Eduardo Cunha perde mandato de deputado federal. Foto: Fábio Rodrigo Pozzebom/Agência Brasil

Abraço dos afogados: Cunha cassado 12 dias depois de Dilma

Três deputados goianos se ausentaram da votação: Jovair Arantes (PTB), Alexandre Baldy (PTN) e Pedro Chaves (PMDB). O deputado foi cassado por 450 votos a favor e apenas 10 contra.

Nos últimos minutos desta segunda-feira (12) a Câmara dos Deputados cassou o mandato do deputado federal Eduardo Cunha (PMDB) por quebra de decoro parlamentar. Ele foi acusado de mentir à CPI da Petrobras ao dizer que não tinha contas em bancos no exterior, mas depois, o Ministério Público da Suíça confirmou que ele tem depósitos no país.

Cunha deixou o plenário de cabeça erguida, com a mesma altivez do período em que foi um dos homens mais fortes do país. Considerado pelos petistas o algoz da presidente Dilma Rousseff, cassada pelo Senado dia 31 de agosto, Cunha usou os mesmos argumentos da ex-presidente para se defender em plenário.

Dilma afirmou ter sido vítima de vingança de Cunha, que só acatou seu pedido de impeachment um dia depois de o PT decidir votar contra ele na Comissão de Ética. A petista também reclamou da grande mídia e de articulações do governo interino de Michel Temer para derrota-la; afirmou que houve golpe, porque “não há crime de responsabilidade” em seu processo de impeachment e que os votos de 54 milhões de brasileiros foram ignorados.

Ao politizar sua defesa, Eduardo Cunha repetiu o mesmo script de seus adversários petistas. Disse que foi vítima de vingança do PT por ter aberto o processo de impeachment contra a então presidente. Reclamou que os votos dos 270 mil cariocas que o elegeram deviam ser respeitados; e disse que foi vítima do “binômio governo — Rede Globo” e que esses agiram “em associação com o PT”. Ele próprio sentiu estranheza dessas palavras e completou na sequência: “É engraçado, mas é assim”.

O agora deputado cassado representou a si próprio na sessão de cassação. Foi o mesmo personagem altivo, arrogante (virou as costas para os oradores que o criticaram em plenário) que comandou a Casa por mais de um ano e, neste período, foi usou e abusou de seu grande poder. Cassado, com poucos aliados (apenas 10 deputados votaram a favor de seu mandato contra mais de 200 aliados da época em que era poderoso) ele não demonstrou abatimento e mandou recados a todos os seus adversários, lista que aumentou com a inclusão dos governistas.

Repetiu mais de uma vez que a Rede Globo fez campanha aberta em favor de sua cassação e mandou recado para o presidente Temer: “O governo se aliou ao PT para eleger o presidente da Casa. Todo mundo sabe que ele (Rodrigo Maia) é genro de Moreira Franco (secretário-executivo do Programa de Parcerias de Investimento do governo federal e um dos assessores mais próximos de Temer). Essa articulação, disse, levou a sua cassação.

Cunha acusou Maia de marcar a sessão para as vésperas da eleição apenas para que ele fosse cassado. “Se a votação ocorresse depois da eleição o resultado seria outro”. O ex-homem forte da República respondeu ao ser questionado quais tinham sido seus erros que possibilitaram o resultado desta segunda-feira: “Errei, mas não foram meus erros que levaram a minha cassação. Foi a política”.

Placar da votação da cassação de Cunha

Dilma Rousseff e Eduardo Cunha foram grandes adversários e os dois perderam seus mandatos. Como na fábula do escorpião, que ganhou carona do sapo para atravessar o rio depois de prometer que não iria picá-lo. Não cumpriu a promessa e ambos morreram afogados. Dilma foi cassada por 61 votos a 20. Cunha perdeu o mandato de deputado federal por 450 votos a 10.

Diferentemente do discurso de ambos, não caíram por vingança mútua. Eduardo Cunha carrega uma longa ficha de denúncias de enriquecimento ilícito, entre outras acusações. Já Dilma, pelo “conjunto da obra” que levou o país a uma grande recessão econômica.

