Cafeteria Intelectual

Fui a esse lugar, outro dia, se chamava Beluga Café. Possuía uma decoração minimalista e um conceito que estranhei. Não parecia um estabelecimento para tomar uma bebida, no final das contas, tinha mais cara de um salão que você iria para discutir Machado de Assis ou apreciar um concerto de Bach.

Todos no estabelecimento aparentavam já ter lido Dostoiévski, era com uma exigência para permitir a sua entrada.

  • Quem escreveu ‘Crime e Castigo’?
  • Eu não sei, só queria tomar um café.

Ainda bem que não me perguntaram isso, porque até para inventar essa piada eu tive que buscar no Google como se escrevia o nome desse cara e também o título de algum de seus romances.

Fui até o balcão fazer meu pedido, ao encarar o atendente do caixa, mais uma vez me senti extremamente intimidado. Aquele homem ali, prestes a tirar meu humilde pedido ostentava uma áurea de quem já havia lido todos os modernistas brasileiros, os principais romances russos e depois de tanta sabedoria acumulada realizara que livros já não serviam mais ao seu propósito.

Agora ele era capaz de absorver sapiência da própria existência, cada respiração completa desse homem equivalia a sabedoria de uma velhinha de 90 anos. A sua escolha de servir café como carreira era na verdade tão profunda que um aluno de letras poderia basear sua monografia nessa decisão.

Aliás, todos os clientes ali dentro também pareciam saber o segredo do universo, e aparentemente a resposta para ele era tomar café de 12 reais as 3 da tarde no meio da semana, saboreando o tom cítrico e aveludado daquele grão colombiano.

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