Os corpos falam. As balas também

Esta semana comecei a publicar alguns posts com informações picadas de um trabalho que venho desenvolvendo sobre Segurança Pública e Direitos Humanos no Rio de Janeiro. (Em breve poderei falar mais sobre).

Conto corpos e balas. E olha… a minha planilha cresce a olhos vistos! Sinceramente, não sei o que pode haver num lugar que já teve, apenas em 2016, 179 tiroteios, que se possa chamar de "Museu do Amanhã". O que haverá lá amanhã se estamos com uma média de 1.8 tiroteio por dia? Inclusive quando eu publiquei essa informação no Twitter, eram 178. Agora temos mais dois mortos e um baleado a mais pra somar aos óbitos nessa cidade Maravilhosa. Mais uma linha na minha planilha…

Vou replicar aqui meus deprimentes tweets:

E fechando o dia de hoje (espero que sem mais atualizações):

A situação no Rio de Janeiro está vergonhosa. Somando-se a todas estas mortes, temos 33 categorias profissionais de servidores em greve.Ontem um bombeiro foi trabalhar a pé porque o que ele ganha como "vale transporte" (R$ 100, sem aumento há 5 anos), não cobre as despesas e ele está sem receber. Sem almoço, PMs trabalham meio horário. Sem receber horas extras (Regime Adicional de Serviço-RAS), policiais se negam a cobrir os buracos no "planejamento". São 17620 PMs a menos nas ruas. Só este mês 10 PMs foram baleados e 3 mortos. 7 das ocorrências, em áreas "pacificadas".

Aqui vemos expostos alguns abismos:

  • A UPP falhou. Vamos admitir isso e reformular essa política (ou programa? ;)) antes que morra mais gente?
  • Vamos de fato fazer o que se propôs a ser feito que é o policiamento de proximidade? Porque PMs dançando em baile de formatura e fazendo partos não é polícia de proximidade. É deslocamento de função.
  • A UPP é o único plano de segurança que a Secretaria tem. Vemos pela RAS, que nada mais é do que um penduricalho no planejamento de segurança, que precisamos que mais que isso. Precisamos pagar os funcionários, inclusive.
  • Funcionários. Policiais são funcionários. Não são heróis. Quando esse rótulo cola nestes funcionários públicos, o Governo do Estado tem a desculpa perfeita para lhe sonegar direitos. "Morreu porque era um herói!". Não, os PMs estão morrendo nas UPPs porque o Governo do Estado não lhes confere condições dignas de trabalho. Policiais ganham "vale coxinha", marmitas pobres e até podres, trabalham em contêineres. E o Governo do Estado do Estado os chama de heróis. Porque se os conferisse o status de funcionários públicos, teria que garantir direitos, plano de carreira e tudo o que um herói não precisa porque ele é um herói com a missão de morrer por você. Mentira. Policiais morrem porque o Estado falhou.
  • As vidas perdidas são em decorrência da absurda e sanguinária ‘guerra às drogas’. E como sabemos que não existe guerra contra coisas, a guerra é contra pessoas. Pessoas que — de um lado ou outro da guerra — tem o mesmo perfil: pobres, moradoras de bairros populares e majoritariamente negros, com baixa patente. Porque quem elaborou essa política, o fez no ar condicionado de um escritório lindo. Onde o sangue não chega.
  • Isso vai mudar, mas com o fim da proibição às arbitrariamente selecionadas drogas tornadas ilícitas. E não com a desmilitarização. Não existe desmilitarização em estado de "guerra". É urgente a necessidade de legalizar e consequentemente regular e controlar a produção, o comércio e o consumo de todas as drogas.