Capas do POPULAR de 1º de março 2012 e de 1° de julho de 2016 com as notícias das prisões de Carlos Cachoeira

MPF investiga “deltaduto” que CPI do Cachoeira descobriu, mas protegeu em 2012

CPI do Cachoeira descobriu em 2012 que R$ 421 milhões saíram das contas da Delta para 18 empresas fantasmas, mas assim mesmo encerrou a investigação

Os fatos que levaram o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro (MPF-RJ) a desencadear nesta quinta-feira (30) a Operação Saqueador haviam sido descobertos há quatro anos pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Cachoeira, no Congresso Nacional. A operação prendeu novamente Carlos de Almeida Ramos, o Carlos Cachoeira, Cláudio Abreu, Adir Assad e Marcelo Abbud. O dono da Delta, Fernando Cavendish, também com prisão decretada, não chegou a ser preso porque estava no exterior. Nesta sexta-feira, o Tribunal Regional Federal converteu a prisão de todos eles em prisão domiciliar com uso de tornozeleira.

Em 6 de dezembro de 2012, reportagem do jornalista Márcio Leijoto no POPULAR revelou que relatório paralelo da CPMI identificara que a Delta tinha 370 contas bancárias e que de quatro delas saíram boa parte do dinheiro do deltaduto, esquema de desvio de recursos públicos. Em 10 anos, pelo menos, R$ 421 milhões passaram das contas da construtora para 18 empresas cujas movimentações financeiras foram consideradas atípicas pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), segundo o mesmo relatório. Eram as “empresas fantasmas”.

Arte publicada em O POPULAR em 6/11/12, revelando o esquema do propinoduto

Havia uma farta documentação sobre as transferências de recursos da Delta para essas empresas e sobre como o dinheiro era sacado no banco pelos “donos” das “empresas fantasmas”, dificultando chegar aos verdadeiros beneficiados pelo esquema. A CPMI identificou que R$ 113 milhões saíram do deltaduto em Goiás, entre 2008 e 2012 (O POPULAR, 29/10/12).

Apesar de tantas provas, a CPMI encerrou seus trabalhos em 18 de dezembro de 2012 “por uma convergência de interesse da base governista e da oposição”, segundo o jornal O Estado de S. Paulo (19/12/12), interessados em blindar as investigações sobre Fernando Cavendish, o ex-senador Demóstenes Torres, o governador Marconi Perillo (PSDB) e o então prefeito de Palmas, Raul Filho (PT).

Todos haviam sido indiciados no relatório final do deputado Odair Cunha (PT-MG), de mais de 4 mil páginas, derrubado nessa sessão por 18 votos a 16, e substituído por outro de uma página e meia apresentado pelo deputado Luiz Pitiman (PMDB-DF) que determinava somente o compartilhamento de todos os dados da comissão com o MFP e a PF para prosseguimento das investigações.

Capa do Estado de S.Paulo em 19/12/12, com o acordo que encerrou CPI do Cachoeira

A CPI terminou em pizza e os acusados, livres. As irregularidades descobertas na época permaneceram na gaveta até que fato novo possibilitou ao MPF-RJ prosseguir as investigações da CPI: trechos da recente delação premiada dos prepostos da empresa Andrade Gutierrez S/A investigados na Operação Lava Jato.

O conteúdo desse depoimento permanece sigiloso, mas confirma o que foi apurado em 2012, demonstrando, segundo o MPF-RJ, que a Delta era uma empresa voltada fundamentalmente a esquemas de corrupção em obras públicas. A partir desse ponto, o MPF descobriu que, além de Cachoeira, Adir Assad e Marcelo Abbud também criaram parte das 18 “empresas fantasmas” usadas no esquema.

Segundo o MPF-RJ as “empresas fantasmas” de Assad e Abbud detinham como atividade única a prestação de serviço de lavagem de dinheiro, proporcionando dinheiro sacado em espécie, para pagamento de propina a agentes públicos. E eles não trabalharam só para a Delta. Passaram por suas empresas mais de R$ 885 milhões em lavagem de dinheiro entre 2007 a 2011. Só para a Delta foram lavados R$ 370 milhões (menos que os R$ 421 milhões identificados pela CPMI em 2012), sendo R$ 98,6 milhões apenas em Goiás e não os R$ 113 milhões do relatório paralelo da CPMI.

Punição seletiva

A Justiça Federal julgou e condenou, em primeira instância, todos os acusados na Operação Monte Carlo, desencadeada em 29 de fevereiro de 2012. Cachoeira foi condenado a 39 anos de prisão, decisão que está há dois anos a espera de julgamento de recurso no Tribunal Regional Federal. Também foram condenadas todas as pessoas ligadas à quadrilha, como funcionários e sócios de Cachoeira. Policiais civis, militares e federais, que vendiam proteção aos negócios de Cachoeira, sofreram investigações de suas corporações e parte deles foi demitida.

Vale ressaltar, as denúncias investigadas e julgadas referiam-se apenas aos negócios com máquinas de caça-níqueis. O deltaduto não constava desses processos. Entre os políticos ligados ao deltaduto, apenas o então senador Demóstenes Torres foi punido por seus pares com a cassação de seu mandato em julho de 2012.

O POPULAR foi o primeiro jornal a revelar em 4/3/12 relação da Delta com Cachoeira

Até a prisão de Cachoeira, em 2012, a Delta era considera uma empresa idônea.O POPULAR revelou a primeira suspeita de seu envolvimento com a Operação Monte Carlo em reportagem de 4 de março, três dias após a prisão de Cachoeira. A reportagem dos repórteres Pedro Palazzo e Alfredo Mergulhão revelou que Delta celebrou contratos de R$ 276 milhões nas áreas de limpeza, aluguel de carros e infraestrutura com o governo do Estado e as principais prefeituras de Goiás. A Delta entrou em Goiás em 2006, mas seu grande salto ocorreu em 2010, quando fechou contrato por meio de licitação para locação de 2 mil carros para as Polícias Civil e Militar.

No dia seguinte, a Delta publicou um anúncio de meia página no jornal, negando sua relação com Carlos Cachoeira. Afirmou que a relação deste era de amizade com Cláudio Abreu, diretor da empresa no Centro-Oeste, pois eles viviam na mesma cidade. E ainda ameaçou O POPULAR: “Caso haja má fé contra o bom nome da Delta Construções e que atente contra as suas sólidas regras de governança a empresa se reservará o direito de ingressar com ações judiciais para restabelecer a verdade”. As regras de governança não eram tão sólidas e em 4 de junho, depois que as investigações confirmaram a ligação negada pela empresa, ela pediu recuperação judicial à Justiça alegando sofrer “bullying”.

O acordão de quatro anos atrás no Congresso para proteger os políticos é algo impensável no Brasil de hoje. Fernando Cavendish saiu ileso nas investigações da época, mas teve sua prisão preventiva decretada nesta quarta-feira, o maior sinal dos novos tempos. A Operação Lava Jato revelou ao país não apenas a corrupção entranhada no setor público, mas como o sistema político brasileiro sobrevive com dinheiro desviado de órgãos públicos e que, depois de devidamente lavado, voltava para os bolsos de corruptores, lobistas, intermediários, políticos e para o caixa dois das campanhas eleitorais.

A reabertura das investigações do deltaduto foram retomadas agora justamente porque o clima político mudou no Brasil. Resta esperar para ver se as investigações do Rio de Janeiro vão avançar tanto quanto avançaram as investigações da Lava Jato e se chegarão na outra ponta, ou seja, os beneficiados com os R$ 370 milhões.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.