso não vai lhe ajudar a sentir qualquer tipo de emoção.

10. Resista e siga em frente

Na minha carreira, já ocupei as duas posições do “Kama Sutra de Hollywood”: tanto por cima como por baixo.

É importante aprender a lidar com as quedas e rejeições. Acho que um dos motivos pelo qual os roteiristas são tímidos é que estamos todos sempre suspeitando dos nossos processos, já que ele fracassa com frequência.
Não é nada diferente do que acontece com romancistas, compositores ou pintores. Quando o mundo externo te rejeita, a pessoa decide superar isso ou deixar-se vencer. Mas acredito que os dias mais difíceis são aqueles em que nada acontece. Todos os que já tentaram escrever alguma vez sabem bem do que estou falando. O bom é que não há nada que não se cure com um bom dia de trabalho.

O link para a matéria original, no site da BBC, está aqui.


Antes de ir embora, reproduzo, agora, uma entrevista que Nora Ephron concedeu à 14ª edição da extinta e saudosa• Revista LOLA, em novembro de 2011, sobre a vida.

Vale cada segundo e eu juro que não estou fingindo ;)

Parte de sua carreira como escritora e diretora foi dedicada a discutir o amor e suas dores. O amor é possível e viável na vida real? Ainda acredita nele?
Sempre acreditei que o amor é possível. Certa vez, escrevi que os maiores românticos são os cínicos, e essa frase me define muito bem. Acredito totalmente no amor e no ato de se apaixonar. Se você tiver sorte e se casar com a pessoa certa, o amor poderá dar certo. Mas não acho que isso poderia ter acontecido comigo ou com qualquer outra pessoa aos 20 e poucos anos. Não foi possível para mim me manter apaixonada por um só homem quando tinha meus 26 anos. Porque, aos 26, estava tão ocupada com minhas próprias mudanças de vida que não houve espaço para o amor duradouro. Na época em que conheci meu terceiro marido [o escritor e roteirista Nicholas Pileggi], porém, eu estava preparada para o amor. Os conflitos violentos da minha vida já tinham acabado. Estava com mais de 40 anos e sabia muito bem quem eu era. Acabei me casando com um homem fantasticamente tranquilo e ótimo de conviver, o que tornou tudo bem mais fácil para mim.

Então, na sua opinião, o amor mais duradouro tem a ver com maturidade?
Conheço casais que se conheceram muito jovens e ainda estão casados. Mas eu nunca fui assim. Não há fórmula pronta, e algumas pessoas são muito melhores nesse assunto que outras. No meu caso, fui me tornando um pouco melhor nisso com o passar da idade.

Seu casamento já dura 28 anos. Antes, divorciou-se duas vezes. Como define o sucesso em um casamento?
O verdadeiro mistério da vida é o casamento, porque você nunca sabe direito o que está se passando em um, incluindo o seu próprio. E acho que parte de sua fascinação vem desse fato. Obviamente que a definição de sucesso varia muito, e o que eu acredito ser um casamento bem-sucedido pode ser bem diferente na opinião de uma amiga. Agora, se você quiser realmente ter sucesso num relacionamento, sim, é possível fazer dar certo. Só que é preciso estar consciente de que essa não é uma área de vida em que se pode simplesmente se comportar de forma blasé. Você tem sempre que tentar e buscar esse sucesso na relação. Não exatamente todos os dias, claro, como se isso fosse um peso. Mas num dia sim, noutro dia não, você tem que gastar energia para fazer as coisas darem certo. Não se pode ficar totalmente relax e sossegado, é preciso trabalhar para que o amor permaneça forte.

Você escreveu um livro sobre o caso que seu segundo marido teve com outra mulher. É possível vivenciar o divórcio de forma menos dolorida?
Nem todos os divórcios são necessariamente doloridos. Entre meus amigos, há aqueles que conseguiram ter um divórcio bem civilizado e uma das razões é que eles simplesmente não se amavam. Eles concordaram que não mais sentiam amor um pelo outro, e isso lhes permitiu um tipo de divórcio tranquilo. Mas, se você ama a pessoa, se confiou nela, o divórcio é, sim, cheio de dor. Seja lá como for seu divórcio, o fato é que você precisa superá-lo e achar outra pessoa por quem se apaixonar. Digo isso com tranquilidade, porque acredito realmente nessa verdade. Como resultado, tornei-me muito sem paciência com essa gente que se separa e passa anos se lamuriando pelo divórcio, chorando e se sentindo péssima. Querida, deixe isso para lá e vá tentar se apaixonar de novo! Pare de perder tempo com seu ex, supere-o de uma vez por todas!

