
Goiano valente e matador
Aos 15 anos de idade, li um livro por indicação da escola, do qual nunca me esquecerei. Um trecho:
– Não me mate –, dizia o velho de mãos erguidas. Como resposta coronhadas desceram-lhe na cabeça, prostrando-o na terra fofa e úmida do canavial.
– Me acode, meu filho. – Um tiro ecoou. O velho punha-se de quatro pés, tentando levantar.
– Estou aqui, meu patrão – gritou Mulato, mas uma coronhada abriu-lhe o crânio. Uma baioneta na ponta do cano da Comblain meteu-se-lhe no peito, espetando-o no chão podre. Daniel embebeu o refle [espingarda curta] no ventre do velho. Gabriel tirou um punhal e o socou no ventre do homem caído. (…)
– Cobra a gente faz é desse jeito. Hum! — Macetou a cabeça do velho com o coice da pesada arma e saiu com ela pingando sangue por entre as canas verdes que tremulavam ao vento da manhã. (…)
– Atenção, atenção! — De riba de um toco o tenente Mendes de Assis vociferava: — Vocês vão dizer que eles resistiram à prisão.
Houve um momento de sossego entre os praças. E a voz repetia: — Quem não disser isso, vai comer processo. Olha lá!
A bela narrativa de Bernardo Élis está em seu romance O Tronco, escrito em 1956, e foi extraída de uma história verdadeira, ocorrida entre 1918 e 1919. Na vida real, o juiz mandou prender sete membros da família do coronel Abílio Wolney em sua fazenda. O coronel conseguiu fugir, mas seu pai e um empregado não tiveram sorte e foram barbaramente assassinados pelos policiais. O coronel Wolney formou um exército de jagunços e, por vingança, voltou para atacar a cidade de São José do Duro, atual região de Dianópolis (TO), na batalha sangrenta que ficou conhecida como Chacina dos Nove em Goiás ou Chacina do Duro.
No estilo do sertanismo goiano-mineiro — de escritores como Hugo de Carvalho Ramos, Guimarães Rosa, Carmo Bernardes, entre outros, além de Bernardo Élis — O Tronco é mais do que o relato de uma história violenta. Retrata a agressividade que imperou na formação de Goiás, após a Proclamação da República (1889). Os coronéis resistiam às ordens do Estado e impunham sua própria lei e comando, como fizeram Abílio Wolney e tantos outros por este Goiás adentro.
A menina que eu era quando li O Tronco guardou dele só lembranças da violência. A mulher e a jornalista em que me transformei encontrou outro livro nesta releitura. Percebi que este romance conta mais do que a mera história passada no então Norte goiano no início do século 20. Expressa um modo de ser do goiano que resiste aos tempos, passando de geração a geração e está presente na vida goiana deste novo milênio.
Quase 100 anos depois da Chacina do Duro, identificam-se na história atual de Goiás traços fortes daquela violência. Os assassinatos do velho e do Mulato, descritos no trecho acima, passariam por crimes atuais, claro com armas modernas. A omissão do Estado republicano da época, que não conseguiu parar o coronel violento, também persiste hoje na sua incapacidade de conter a violência urbana.
Buscar os traços do goiano valente e matador na nossa história ajuda a entender por que Goiás é o quinto Estado brasileiro com a maior taxa de homicídio por 100 mil habitantes, conforme o Atlas da Violência 2016, divulgado em 22 de março pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que analisa os homicídios entre 2004 e 2014.
De acordo com a Nota Técnica, o Brasil registrou 59.627, equivalente a uma taxa de 29,1 assassinatos por 100 mil habitantes. No mesmo ano, Goiás registrou a incrível taxa de 42,7 por 100 mil, quase o dobro da nacional. Em 2004 a taxa goiana era quase a metade, 25,8 por 100 mil. Subiu praticamente ano a ano, até chegar em 45,2 em 2013, quando, pela primeira, vez teve uma queda para 42,7. Esse recuo é um ponto fora da curva, pois somente os registros dos próximos anos indicarão se a tendência seguirá de baixa ou se foi uma excepcionalidade.
Independentemente dessa queda, o fato cruel é que apenas Alagoas, Ceará, Sergipe e Rio Grande do Norte, todos Estados do Nordeste, onde a violência de coronéis também é histórica, registraram taxa de homicídios superior à goiana. Santa Catarina tem a menor taxa, 12,7.
A evolução da taxa homicídios em Goiás de 25,8, em 2004, para 42,7, em 2014, deixa óbvia a ineficiência da política de segurança pública do Estado ao longo dessa década. Algo deixou de ser feito, gerando esse terrível inventário de assassinatos. Como na época do Duro, o Estado não se impõe aos jagunços e coronéis contemporâneos.
Da mesma forma, Goiás é um lugar perigoso para as goianas. Aqui a taxa de homicídios de mulheres é 8,8 por 100 mil. Só em Rondônia matam-se mais mulheres que em Goiás (9,5 por 100 mil). Em São Paulo a taxa é apenas 2,7. A literatura igualmente ajuda a compreender a formação machista do homem do sertão que pode estar por trás desses números impressionantes.
No forte e belíssimo conto Gente da Gleba, do livro Tropas e Boiadas, Hugo de Carvalho Ramos narra a história de Benedito, vaqueiro (aliás, escravo é a palavra mais adequada para qualificar os trabalhadores rurais deste conto), foi castrado pelo patrão porque “enrabichou-se” por sua prostituta preferida. O homem capou seu vaqueiro como se capa um boi. Finda a operação, o coronel comemorou: “Já aquele pastor intrometido não sairia mais pela redondeza a importunar-lhe as potrancas (referência pejorativa à mulher) de estima…”
Depois de cem anos (Tropas e Boiadas foi escrito em 1917, um ano antes da Chacina do Duro) “o drama do sertão ‘belo e terrível’” — segundo as palavras de Francisco de Assis Barbosa (O Tronco, 1967, p.26–27) –, agora moderno, industrializado e mais rico ainda é o mesmo. A violência impregnou-se no cidadão goiano comum que brada que “bandido bom é bandido morto”, que instiga o linchamento de acusados de crimes para fazer Justiça com as próprias mãos; e na parte da polícia violenta, hoje como há 100 anos.
A violência impregnou-se nas ações do Estado, como no recente anúncio do governo de que as polícias iam “para a rua para trabalhar uma ação repreensiva com maior intensidade”, e que seria criada “uma espécie de advocacia que dará defesa e apoio ao policial militar que, muitas vezes, em incidentes de atuações mais incisivas, fica desamparado.” (Release do governo de Goiás distribuído à imprensa em 7/3/16. Grifos meus).
A taxa de 42,7 assassinatos por 100 mil habitantes é uma indignidade para um Estado que se diz moderno e em desenvolvimento, pois própria de Estado subdesenvolvido. É um número que deveria estar em placas gigantes espalhadas por todos os lados para nos envergonhar e forçar uma reação da sociedade e do poder público. Goiás não precisa de goiano valente e matador, seja ele cidadão ou agente público. A cultura da violência gera violência e é eterna, pois existe hoje como há cem anos.
Bernardo Élis dedicou O Tronco “aos humildes vaqueiros, jagunços, soldados, homens, mulheres, meninos sertanejos mortos nas lutas dos coronéis e que não tiveram sepultura”. Está na hora dos goianos verdadeiramente de bem reagirem contra a cultura da violência, contra os jagunços e coronéis da modernidade e exigir políticas públicas em prol da paz e para pôr fim às mortes violentas com ou sem sepulturas.