Caindo e nunca espatifando

Era tarde da noite quando as pegadas haviam desaparecido. Os gritos eufóricos de medo, como saindo de gargantas queimadas, pareciam não existir mais; os corvos já não cantavam; o cheiro sumiu. Silêncio, ele pensou, até que enfim silêncio. Tirou as mãos que tampavam os ouvidos e saiu do quarto, de fininho.
O menino, pardo de tanta sujeira, sujo de tanta tontura e tonto de tanta sede, sozinho naquele nauseante ambiente, caminhava sem saber para onde. Mas algo em seus pés simplesmente o mandava seguir em frente, descer o lance de escadas, atravessar o corredor da sala de estar e chegar até o porão. Acendeu as luzes num jeito automático, como se fosse hábito a forma de todos os seu dedos se encaixarem perfeitamente no interruptor.
O que se revelava diante dos pequeninos olhos míopes agora sem óculos, era puro. Jocosamente puro. No chão, estavam jogados mistura de escalpo e lama, pedaços de pele podre, dentes e suas mandíbulas; pano velho, fedor pestilento, asqueroso de morte, medo e sangue. O menino sorriu. Lembrava quem era.