Marconi Perillo em entrevista sobre a Operação Lava Jato | Foto Mantovani Fernandes/Palácio das Esmeraldas

Marconi dá tiro no escuro ao apostar na falta de provas da Lava Jato

O governador Marconi Perillo (PSDB) decidiu “enfrentar o debate” das denúncias feitas pelos ex-executivos da Odebrecht nas delações premiadas da Operação Lava Jato, divulgadas com autorização do Supremo Tribunal Federal (STF), em 11 de abril. Durante entrevista coletiva, nesta terça-feira (16), ele construiu uma narrativa sustentada em cinco eixos.

1) Não recebeu doação ilegal da Odebrecht nem de outras empresas, só doação legal permitida pela legislação da época. Para isso apresentou trechos editados das delações originais que indicariam “contradições” dos depoentes.

2) É descabida e “risível” a declaração de que teria pedido R$ 50 milhões para sua campanha em 2010, até porque o custo da campanha completa da eleição de sua base (governador, senador e deputados) aproximou-se dessa quantia, mas admitiu que pode ter falado esse valor, “durante uma conversa”, para se referir ao valor global das campanhas, não apenas a de governador.

3) Os delatores não apresentaram provas contra ele e seu nome não foi associado a denúncias de corrupção, fraudes, propinas (caso do ex-governador Sérgio Cabral).

4) Não houve contrapartida do Estado à Odebrecht, pois a empresa não tem contratos com o governo de Goiás; a sudelegação do saneamento no Entorno do Distrito Federal não saiu do papel porque a Saneago conseguiu recursos “de graça” do PAC do governo federal no valor de meio bilhão de reais, dispensando a iniciativa privada; a subdelegação do esgoto pela Saneago à Odebrecht em Aparecida de Goiânia, Jataí, Trindade e Rio Verde aconteceu a pedido dos prefeitos, pois a Saneago não tinha recursos para investimentos.

5) Confirma ter encontrado muitas vezes com diretores da Odebrecht, da Infraero e do TCU, mas apenas para tratar do desembaraço das obras paradas do aeroporto de Goiânia.

Os trechos dos áudios, as cópias de prestação de contas de suas campanhas e a cópia da reportagem da Folha de S.Paulo, em 7 de maio, sobre supostos erros dos delatores, apresentados durante os mais de 30 minutos de sua exposição durante a entrevista, no Palácio Pedro Ludovico, completam os recheios dessa narrativa.

Ao decidir se defender, mais de um mês depois das denúncias, o governador apostou que os delatores não entregaram provas contra ele. Diante disso, procurou desacreditar todos os eles, usando as supostas divergências de suas falas para concluir que mentiram. Só que em algumas ocasiões Marconi utiliza-se dos mesmos depoimentos para confirmar legalidade de todos os seus atos e os de seu governo em relação à Odebrecht, conferindo legitimidade aos delatores que, em outros momentos, acusa de mentir sobre as supostas doações de R$ 10 milhões as suas campanhas de 2010 e 2014.

Do ponto de vista político, pareceu ter sido arriscado o governador se defender depois que o assunto parecia esfriar. No entanto, a Folha de S.Paulo desta quarta-feira (17) revelou que a Procuradoria Geral de Justiça (PGR) encaminhará ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) até a próxima semana os pedidos de abertura de inquérito contra nove governadores. Marconi entre eles. Estaria o governador se antecipando os fatos que aparecerão no STJ?

De qualquer forma ele arrisca-se, porque mesmo que tenha convicção de que não há provas no inquérito, não se sabe ainda com absoluta certeza quais documentos o Ministério Público Federal e a Polícia Federal reuniram. Há dúvidas, por exemplo, sobre os registros o Drousys, um sistema de intranet, instalado em um servidor da construtora na Suíça, que registrou pagamentos de propinas entre 2008 e 2014.

A construção da narrativa de defesa do governador mostrou consistência se vista a partir da edição dos vídeos, que tiram as falas dos delatores do contexto original. No entanto, as investigações vão considerar as histórias completas, com começo meio e fim e não apenas trechos. Por outro lado, o governador deixou dúvidas em alguns momentos.

Confirmou que almoçou com Marcelo Odebrecht em São Paulo para pedir “doação legal” para sua campanha, mas não se lembra da data. Os delatores dizem que foi em 28 de março de 2014, bem antes do início da campanha eleitoral, quando teria sugerido doação de R$ 50 milhões a Fernando Reis, que ele também nega. Não se lembra de ter recebido Alexandre Barradas em sua casa no Alphaville em Goiânia, em 2010.

Marconi está seguro da oportunidade que escolheu para a defesa, porque considera acertada a estratégia adotada durante seu envolvimento no escândalo da Operação Monte Carlo, em 2012, quando foi para linha de frente se defender das acusações de suposto envolvimento com o empresário Carlos Cachoeira.

Acha que sua estratégia foi um sucesso, porque três processos contra ele foram arquivados no Superior Tribunal de Justiça (STJ), o que para ele confirma sua inocência, e que não se preocupa com a única ação que restou. Refere-se à denúncia do jornalista Luiz Carlos Bordoni de que recebeu dinheiro de caixa 2 quando prestou serviço para a campanha do tucano. Marconi exibiu cópia de decisão judicial em ação proposta por ele que condenou o jornalista a pagar indenização por calúnia e difamação. Acha que isso será suficiente para arquivar mais essa denúncia no STJ.

Vale lembrar que em 2012 houve um acordo entre as lideranças partidárias na CPI do Cachoeira, no Congresso Nacional, para arquivar o relatório das investigações sem denunciar nenhum dos acusados. Além disso, o STJ cancelou, no ano passado, as gravações telefônicas feitas pela Polícia Federal com autorização da Justiça, durante a Operação Monte Carlo, atendendo à reclamação do ex-senador Demóstenes Torres. O STJ considerou que a PF não poderia ter feito interceptação telefônica de um senador sem autorização do STF. Em consequência, todas as provas obtidas por meio das gravações, perderam efeito legal.

O acerto da estratégia do governador de partir para a defesa prévia só poderá ser confirmado depois que o MPF e a PF apresentarem todos os dados das investigações. O governador está correto em afirmar que nada garante que os delatores não mentiram. Também acerta em criticar a “superexposição” de procuradores, de membros da Justiça e exageros na cobertura da imprensa, que expõem a todos, igualmente, com base em denúncias sem provas dos investigadores. Mas Marconi deu um tiro no escuro. Se as provas não aparecerem terá acertado no alvo e se livrado de mais um escândalo. Diferentemente, se elas aparecerem terá de deixar de lado o discurso de ter sido vítima de mentirosos delatores, sem motivo aparente como ele mesmo admite, para se dedicar a uma defesa mais técnica e menos política.