Podemos aprender com uma relação que acabou? Um casamento ruim nos ensina lições, ou isso é papo besta?
Podemos, sim, aprender muito quando terminamos um casamento. Você certamente aprende sobre si mesmo ou pelo menos deveria aprender. Cada casamento ensina diferentes lições. O importante é jamais ser muito dura consigo mesma numa situação dessas. Todos nós sabemos que não há nada de simples quando se vive e se acaba um casamento. Eu aprendi muito com meus divórcios. Jamais me esqueço de uma briga que tive com meu ex-marido muitos anos atrás porque ele queria comprar uma mesinha de plástico horrível que custava apenas 15 dólares. Nunca pensei que duas pessoas pudessem ter esse tipo de briga quando casadas. Porém, olhando para trás, a tal discussão mostra muito da pessoa que eu era naquele tempo. E eu não sou mais aquela pessoa. Mas, cá entre nós, era mesmo uma mesinha horrível.

Você vivenciou a traição de forma bem intensa. Um caso extraconjugal é sempre condenável, ou há situações em que se pode aceitá-lo?
Eu sei que existem culturas mundo afora em que a infidelidade é algo para o qual as pessoas não estão muito aí. Na França, por exemplo, isso parece ser a realidade. Não sei como é no Brasil, mas nos Estados Unidos não somos muito bons nesse assunto. Conheci meu atual marido quando eu tinha 43 anos e ele 50. Nós já possuíamos na época uma vasta experiência em relacionamentos. E estávamos os dois preparados para ficar com uma pessoa só. Não éramos muito assim antes de nos conhecer. Não sei como as pessoas esperam que a gente seja realmente fiel aos 20 ou 30 anos, com os hormônios no auge. Porém, eu fui fiel e fiquei com o coração partido quando me traíram. O problema no meu segundo casamento não foi somente que meu marido me traiu, mas que ele estava convencido de que se apaixonara pela amante. E isso tornou tudo muito pior.

Em um dos capítulos de Não Me Lembro de Nada, você conta como está se esquecendo de fatos e pessoas. Revelar aos outros nossos problemas pode nos ajudar a compreendê-los e aceitá-los melhor?
Nunca achei que escrever sobre meus problemas ou situações difíceis torna tudo mais fácil. Mas pelo menos é possível ver o humor que sempre existe em todos os tipos de dificuldade. Eu não estou com uma perda grave de memória ou apresentando sinais de Alzheimer, nada disso. Mas o fato é que, em muitas ocasiões, se por exemplo a gente se encontra alguma vez, simplesmente não me lembro de você em um segundo momento. Se vou a uma festa, de repente me vejo tendo uma longa conversa com uma pessoa que conheço bem, só que não consigo lembrar seu nome. E é sobre isso que decidi escrever. Por mais irritante que seja, sei que é completamente comum entre a maioria dos meus amigos da mesma idade. Ainda bem que hoje existem os smartphones e o Google, porque não preciso ficar tentando lembrar todos os nomes do alfabeto.

Certa vez, você disse que seus pais lhe ensinaram que a dor pode sempre se tornar uma história engraçada. O humor é um dos segredos transformadores da vida?
Meus pais acreditavam muito no poder do humor. Éramos ateus, e o humor se tornou quase uma religião em nossa casa. Em minha família, sempre foi viva a ideia de que sempre se consegue superar qualquer tipo de tragédia com o riso, de que é possível encontrar o lado engraçado em qualquer episódio. Isso não significa que os fatos tristes se tornem menos doloridos na hora em que estão acontecendo, mas sim que, com o humor, a dor acaba durando um espaço de tempo definido. Você acaba aprendendo a superar seus problemas e a transformá-los em algo mais leve. Não acredito em se vitimizar e acho que uma das razões disso é que aprendi essa lição em casa. Se você consegue praticá-la no dia a dia, torna-se o herói de sua própria história, não uma vítima dela.

A velhice tem sido um tema recorrente de seus livros. Envelhecer é sempre descrito por você como algo ruim. Por que reforçar ainda mais os horrores da velhice?
Eu só quis dizer que não há nenhuma razão para as pessoas falarem: “Ai, a velhice é incrível, fabulosa, estou enfim na minha melhor fase”. A grande verdade é que ficar velho é muito difícil. Não estou dizendo que seja algo terrível, apenas estou levantando uma questão: por que não podemos falar honestamente sobre o fato de que tudo o que escrevem sobre as maravilhas da velhice é lixo? Há um monte de livros por aí falando, por exemplo, que é na velhice que você pode ter a melhor transa da sua vida. Qual é a razão para alguém querer convencer as pessoas disso? É idiotice. Simplesmente é a mais pura mentira. Pensando nesse assunto, cheguei à conclusão de que seria no mínimo engraçado escrever sobre essa baboseira de que a velhice é legal. Com a velhice, vêm a perda de memória, a perda de independência física e da mobilidade. Você enfim tem tempo de sobra para ler, mas não consegue achar seus óculos de leitura.

