Neymar não "é" Negro

“Não escutei os gritos. Não escuto coisas fora do campo. Só jogo futebol.”

Essa foi a resposta de Neymar aos urros que imitavam macacos, vindos das arquibancadas, no estádio Cornellà-El Prat, sábado. Um empate entre Español e Barcelona.

Muitas coisas colaboram para que o silêncio de Neymar, seja o barulhento silêncio de Neymar. Podemos vir lá de trás, com a política oficial de branqueamento da população brasileira. Sim, isso foi uma política de Estado! E vigorou entre entre 1877 e 1930, quando o país incentivava a vinda de imigrantes brancos para se misturar com os nativos e clarear a população. Leia mais sobre aqui: http://pllqt.it/O69Qlr

É preciso frisar que a identidade negra é sistematicamente apagada no Brasil. O que começou com o art. 1º do Decreto 528 de 1890 (que dispunha dos incentivos à imigração de brancos) se emenda com o hoje “mas você nem parece tão preto! É clarinho!”, como isso fosse ruim e precisasse ser abrandado.

Podemos nos deter no ídolo dos jogadores, que muito versou sobre racismo. Pelé, que como sabemos, calado é um poeta, já enterrou o assunto diversas vezes. E sempre joga uma pazinha de terra pra garantir o sepultamento.

“Se eu fosse querer parar o jogo cada vez que me chamassem de macaco ou crioulo, todos os jogos iriam parar. O torcedor grita mesmo. Temos que coibir o racismo. Mas não é num lugar publico que você vai coibir. O Santos tinha Dorval, Coutinho, Pelé… todos negros. Éramos xingados de tudo quanto é nome. Não houve brigas porque não dávamos atenção. Quanto mais se falar, mais vai ter racismo.”

Temos ainda, o pai de Neymar, que administra “brilhantemente” sua carreira, com cerca de 30 pessoas. A filosofia do Neymar Pai é simples e “objetiva”:

“Quero o Neymar se preocupando só com a bola, com o futebol. Ele é jogador, ponto final.”

Não podemos esquecer que as entidades de classe esportivas são VERGONHOSAS. Lembram que o COB orientou que atletas evitem “polêmicas” enquanto estiverem como “embaixadores do Time Brasil”: http://pllqt.it/Mu3zkE

“Enquanto o atleta não está sob nosso controle, não temos domínio nenhum, cada um pode se posicionar como quiser, como aconteceu esta semana (com a Joanna Maranhão). Quando chega aqui sim, a gente dá uma orientada, mostra que quando está aqui dentro é um embaixador do Time Brasil, e que é melhor ele guardar sua posição para si. Não temos nada contra, só que não fale em nome da delegação inteira”

Fiquei ligeiramente feliz ao ler a coluna de Cosme Rómoli sobre o assunto. Finalmente isso é considerado um assunto da imprensa esportiva! Ufa! (Você pode lê-la aqui: Neymar toma a pior decisão diante dos racistas. Imita Pelé. Não percebe. Seu silêncio é cúmplice do preconceito. Neymar precisa assumir que é negro. Graças a Deus… http://pllqt.it/UZqOvV) MAS discordo do tom. O Neymar foi construído para ser um não negro. Para apagar sua negritude. Todos os ventos que o tangem dizem: NÃO.

Precisamos cobrar que a Lei 10.639, que versa sobre o ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana nas escolas, seja de fato implementada. Isso é muito urgente.

Precisamos cobrar que a responsabilização das Igrejas que pregam para seus fiés que essa lei ensina a ~macumbaria~ e ~coisas do capeta~. Pq? Professores evangélicos impedem ensino da história e cultura africana nas escolas, diz especialista http://pllqt.it/DGZUfZ

“O desafio maior hoje é a atuação das igrejas evangélicas através dos professores evangélicos que, em sua grande maioria, demonizam tudo em relação à história e cultura afro-brasileira. Porque a história e cultura afro-brasileira parte da religiosidade, da cultura, e eles acham que tudo é demônio”

Precisamos cobrar que o Estado seja laico de fato e que implemente integralmente a Lei 10.639. Precisamos saber quem somos para então afirmar quem somos.

O Neymar é uma vítima da conjuntura. Precisamos nos preocupar para que outros alunos não frequentem a escola da vida que Neymar frequentou. Neymar não se vê como negro. E nós sabemos porque.