Jovair disse a Cunha que faltaria à sessão

Os deputados Jovair Arantes (PTB), Pedro Chaves (PMDB) e Alexandre Baldy (PTN) não foram à sessão de cassação de Eduardo Cunha, ausência que beneficiou o acusado. Na realidade, Cunha teve 61 votos, 9 que se abstiveram, 42 ausências, além dos 10 favoráveis. Jovair havia dito na segunda-feira que “provavelmente” iria à sessão, mas ele já sabia que faltaria. “O Jovair não veio votar por causa de sua repugnância com tudo isso. Ele me ligou várias vezes”, contou Cunha na entrevista coletiva logo após a cassação ao ser questionado por que o deputado goiano não foi à sessão.

O peemedebista Pedro Chaves evitou falar à imprensa durante as duas semanas que antecederam à sessão para responder se votaria a favor ou contra a cassação. Ontem ele revelou sua posição favorável ao agora deputado cassado ao se ausentar da sessão. O discreto Pedro Chaves prestou depoimento como testemunha de defesa de Cunha no Supremo Tribunal Federal (STF) em 30 de agosto. Alexandre Baldy, diferentemente de Chaves, declarou a todos os jornais que votaria a favor da cassação, mas fugiu da sessão.

Nesta terça-feira (13), Alexandre Baldy chegou cedo à Câmara dos Deputados para presidir a sessão da Comissão de Segurança Pública. Usando sua conta no Twitter (@alexandrebaldy), o deputado do PTN alegou que Rodrigo Maia quebrou o acordo que teria feito com os líderes e que, por isso, ele foi cumprir agenda no interior de Goiás.

Eu questionei o deputado que sua ausência ajudou Eduardo Cunha, mas ele respondeu: “Não ajudei Cunha. Tenho certeza que não faltei à sessão mais importante, pois não foram apreciadas reformas estruturais para o Brasil”. Na sua nota nas redes sociais, Baldy disse que nunca foi aliado de Cunha e que já havia declarado seu voto “sim” à cassação.

Declarar voto a favor da cassação é muito diferente de ir à sessão e votar sim. O sim ajudava a cassar, a ausência foi um voto indireto a favor de Cunha. O deputado parece acreditar que o eleitor acreditará na sua intenção (a declaração) e não na sua ação (ausência em plenário). Artigo da The Economist publicado nesta terceira-feira no jornal O Estado de S. Paulo cai como uma luva nesse caso: “Os políticos sempre mentiram. Faz alguma diferença se resolverem deixar a verdade totalmente de lado?” Segundo o texto, os políticos criaram a “pós-verdade, um estilo de atuação na esfera pública que se distingue pelo uso frequente de afirmações aparentemente verdadeiras, mas sem qualquer respaldo na realidade.”

Votaram a favor da cassação os seguintes deputados goianos: Célio Silveira (PSDB); Daniel Vilela (PMDB); Delegado Waldir (PR); Fábio Sousa (PSDB); Flávia Morais (PDT); Giuseppe Vecci (PSDB); João Campos (PRB); Lucas Vergílio (SD); Magda Mofatto (PR); Marcos Abrão (PPS); Roberto Balestra (PP); Rubens Otoni (PT); Sandes Júnior (PP) e Thiago Peixoto (PSD).

Jovair foi um dos maiores aliados de Cunha na Câmara. Ganhou dele a relatoria do processo de impeachment de Dilma, mas não teve coragem de ir ao plenário e votar a favor do amigo. Apenas dois dos antigos aliados de Cunha tiveram peito de enfrentar a opinião pública: Carlos Marun (PMDB/MS) e o Delegado Edson Moreira (PR-MG). Ambos defenderam Cunha da tribuna ostensivamente. Além deles, mais oito deputados votaram a favor do agora ex-deputado. Esses merecem respeito, pois não se acovardaram na defesa do aliado. São mais honestos do que os que se se ausentaram por medo da opinião pública.

Atualização em 13/09/16 às 12h35.