Casarão, pt. 2

Junto com os operários empoeirados de suor e os estranhos de terno com seus cigarros, Júlia entrou no trem. Fez o mesmo que fazia sempre que estava em um ambiente estranho, insosso. Levantou a gola do roupão como numa tentativa de se proteger do que estava lá — a gritaria infundida dos murmúrios que escutava. Era melhor ter voltado com Anna, pensou. Mas não era isso que queria de verdade. O que queria de verdade era o mergulhar no momento e dobrar o espaço-tempo a fim de voltar a instantes atrás, naqueles exatos instantes atrás.

Antes de estacionar em São Hamburgo, estação onde Júlia descia, o trem parava em Teixeira-omã, pequena província que morara um dia com sua mãe falecida. Os operários e os homens de terno desceram, junto com suas conversas sobre o tempo e os baixos salários das indústrias locais.

A menina pôde, enfim, abaixar a gola do roupão, não precisava mais se proteger. Voltou a respirar com calma e até se levantou do banco para se espreguiçar. Soltou um pequeno gemido ao fazê-lo e sorriu. Estava livre.

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