Quando fui ao proctologista aos 22 anos

Essa não é uma boa história, ao menos para mim. Também não sei quem devo responsabilizar pelo início de tudo isso, talvez minha genética ou um jantar mexicano duvidoso, ou mais provavelmente o aplicativo do Facebook que me deixou vários minutos a mais sentado na privada toda vez que ia ao banheiro.

Responsáveis a parte, o fato é que, um belo dia, um incômodo anal se instaurou em minha vida. Era um misto de dor, coceira e ardor, algo que claramente não podia ser ignorado. Ex-namorada e saldo negativo no banco a gente ignora, dor no cu não. Tive que ir ao médico.

Nunca tinha ido ao proctologista então agendei o que minha mãe me indicou, lembre-se, na época eu tinha 22 anos e ninguém nunca tinha tocado meu “inter-glúteos” até então. A médica era uma mulher, o que me deixou ainda mais tenso, mas sua avançada idade me acalmou, ela já não tinha jovialidade para eu me preocupar se um exame anal estragaria minhas chances com ela.

Cheguei no consultório e ele era apertado, pequeno, claustrofóbico e obviamente eu era a única pessoa com menos de 40 anos na sala de espera, aguardei tenso a minha vez.

Ouvi me chamarem, e ao levantar minha cabeça para identificar quem havia dito meu nome, me deparo com uma médica, não a cinquentona com quem tinha agendado minha consulta, mas com uma gatinha de uns 27 anos, bem vestida e de salto alto, me chamando para a sala de consulta.

Me levantei, entrei na sala, me sentei e ela disse “Eu sou a doutora Fabiana, estou trabalhando com a doutora Silvia e vou fazer sua consulta prévia, depois, se precisar, ela vai te examinar”. Concordei com a cabeça e já comecei a prever o que teria que dizer para aquela mulher linda a minha frente.

Peso, Altura e Idade

78Kg, 1,80cm e 22 anos

Você bebe?

Sim

Usa drogas?

Fumo Maconha (Ela fez uma cara de espanto! Logo pensei, imagina quando eu falar do meu cu.)

Ela me perguntou o que havia acontecido para eu ter agendado a consulta, eu segui explicando com detalhes para aquela moça bonita como meu cu estava me incomodando havia dias, ela fez algumas perguntas ótimas, como “Quando você coloca a mão, sente algo para fora?” e assim foi esse papo ótimo com aquela beldade. Ao terminar a sessão de perguntas eu já havia perdido todo meu orgulho e amor próprio por estar papeando sobre um problema no cu com uma mulher da minha idade. E o pior ainda estava por vir.

“Vamos examinar, me acompanha por favor?”

Segui a moça para um porta muito pequena, minúscula, ela deslizou e eu vi lá dentro mais duas mulheres, a médica com quem tinha agendado a consulta inicialmente e sua enfermeira. A porta fechou atrás de mim e eu me vi em um sala minúscula, onde praticamente havia apenas espaço para duas pessoas, mas eu estava lá com mais três mulheres, representando 3 gerações, sem saber o que estava por vir e já sem orgulho próprio para contestar qualquer coisa, apenas obedeci.

“Você pode ficar em 4 apoios nessa mesa e abaixar as calças”

A mesa era alta, portanto meu cu ficou literalmente na linha dos olhos daquelas três mulheres, eu fechei o olho e tentei esquecer aquilo ao mesmo tempo que acontecia. Então procedeu-se o exame.

Eu não quero dar todos os detalhes sórdidos do que aconteceu em seguida, então vou fazer uma metáfora, todo mundo adora uma metáfora. Sabe quando você vai espremer laranja? Imagina na sua cabeça a laranja cortada ao meio e o espremedor, aquela parte pontuda e redonda que gira. Meu cu era a laranja, e alguma daquelas mulheres manuseava o espremedor enquanto as outras duas assistiam.

Eu não tenho mais tanta memória do que aconteceu depois, só olhava para o chão, recebi o diagnóstico de hemorroida com visível apatia, por que depois daquele exame, nenhuma doença poderia me abalar.

Lembro de ir para casa e não conseguir olhar nos olhos dos meus pais enquanto jantava, nem em mais nenhum outro dia daquela semana.

Em pleno século XXI, quando temos um aparelho em nossos bolsos capazes de acessar todo o conhecimento humano acumulado ao longo de 5.000 anos de história, quando precisamos examinar o cu de alguém, as pessoas enfiam um treco pontudo, redondo que expande seu rabo e gira.

Somos selvagens ainda.

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