SESSÃO AZUL: Inclusão através do cinema

Iniciativa de duas psicólogas cariocas, o projeto Sessão Azul cresce e conquista famílias com crianças autistas em todo o Brasil

Image for post
Image for post
Logo do projeto (Fonte: Reprodução)

A sessão já vai começar! Como em toda exibição de um desenho animado, as crianças são a maioria e logo tomam conta do lugar. Acompanhadas por familiares e munidas com pipoca e refrigerante, elas aguardam o início do filme com uma ansiedade típica da infância. Entretanto, diferente do que podemos estar acostumados, nessa sessão de cinema as luzes nunca são totalmente apagadas e o volume do som permanece reduzido ao longo de todo o filme. Não demora muito para que as crianças, motivadas pelos personagens no telão, se sintam a vontade para correr, brincar e gritar dentro da sala. É assim que funciona a Sessão Azul, projeto voltado para a socialização de crianças com autismo.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que existam 70 milhões de pessoas com autismo em todo o mundo, mas quando levado em conta somente o contexto brasileiro não existem estatísticas oficiais. Segundo dados publicados pelo jornal o Globo, o Brasil utiliza pesquisas do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CCDD) para estimar, que, no país, uma em cada 110 crianças nascem com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

O TEA altera a qualidade da comunicação e da interação social, além de gerar, em alguns casos, déficit de atenção, hiperatividade e sensibilidade sensorial. Karine Gomes, mãe de Davi de 14 anos, diagnosticado aos 3 com TEA, destaca as dificuldades que enfrentou, devido à situação do filho, para inseri-lo no convívio social. “No começo, era muito difícil nós sairmos, pois ele era muito agitado e não gostava de lugares lotados e barulhentos. Aos poucos, eu fui aprendendo a lidar com as limitações dele e como era necessário levá-lo ao tratamento e a outros lugares, fomos vencendo essa situação”, conta Karine.

As pessoas com autismo estão amparadas por leis nacionais, em especial, pela Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (lei nº 12.764/12). O acesso à educação, à assistência médica e ao lazer são alguns dos direitos que deveriam ser assegurados tanto pelo governo quanto pela sociedade civil. Em relação a crianças e adolescentes, o direito a destinação de recursos e espaços para programas de lazer é mais uma vez reafirmado, no Estatuto da Criança e do Adolescente (lei n° 8069). Mesmo assim, a falta de opções de lazer e entretenimento ainda é apontada como uma das principais dificuldades por pais de crianças autistas. “Até bem pouco tempo, eu não conhecia projetos de lazer específicos. Ainda hoje, atividades esportivas praticamente não existem. Meu filho ama futebol, mas não consigo encontrar uma escolinha acessível para ele”, conta Elaine Benício, mãe de Hartur, de 5 anos, diagnosticado com TEA aos 2.

As atividades de lazer contribuem para o crescimento da criança autista, já que, se bem desenvolvidas, podem se tornar meios efetivos para a inclusão social. Para Ana Beatriz Freire, docente do Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o maior desafio para esse tipo de iniciativa é não se transformar em uma atividade invasiva para a criança. “É necessário oferecer atividades e objetos sem comandar a criança, mas sim apenas acompanhando-a em seus interesses e movimentos. Respeitar e não querer eliminar as manias, mas aproveitá-las para criar um laço de aproximação”, afirma a psicanalista.

UM EXEMPLO DE INCLUSÃO

Image for post
Image for post
Sessão Azul no Shopping Nova América aconteceu no início do mês de outubro e reuniu cerca de sessenta pessoas. (Foto: Cibele Pixinine)

Levando em conta os obstáculos vivenciados por famílias de crianças com autismo e acreditando na função terapêutica do lazer, o projeto Sessão Azul foi criado pelas psicólogas Caroline Salviano e Bruna Manta. Desde dezembro de 2015, a dupla, em parceria com voluntários e redes de cinema nacionais, oferece sessões de cinema adaptadas para crianças com distúrbios sensoriais no Rio de Janeiro.

Leonardo Bittencourt, gerente de projetos da iniciativa, conta que a ideia surgiu após perceber que muitas famílias deixavam de lado o convívio social por receio ou, em alguns casos, até vergonha da reação do autista em situações desconfortáveis. “Inspirados por projetos semelhantes no exterior e pela iniciativa do CineMaterna, nós decidimos propor, a um grupo de pais que atendíamos no consultório, a organização de sessões de cinema especiais voltadas para pessoas com TEA. Eles adoraram a ideia e a partir daí seguimos em frente com o projeto”, conta Leonardo.

