Arte de André Arantes

Cenas implícitas de machismo

Dia sim outro também, o jornal O Estado de S.Paulo publica pelo menos um editorial contra o governo de Dilma Rousseff, o PT e seus aliados. Não raro, dedica os três editoriais publicados diariamente ao mesmo tema. Até aí, tudo bem, está em seu alienável direito, apesar de minha discordância pessoal de um jornal fazer campanha contra governos ou partidos, sejam eles quais forem.

Pessoalmente, acho que se corre o risco de a posição editorial do veículo contaminar a cobertura jornalística e isso levar a perda de sua credibilidade. Um caso bem conhecido dessa contaminação ocorreu com a revista Veja, que atualmente é apenas um espectro do que já foi em seus tempos gloriosos, para mim na década de 90.

Voltando ao Estadão, o editorial desta quarta-feira (13), A Jurisprudência do berro, foi além das críticas habituais do jornal aos “crimes” que ele atribui à presidente da República. A lista deles, para o Estadão, é enorme e não vem ao caso citá-los aqui por não ser o tema deste artigo e também porque é bem conhecida, pois vem sendo repetida, como já disse anteriormente, dia sim outro também.

O que me chamou a atenção neste quarta-feira foi o tom preconceituoso com que o jornal tratou a presidente. A começar do título, que já indica que Dilma está aos “berros” (na cultura machista brasileira, berro é coisa de mulher, homem conversa, discursa). Apesar de reconhecer seu direito de “espernear” (felizmente o jornal não lhe cerceou o direito de se manifestar), o editorial diz que ela o faz da “pior maneira possível, em franco desafio aos demais Poderes denunciando histericamente (grifo meu) um ‘golpe’ onde só há o pleno respeito ao que prevê a Constituição”.

A origem da palavra histeria, todos sabem, é uma doença nervosa que, supostamente, se originava no útero, e caracterizada por convulsões. Uma doença, portanto, tipicamente feminina. O direito de Dilma de se manifestar e de ter opinião (assim como de Michel Temer, Eduardo Cunha, e tantos outros com posições claras nesta briga política) virou um “berro” e uma “histeria” no caso da presidente.

Para o jornal, Dilma foi histérica ao “vituperar [manifestar desaprovação ou censura a] o vazamento de um discurso que o vice-presidente Michel Temer preparava para o caso de o processo de impeachment passar no plenário da Câmara” e por dizer – se expressar é um direito garantido a qualquer brasileiro – que o “falso vazamento” foi “um complô para derrubá-la, em conluio com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ)”.

O jornal acredita que não foi conluio nem condena o discurso antecipado de Temer – e tem o mesmo direito de Dilma de acreditar no que quiser, até em gnomos – e afirmou no editorial que “o pecado de Temer foi explicitar o que fará se for chamado a assumir a Presidência – o que é apenas natural para quem ocupa aquela função –, e se erro cometeu foi o de acalmar a Nação que vinha sendo sobressaltada pela tigrada (grifo meu) que, ante a iminência da derrota de Dilma, espalhou que o sucessor acabaria com programas sociais, violaria direitos adquiridos e iria além, muito além do saco de maldades de Collor.”

Como se diz na psicanálise, o peixe morre pela boca, ou no caso do jornal, pelo texto.Assim, me pergunto: se o presidente que passasse pela mesma situação de Dilma fosse um homem receberia o mesmo tratamento? Ou o peixe apenas se revelou autoritário (os homens têm mais direito de ter opinião que as mulheres) e machista (ao acusá-la de histérica)? Ou tudo isso é um mero delírio desta jornalista?