Universidade pública gratuita e universal é capitalista, é liberal, e é inevitável.

Um debate que vem crescendo na sociedade brasileira é se as universidades públicas do país devem começar a cobrar mensalidade de quem, seguindo alguns critérios, tem condições de pagar. Deve-se reconhecer que o principal argumento tem certo apelo: As universidades públicas, mesmo após várias políticas inclusivas dos governos PT, são dominadas por ricos, e eles tem mais do que condições de pagar uma mensalidade.

Com isso o governo gastaria menos com o ensino superior, podendo investir mais em outras áreas. O site neoliberal Mercado Popular coletou informações do IBGE e montou um gráfico comparativo bem claro evidenciando essa afirmação.

Quanto aos mais pobres, bastaria que eles evidenciassem ter uma renda abaixo do teto, para serem isentos de uma mensalidade.

Claro que este argumento recebe críticas constantes, algumas delas bem contundentes, como o fator da burocracia para comprovar a baixa renda afastar os alunos mais carentes, ou que cobrar a mensalidade é se conformar com a situação. Somados a estes argumentos existem vários outros, mas o objetivo desse texto é outro. Este texto vai (tentar) mostrar que, dentro das lógicas do mercado capitalista liberal, a universidade pública gratuita e universal não é nem boa, nem má, ela é inevitável.

No final do século XIX houve uma das maiores revoluções da história da humanidade, a revolução industrial, e junto consigo ela trouxe para a sociedade uma série de mudanças estruturais. Uma delas foi o surgimento da educação pública de base. Com a evolução tecnológica e a concentração dos

meios de produção, os donos de fábricas precisavam de um modo eficiente para capacitar os seus funcionários, além de um jeito de tirar os filhos deles de dentro das fábricas, com a finalidade de aumentar a produtividade dos pais. Assim, por pressão dos detentores do capital, os primeiros estados começaram a criar escolas públicas. Lugares onde as crianças eram educadas para, quando estivessem prontas, tomar postos de trabalho.

Escola pública na era industrial

Hoje vivemos outra revolução: A revolução da informação, e assim como a revolução industrial, esta revolução está balançando todos os alicerces da sociedade. Um deles é o formato da educação superior. Educação básica não é mais o suficiente, as empresas precisam de trabalhadores com capacitações cada vez mais específicas, e nas mais diversas áreas. Por causa disso já há uma pressão grande para que o novo profissional no mercado de trabalho tenha pelo menos uma graduação ou curso técnico. É só questão de tempo para que este seja o requisito mínimo de qualquer trabalho, e quando isso ocorrer, a universidade pública universal gratuita surgirá.

Porém algumas ressalvas devem ser feitas quanto à essa mudança no ensino superior. Essas universidades, por terem como objetivo suprir o novo mercado de trabalho, produzirão profissionais com o perfil necessário para o mesmo, resultando em um certo sucateamento das áreas menos (ou nada) técnicas das universidades. Mais do que isso, ao se universalizar o ensino a qualidade do mesmo cairá, já que é impossível se manter a qualidade da educação quando a quantidade de alunos cresce muito.

Já existem diversos indícios, tanto do processo de universalização do ensino superior, quanto do foco técnico que esse ensino apresentará. No Brasil temos os institutos federais, que apresentam cursos técnicos com diplomas de graduação. Programas governamentais como o Prouni e o Reuni mostram a expansão da educação superior para a população mais carente. No mundo empresas como o Google, Facebook e Microsoft já fazem convênios com universidades para conseguir moldar profissionais condizentes com as suas necessidades, e países como Alemanha, Chile e EUA voltaram a expandir as suas universidades públicas.

O processo, assim como na revolução industrial, é inevitável. E de certa forma é positivo, mostrando avanços na nossa sociedade como geral. A incerteza fica no futuro da educação teórica, já que a mesma tende a perder cada vez mais espaço nas universidades públicas.

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