O abuso do bundefora

Existem grandes vantagens em ser ateu. Coisas que ninguém te ensina mas você percebe conforme os anos de descrença se acumulam.
Eu vou ao banheiro de noite sem medo de espíritos, uso meu domingo para algo melhor que ir a igreja e não tenho mais medo do homem das nuvens ler meus pensamentos, por incrível que pareça, isso já foi um grande problema para mim.
Quando eu tinha uns 11 anos, estava fazendo minha primeira comunhão e aquela lavagem cerebral começou a ser recusada pelo meu inconsciente. Toda noite antes de dormir eu fazia minhas orações e ficava praticando, tentando decorar todas as preces que tínhamos aprendido nas aulas de catecismo.
Mas por algum motivo, depois que eu terminava e me preparava para finalmente dormir, a cada 10 segundos pipocava dentro da minha cabeça “Maria mãe de Jesus é uma puta”.
Eu ficava desesperado! Pedia perdão para deus na hora, extremamente assustado, convicto de que meu passaporte para o inferno tinha acabado de ser carimbado.
“Maria é uma puta. Porraaaaa! Assim você vai pro inferno certeza sua anta!”
E já começava a me justificar.
“Desculpa senhor, eu sou um pobre coitado, não sei porque fico pensando nisso. Desculpa, desculpa, desculpa. Eu te amo, eu te amo, eu te amo. Maria é uma puta!”
Você pode imaginar o transtorno pelo qual essa criança passou. Mas fiquem tranquilos, fui curado! Encontrei o caminho da luz para a sanidade mental. Basta não acreditar em coisas que não existem!
E apesar do ateísmo ter me salvado dessa síndrome de Tourette esquizofrênica-espiritual, não é de longe o maior benefício que usufrui até agora da não-crença.
A grande carta na manga do ateísmo é poder chantagear as pessoas a fazerem qualquer coisa que você quiser, caso contrário, você invoca o demônio. Experimentei isso com a minha mãe.
“Mãe, preciso de dinheiro.”
“Vai trabalhar moleque!”
“Senhor das trevas! Ó, Sete peles, me ouça!”
“Paaaaara com isso agora! Onde já se viu ficar falando essas coisas! Toma aqui esse dinheiro.”
É incrível, você convence qualquer pessoa a fazer o que você quer, basta invocar algo que não existe.
Estava com a minha namorada na casa dela, sábado a noite, e ela não queria transar. Tentei de tudo. Beijinho na orelha, massagem no pé, assistir TV de conchinha até meu braço dormir e nada. Resolvi apelar.
“DemÔnio! Peço que desça a esse lar e revele-se, ó, louvado tinhoso!”
Funcionou. Mas confesso que fiquei com uma pontinha de culpa. Teria sido isso um estupro do coisa ruim? Se você pensar do lado dela, sem dúvidas foi algo horrível que eu fiz. Invoquei o belzebu, o satanás, o publicitário das Casas Bahia.
Mas se você analisar da minha perspectiva, tudo o que fiz foi contar uma história fantasiosa, sem pé nem cabeça, que a convenceu a dormir comigo. Nada muito diferente do cara que engravidou a Maria e a convenceu que de que ela permanecia virgem e carregava o filho de deus.
Tem gente que acredita em cada coisa.