Chaminé

Sentado no telhado ao encosto de sua chaminé, Aaipu fumava seu último cigarro do mês e com a ajuda de seus mágicos pinceis, desenhava mais um de seus monstros imaginários. Dessa vez, o monstro escolhido foi a lembrança tenra de sua infância perturbada. Aaipu não mira em uma cena específica, como quando caiu de costas de uma árvore gigante, ou quando perdera a mãe num acidente de avião. Não. Aaipu relacionava os cheiros que sentia aquela época com os novos cheiros que vieram; alguns passos silenciosos de gatinhos em sua cama; uma chaminé…..
— Mãe, você pode me passar um pouco de açúcar? Eu juro que pego só um tico dessa vez.
— Posso sim, filho — disse com um sorriso no rosto redondo e alegre. Ah, como Aaipu adorava aquele sorriso. O tipo de sorriso que bombeia água pras chuvas, pensava.
Apagou o cigarro e desceu do telhado. Tocou devagar as velhas teclas de seu velho piano, que ficava em frente ao seu espelho da sala. O til e pequenino barulho veio como o melhor dos perfumes; ao passo que teclava suavemente alguma sequência de melodia calma que estava escrevendo, ali mesmo, ainda em pé, o jovem não percebia o sorriso bombeador de águas que sorria.