Concentração e exclusão bancária no Brasil

Capítulo 1

Cassio Sader
3 min readMay 13, 2020

Primeiro de uma série de artigos para exemplificar a utilização de dados para a construção de narrativas, "data-driven storytelling" no jargão em inglês.

Os sem banco

Dos 5.570 municípios do Brasil, 2.321 não possuem agências bancárias, segundo o Banco Central. Segundo o IBGE, são quase 17 milhões de brasileiros que precisam fazer uma viagem intermunicipal para conhecer uma sucursal de banco, desses que patrocinam futebol, novela e carnaval. Loterias, correspondentes bancários e pagamentos com cartão de plástico quebram o galho, mas não é a mesma coisa.

Um dos primeiros encontros dos prefeitos de municípios com 1 agência bancária é com o gerente do banco. Contas do município, transferências constitucionais, folha de pagamento, financiamentos diversos, tudo isso faz do gerente da única agência uma espécie de secretário das finanças de fato. O mesmo vale para empresários urbanos e rurais locais.

Inclusão bancária

Anualmente, o Fundo Monetário Internacional realiza a Pesquisa de Acesso Financeiro (FAS, em inglês), que coleta dados sobre acesso e uso de serviços financeiros básicos em todo o mundo. Os resultados da pesquisa são divulgados no site do FMI (http://data.imf.org/fas). Em sua definição, a pesquisa reune um "conjunto de dados do lado da oferta sobre acesso e uso de serviços financeiros destinado a apoiar os formuladores de políticas para medir e monitorar a inclusão financeira e avaliar o progresso".

Dentre os diversos indicadores, estão o número de instituições financeiras e a quantidade de agências por habitantes e por área nos países pesquisados. Esses indicadores, no entanto, diferentemente dos demais, podem revelar aspectos mais importantes sobre os diferentes contextos locais. No Brasil, a existência ou não de agência bancária em um município, mais ainda se de banco público, contempla as dimensões sociopolíticas e produtivas para além das demais estatísticas, mais afeitas a formações de rankings do que à compreensão da realidade.

No Brasil, para os 13 milhões de habitantes dos municípios que contam com apenas 1 agência bancária, gerente de banco é autoridade de primeiro escalão, ao lado do prefeito, do juiz, do padre e do grande fazendeiro.

Concentração bancária

Em 1989, 3.224 municípios dos 4.491 existentes contavam com agências bancárias. Em 30 anos, foram criados mais de 1 mil municípios no país, e o número de municípios com agências bancárias cresceu para 3.239, 15 a mais. A cobertura era de 71% das cidades, e passou para 58%.

Há 30 anos, 13 bancos tinham mais de 300 agências. Em 2019, só 6.

Eram 15 mil agências divididas entre 162 instituições (chegaram a ser 229, em 94). Hoje, são 20 mil (passarem de 23 mil, entre 2013 e 2016), e 113 bancos.

Bancos públicos

Um dos aspectos da concentração bancária é a uniformização da atuação, mesmo tendo o Brasil um abismos de desigualdades regionais. O desenvolvimento local fica inviabilizado de utilizar os instrumentos financeiros disponíveis se os custos são os mesmos em uma grande metrópole na zona rural de um município do Amazonas. Se olharmos para o modelo alemão, com bancos definindo taxas de juros regionalmente, se percebe o erro estratégico crasso que foram as privatizações e liquidações dos bancos públicos estaduais.

Má gestão, fraudes, rombos e usos políticos das instituições justificariam intervenções e saneamentos nos bancos públicos estaduais, e não as liquidações, nos sentidos legal e comercial. As privatizações se deram no auge da ideologia neoliberal, pretexto ideológico para o avanço dos bancos privados sobre o patrimônio público. O grande ativo dos bancos públicos é o conhecimento acumulado dos melhores caminhos para o desenvolvimento local, com as privatizações, se fecharam agências, demitiram-se trabalhadores e perdeu-se esse ativo, mais necessário agora do que nunca.

Cenas do próximo capítulo: a Caixa

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