E o sucesso cresce cada vez mais. Ao longo de quase dois anos, o projeto se expandiu para 15 cidades brasileiras, dentre elas, Brasília, São Paulo e Goiânia, e mais de 130 sessões já foram realizadas. A receptividade é tamanha que os organizadores estimam a participação de um público superior a 13 mil pessoas, além de cerca de cem pessoas, entre adultos e crianças, em cada sessão mensal nos cinemas parceiros. Alessandra Oroski e o filho Miguel, 8 anos, são fãs de carteirinha da Sessão Azul, já que participam desde os primeiros eventos. Até hoje, Alessandra não encontrou outra opção de lazer adaptado, mesmo assim, tenta socializar o garoto ao máximo. “Apesar de sentir os olhares de outros adultos e até de crianças, acho importante levar o Miguel para todos os lugares”, afirma ela.

A falta de opção não é o único problema, pois o alto custo de algumas atividades também dificulta a vida de famílias com crianças autistas. Esse é o caso de Elaine Benício, dona de casa e mãe de Hartur, que não costuma sair muito com menino de 9 anos. “Eu não conheço nenhum outro projeto como a Sessão Azul, fora isso, passear com o Hartur e duas irmãs mais novas acaba saindo muito caro”, relata Elaine. Mãe e filho descobriram a Sessão Azul pelas redes sociais, onde têm uma participação ativa através da página “Prazer, eu sou Hartur”. Eles foram pela primeira vez em uma sessão de cinema adaptada no último mês de outubro, no Kinoplex do Shopping Nova América. As expectativas estavam altas e, ao final do filme, foram superadas. “O que mais eu gostei foi o fato do ambiente permitir que a criança fique totalmente à vontade, elas podiam se levantar e andar sem que isso fosse um problema”, elogia a mãe.

Para atender a demanda, a Sessão Azul conta, atualmente, com a parceria de cinco redes de cinema, dentre elas, Kinoplex, Cinemark e UCI. Os filmes exibidos são escolhidos pelo próprio público na semana anterior ao evento, através de enquetes no site oficial e os ingressos podem ser comprados pela internet ou no momento da sessão. A primeira vez de Miguel de 9 anos, no cinema foi em uma Sessão Azul há cerca de seis meses. Desde então, ele e a mãe, Érica Nunes, são presença garantida todo o mês. Ela prefere levá-lo a lugares abertos e espaços como praias e parques, mas encara as idas a Sessão Azul como se fossem compromissos mensais. Para Érica, o projeto é essencial na vida de ambos, em especial na de Miguel, que sempre fica muito alegre ao sair da sessão e relembrar o filme assistido.

Além das sessões de cinema, o projeto também disponibiliza passeios adaptados no AquaRio. Desde o começo do ano, a parceria do aquário marinho do Rio de Janeiro e a Sessão Azul vem resultando em visitações com luzes de apoio, público reduzido e auxílio de voluntários para as famílias durante todo o circuito da visita. Iniciativas como essa são essenciais para melhorar a interação e o comportamento social das crianças, já que a brincadeira e o lazer as ajudam a organizar o mundo ao redor, segundo a psicanalista Ana Beatriz Freire.

Servir como primeiro degrau para a inclusão social é também um dos propósitos da Sessão Azul, pois, como destacado por Leonardo Bittencourt, é importante que a criança frequente também sessões regulares, independentemente das limitações ou adaptações necessárias. Esse mesmo pensamento é compartilhado por Karine que apesar das primeiras dificuldades com Davi nunca desistiu de incluir o filho na sociedade. “É sempre bom lembrar que essas crianças pertencem e querem viver em sociedade. As adaptações não irão acompanhá-las para a vida toda, elas vão amadurecer e terão que vencer os desafios e suas próprias limitações. Essa evolução, porém, só vai acontecer com o tratamento adequado e com muito apoio e amor da família, aí sim, tudo dará certo”, diz Karine.

Image for post
Image for post
Durante a exibição do filme, as crianças podem circular na sala sob o monitoramento dos voluntários. (Foto: Cibele Pixinine)

Reportagem produzida para a disciplina de Técnicas de Reportagem II (ECO/UFRJ).

Written by

Estudante de jornalismo da UFRJ. Apaixonada por literatura, cinema e, em especial, pela arte de contar histórias.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store