Manchete do jornal O POPULAR, em 3 de março de 2012, revelou com exclusividade os negócios da Delta em Goiás

Bom jornalismo investiga e antecipa fatos

Relação da Delta Construtora com governo e prefeituras goianas, atualmente tema de delação premiada de Fernando Cavendish à Operação Lava Jato, foi antecipada pelo POPULAR há mais de 4 anos.

Em 4 de março de 2012 o jornal O POPULAR publicou a reportagem “Delta tem contratos milionários” (foto acima), dos repórteres Alfredo Mergulhão e Pedro Palazzo. Cinco dias após a prisão de Carlos Cachoeira e da deflagração da Operação Monte Carlo (em 29 de fevereiro), o jornal revelava que a Delta era ligada a Cachoeira e que tinha contratos de R$ 276 milhões com o Estado e prefeituras goianas.

Foi a primeira reportagem do País envolvendo o nome da construtora no esquema de Cachoeira. Até então a Delta fazia obras por todo o país e e seu dono, Fernando Cavendish, circulava como o todo-poderoso empresário nas rodas políticas e empresariais brasileiras.

Como era de se esperar, a Delta reagiu com fúria à reportagem do jornal. Em nota (foto abaixo) publicada no próprio jornal, em 5 de março, a empresa negou seu envolvimento com o esquema de Cachoeira e ainda ameaçou processar O POPULAR. “Caso haja má fé (sic) contra o bom nome da Delta Construção e que atente contra as suas sólidas regras de governança a empresa se reservará o direito de ingressar com ações judiciais para estabelecer a verdade”, afirmou a empresa em um trecho da nota. Tempos depois o esquema foi comprovado em investigações da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e o resultado todos se lembram: a Delta foi proibida de contratar com órgãos públicos e, posteriormente, entrou em recuperação judicial.

Nota da Delta em 5/3/12 publicada no jornal O POPULAR nega seu envolvimento com Carlos Cachoeira

Passados 4 anos e 6 meses, Fernando Cavendish, que cumpre prisão domiciliar, mesma situação de Carlos Cachoeira, negocia sua delação premiada com o Ministério Público Federal na Operação Saqueador, um desdobramento da Lava Jato. Reportagem desta quarta-feira (19) do jornal O Estado de S.Paulo informa sobre a negociação da delação e que Cavendish deve revelar supostos pagamentos de propinas a políticos do PMDB e do PSDB relacionados a obras nos governos de São Paulo, Rio e Goiás, além de estatais federais como o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e Petrobrás.

Segundo a reportagem, “(…) outro anexo da proposta [da delação premiada] relata supostos desvios praticados em Goiás, onde firmou contratos com o governo do tucano Marconi Perillo e municípios do Estado que somam ao menos R$ 276 milhões”. O mesmo valor da reportagem do POPULAR.

A Delta nunca processou o jornal porque a reportagem foi bem apurada, com investigação e responsabilidade, e agora seus dados aparecem entre as informações vazadas da delação premiada de Cavendish. O POPULAR, do qual era editora-chefe na época, montou uma força-tarefa que tinha mais de 15 jornalistas entre editores, repórteres, fotógrafos e ilustradores, para investigar o maior escândalo na história recente do Estado. O trabalho exaustivo dessa equipe resultou em uma série de reportagens que marcou as coberturas jornalísticas em Goiás.

Em meio à crise do jornalismo, em que a notícia factual virou commodity e pode ser encontrada em qualquer perfil de rede social, a saída para quem quer continuar a fazer bom jornalismo cada vez mais é diferenciar-se, surpreender seu leitor e ser relevante. Quem desviar-se desse caminho perderá importância e, consequentemente, seu público, ficará para trás e perderá seu lugar na história do jornalismo.