O silêncio da máfia do PT

Cedê Silva

16.março.2016

A FACULDADE DE MEDICINA DA USP carrega a triste tradição de alguns dos trotes mais violentos do Brasil. Foi na piscina da Atlética que, em 1999, o calouro Edison Tsung Chi Hsueh morreu afogado.

Reportagem de Malu Delgado na Piauí chamada Na Mira do Trote mostrou que a prática continua nos dias de hoje, e possui um farto vocabulário próprio. Como “funça” (“imposição de trabalhos diversos aos novatos, incluindo a faxina das casas dos veteranos”), “sequestro” (“ritual de colocar o estudante recém-chegado numa sala, nu, e obrigá-lo a encenar posições sexuais, ou segurar frutas entre as nádegas”), e “pascu” — cujo significado deixarei lá no texto original.

A Operação Lava Jato tem mostrado que a grupos de criminosos, de fato, não falta criatividade no léxico. Mas a reportagem na Piauí traz algo mais interessante: os trotes formam “comunidades de segredo”. O professor Antonio Ribeiro de Almeida Júnior

“(…) classifica o trote como um teste de silêncio, “a porta aberta a processos de corrupção” — dentro da universidade, com a prática e o acobertamento de abusos e ilegalidades; e fora dela, quando os estudantes adeptos do trote, já formados, concordam com ilícitos e atuam no mercado de trabalho. Sobre a escola em que leciona, fala abertamente, sem medo de represálias: “Há na Esalq [Escola Superior de Agricultura] departamentos e áreas de estágio onde dificilmente o aluno entrará se não pertencer a esse grupo do trote; há empresas [ligadas ao setor do agronegócio] que só contratam pessoas desse grupo.”

***

Em 2010 fiz o Curso Focas do Estadão, uma espécie de trainee ou residência em Jornalismo. Certa vez um funcionário da Odebrecht conversou com a gente. E ele disse, com a maior naturalidade, que a empresa tinha a cultura de contratar por indicação. Afinal, se uma pessoa era de confiança de um dos funcionários, isso seria um ativo para a empresa.

***

Na máfia italiana vale a omertà— o código de silêncio, a cultura de não ajudar investigações nem informar nada à polícia. Faz parte da omertà que alguém mais azarado aceite ir para a cadeia sem delatar os colegas, na expectativa de que será ajudado de alguma forma pela famiglia.

Quadrilhas só conseguem ficar grandes e bem-sucedidas se arregimentarem membros dispostos a levar uma bala pela organização ou pela causa — gente como Delúbio Soares, José Dirceu, José Genoino e João Vaccari Neto.

É muito significativo, portanto, se alguém faz questão de informar que o político X ou Y, condenado na Justiça, “não ficou rico” — quando é justamente o tipo de criminoso que não fica rico o mais perigoso de todos.

Nesta terça-feira (15 de março) foi homologada a delação de Delcídio. Que significativo que neste mesmo dia ele tenha enviado uma carta ao diretório do PT no Mato Grosso do Sul onde se lê:

“Sirvo-me do presente para informar minha decisão de desfiliação do Partido dos Trabalhadores”.
Like what you read? Give Cedê Silva a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.