Sua carreira é recheada de sucessos. Como podemos lidar bem com nossos talentos e conquistas?
Um fato na minha vida me ajudou a aceitar muito melhor meu próprio sucesso: sou de Nova York, uma cidade repleta de histórias de mulheres bem-sucedidas. Não seria assim se eu ainda continuasse morando em outros lugares. Eu vivia em Los Angeles, e minha mãe [a dramaturga Phoebe Ephron] fazia parte do pequeno grupo de mulheres que trabalhavam e tinham sucesso na carreira. A maioria das mulheres de lá naquela época ficava em casa, não como donas de casa exatamente. Elas eram, na verdade, pessoas desempregadas. Tinham faxineiras e lavadoras de roupa para fazer o serviço doméstico. Mas não trabalhavam fora. Eu via aquilo e pensava comigo: “Preciso sair deste lugar urgentemente”.

Desde os anos 60, quando você começou a escrever, as mulheres mudaram muito. Você se sente entusiasmada ou um pouco frustrada com as conquistas das mulheres daquela época até agora?
A situação das mulheres melhorou bastante em algumas partes do mundo, principalmente nos Estados Unidos. Milhares de nós passamos a fazer parte da força de trabalho. Ainda não ganhamos tanto ou mais que os homens, porém nosso salário está cada vez mais próximo do deles hoje do que nos anos 70. Mas há muito o que as mulheres precisam conquistar. Pense, por exemplo, na Arábia Saudita, onde elas não podem dirigir. Ou nas mulheres em diversos países africanos. Em muitos lugares, persistem tradições e hábitos arraigadíssimos, que servem apenas para manter a inferioridade das mulheres. Duas gigantescas revoluções foram a pílula anticoncepcional e o divórcio. Nos Estados Unidos, até muito recentemente, você não podia pedir o divórcio e simplesmente partir. E isso ainda é verdade em muitos países onde a sociedade é organizada de modo que a mulher não pode deixar um casamento ruim. O fato de uma mulher não poder dirigir na Arábia Saudita é apenas reflexo desse conceito maior, que é o de colocá-la em seu “devido lugar”. Há tantas culturas não ocidentais que ainda mantêm as mulheres sem poder algum. Por isso, ainda temos muito a percorrer até desfazer essas tradições.

Você fala bastante da importância do trabalho na vida da mulher. Como vê aquelas mulheres que decidem focar sua vida nos filhos, na casa e no marido?
Há mulheres muito sortudas que possuem uma estrutura a seu redor que lhes permite mudar de foco na vida de tempos em tempos. Quando meus filhos estavam na escola, eu era amiga de uma das mães que tinha acabado de abandonar um carreira bem-sucedida como advogada para cuidar das crianças. Ela teve sorte, porque, naquele momento, seu marido ganhava o suficiente para manter a família. Ou seja, para se dar ao luxo de ficar em casa, primeiro é preciso ter um companheiro que tope bancar todo o resto sozinho. Os filhos dessa minha amiga cresceram, e ela voltou a se tornar uma advogada de sucesso. O que quero dizer é que as prioridades podem mudar ao longo da vida. As mulheres têm um talento especial para isso: são capazes de mudar de foco e de se reinventar conforme o tempo passa. Isso é um talento muito feminino.

O sexo é um dos grandes temas do cinema em geral, e você mesma já escreveu várias vezes sobre o assunto. A sociedade ocidental não anda superestimando o sexo?
Não sei como é possível superestimar algo tão primordial na vida. Sexo é ótimo, incrível e ponto. Há tantas outras áreas na vida que causam ansiedade… Há quem tenha enorme ansiedade em relação à comida, por exemplo. Um pouco de ansiedade não é a pior coisa do mundo. Sexo é uma área presente, essencial para todos. É preciso se acostumar com esse fato e levar tudo de forma mais tranquila. Pessoas, acostumem-se ao sexo! [Risos.] A verdade é que hoje não tenho a menor ideia sobre sexo, só sei do que escuto dos outros, dos mais jovens. Mas sei que, mesmo com tantas revoluções e invenções tecnológicas, as pessoas ainda querem se apaixonar e ter uma boa vida sexual. E nenhuma dessas duas coisas é tão fácil como a gente gostaria, mas esta é a vida, e precisamos aceitar isso.


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Sobre a autora

Andresa de Carvalho é jornalista e fez carreira no mundo digital gerenciando projetos e escrevendo para grandes marcas. É co-fundadora da Casa dos Textos, tia profissional e boleira de mão cheia.