O governador Marconi Perillo e diretores da Anel e da Eletrobras na solenidade de assinatura do contrato de venda da Celg | Foto Humberto Silva/Gabinete de Imprensa

Há 18 anos no poder, Marconi diz que Goiás perdeu por não ter privatizado Celg antes

Com frequência, o governador discursa sobre problemas no Estado como se o responsável por eles fosse um ente invisível, como fez na solenidade de transferência da Celg para a italiana Anel

O governador Marconi Perillo é um político de muitas competências, como confirmam suas quatro vitórias para comandar o governo de Goiás. Destacam-se entre elas sua excelente oratória e uma capacidade ímpar de discursar como se falasse de seu primeiro mandato, apesar de estar no poder desde 1999.

As decisões político-administrativas tomadas direta ou indiretamente por Marconi nestes 18 anos, com seus acertos e erros, constituem o que o Estado é hoje. Apesar dessa obviedade, observa-se com frequência governador falar como se estivesse em embate permanente com um sujeito invisível — invisível porque a oposição nunca foi uma ameaça em Goiás — , responsável pelas coisas que deram errado em seu próprio governo. Uma possibilidade é que o sujeito invisível seja o próprio alter ego ou o “outro eu” do governador.

Foi o que se verificou em seu discurso nesta terça-feira (14) durante a solenidade de assinatura do contrato de venda da Celg para a empresa italiana Enel Brasil S.A., no Palácio Pedro Ludovico Teixeira. A assinatura do contrato foi a última etapa do processo de privatização da ex-estatal goiana, vendida por R$ 2,187 bilhões em leilão, em novembro, para a empresa italiana.

“O Brasil que nós queremos ter daqui para a frente é um país onde cada vez mais teremos que tomar medidas corretas, sensatas, equilibradas, justas, importantes para o futuro das próximas gerações e acabar de vez com as práticas populistas, demagógicas, corporativistas e ideológicas. Nós só vamos ser uma grande nação à medida que tivermos a capacidade de enxergar o mundo dessa forma”, afirmou.
Em outro trecho de seu discurso ele disse: “Nós temos convicção de que em pouco tempo a Enel mostrará a que veio aqui em Goiás. E, à medida que os investimentos forem anunciados e realizados, a população perceberá que nós perdemos muito tempo por não termos privatizado antes essa empresa. Perceberá que o Estado é impotente e hipossuficiente do ponto de vista de recursos para investimentos. E que quem tem que aportar investimentos e exercer essa função é o setor privado. Ao Estado cabe regular e fiscalizar a qualidade dos serviços. É o que nós faremos a partir de agora” (grifos desta colunista).

O governador admitiu que “o caminho foi longo, tortuoso, difícil” para chegar a este histórico 14 de fevereiro de 2017 quando a Celg virou a italiana Enel. A Celg já não existe mais, virou uma página na história da produção e distribuição de energia no Estado. A pergunta que se faz é por que o caminho até este momento foi longo e tortuoso. A resposta pode ser encontrada nas escolhas feitas pelo governo goiano nesses 18 anos. E foram muitas idas e recuos.

O governador Marconi tentou vender a Celg num leilão na Bolsa de Valores em dezembro de 2001, cancelado por falta de interessado. Em 2002, acertou sua federalização com o governo de Fernando Henrique Cardoso.

Em 9 de Agosto de 2002 O Diário Oficial da União publicou a Medida Provisória nº 57 que autorizava a Eletrobras a comprar 49% das ações da Celg. O PMDB goiano reagiu contra, o então senador Iris Rezende retirou o apoio do partido à candidatura de José Serra à sucessão de Fernando Henrique Cardoso em represália à federalização.

Marconi esperava receber R$ 200 milhões pela Celg, mas o presidente Fernando Henrique ofereceu R$ 126 milhões e o governador desistiu do negócio. O tempo foi passando, a má gestão da empresa ao longo desses 15 anos ajudou a piorar sua situação econômico-financeira e a Celg entrou em profunda crise, sem condições nem para investir em manutenção e ampliação da oferta de energia para atender à demanda crescente do Estado.

Em 2010, o então governador Alcides Rodrigues assinou contrato de federalização da Celg com a Eletrobras. Novamente a federalização não foi adiante porque Marconi, recém-eleito governador para seu terceiro mandato e naquele momento maior adversário de Alcides, interferiu politicamente para frustrar o acordo, porque o considerou nocivo a seu governo.

A cerimônia que finalmente colocou um fim nesta história só foi possível depois de um longo e caríssimo processo. Este último começou em 2011 quando o governo tomou um empréstimo de R$ 3,527 bilhões para pagar dívidas da empresa. A Celg então foi federalizada. Em abril do ano passado a Assembleia Legislativa autorizou o Estado a assumir outra dívida de R$ 2,4 bilhões que a Celg havia contraído junto à Caixa Econômica Federal.

Tudo isso para sanear a empresa e permitir sua venda no leilão de novembro. Com a assinatura do contrato nesta terça-feira, o Estado recebeu R$ 1,104 bilhão. A Eletrobrás, que tinha 51% das ações da Celg, recebeu R$1,065 bilhão e ainda receberá cerca de R$ 82 milhões da oferta dos empregados.(Vale lembrar que o governo ainda não informou à população como gastará esse recurso). Fica a dúvida: se o Estado tivesse entregue a Celg de graça à União há 15 anos não teria sido mais lucrativo para o Estado?

Resumindo uma longa história, a cerimônia que selou a morte anunciada da Celg e o nascimento da Enel não aconteceu antes por uma série de fatos e decisões políticas das quais o governador foi um dos importantes protagonistas. Sem entrar no mérito dos motivos alegados para cada caso, foram escolhas político-administrativas feitas por quem tinha a caneta na mão.

Se o desfecho não ocorreu antes induzido por “práticas populistas, demagógicas, corporativistas e ideológicas” e se o Estado “perdeu muito” por não ter privatizado a empresa antes, o governador, ou pelo menos seu alter ego, é um dos responsáveis por esses equívocos. Afinal, esse governo não começou há dois anos.