O fim da política?

Pela primeira vez desde de 1985, o quadro eleitoral encontra-se esfacelado. A política dá sinais de esgotamento em todo o País e não seria diferente em Goiânia.

Com a experiência adquirida na cobertura de todas as eleições em Goiânia desde 1985, primeira eleição direta para prefeito das capitais depois da abertura política, entendo que a indefinição de candidatos a prefeito de duas das três maiores forças políticas em Goiânia, às vésperas do fim do prazo para realização de convenções partidárias, em 5 de agosto, não é meramente conjuntural.

O passado desvenda fatos que explicam o tempo presente e a matéria-prima, neste caso, é o histórico das eleições em Goiânia desde 1985. PT, PMDB e, posteriormente, a base de apoio ao governador Marconi Perillo formam as três maiores forças políticas na capital, com a supremacia do PT e do PMDB. O PSDB quebrou o revezamento entre os dois partidos em 1996, com a vitória de Nion Albernaz, recém-filiado ao partido tucano, mas que havia construído seu nome e sua carreira pelo PMDB.

Das oito eleições desde 1985, o PMDB venceu quatro: em 1985 (com Daniel Antônio), em 1988 (com Nion), período em que o partido comandava o Palácio das Esmeraldas, em 2004 e em 2008 (Iris Rezende). Sem contar 2012, quando o PMDB voltou ao Paço Municipal com o vice-prefeito Agenor Mariano na coligação com Paulo Garcia (PT). Disputou o segundo turno em 1992 (com Sandro Mabel), e em 1996 (Luiz Bittencourt).

A eleição de 2000 foi a exceção no histórico do sucesso peemedebista em Goiânia. O senador Mauro Miranda chegou em quarto lugar, com apenas 5,94% dos votos válidos, atrás de Lúcia Vânia (PSDB), com 22,83% dos votos, de Darci Accorsi (na época filiado ao PTB), com 30,05%, e de Pedro Wilson (PT), com 37,19%. Um ex-petista e um petista disputaram o segundo turno, com a vitória do segundo.

O fiasco peemedebista naquele ano ocorreu por conta da histórica derrota de Iris para Marconi Perillo dois anos antes, em 1998. O partido estava atordoado, sem rumo. Os então deputados Luiz Bittencourt, que ficara em segundo lugar na eleição anterior, e Barbosa Neto entraram na disputa pela vaga de candidato em Goiânia, mas o PMDB irista preferiu um candidato de confiança para enfrentar a tempestade que desabara sobre o partido.

Os peemedebistas não alimentavam esperanças de vitória, mas não esperavam a baixa votação do senador em 2000. Quatro anos depois, o próprio Iris decidiu retomar sua carreira e o PMDB voltou à cena política, comandando a prefeitura, primeiro em carreira solo, depois em coligação com o PT nas eleições de 2008 e 2012.

O PT também construiu uma história forte na capital. Venceu três das oito eleições. Ficou em segundo lugar em 1985, com Darci Accorsi; novamente em segundo em 1988 com Pedro Wilson. Esta foi a última eleição sem realização de segundo turno e foi uma das mais disputadas. Nion elegeu-se pelo PMDB com apenas 36,71%. Pedro Wilson (PT) recebeu 32,98% e Maria Valadão (PDS) teve 25,9%. Os petistas venceram sua primeira eleição em 1992, com Darci Accorsi, e chegou em terceiro lugar em 1996. Valdi Camárcio recebeu 25,02% dos votos neste ano, apesar de ser candidato do prefeito, por conta de divisões internas no PT que culminaram com a saída de Darci do partido depois que ele deixou a prefeitura.

O PT venceu novamente em 2000, com Pedro Wilson, chegou em segundo lugar em 2004, quando Pedro perdeu para Iris, e venceu em 2012, com Paulo Garcia, sem contar a vitória em coligação com o PMDB em 2008, com o mesmo Paulo como vice de Iris.

O governador Marconi Perillo nunca conseguiu eleger prefeito de Goiânia. Vale lembrar que Nion elegeu-se pelo PSDB em 1996, a única vitória do partido, quando o PMDB ainda estava no Palácio das Esmeraldas. Após a vitória de Marconi em 98, os partidos de sua base ficaram em terceiro lugar em 2000, com Lúcia Vânia (PSDB); mesma posição conquistada por Sandes Júnior (PP) em 2004.

Em 2008, o mesmo Sandes chegou em segundo lugar, mas com votação inferior à de quatro anos antes: recebeu apenas 15,75% dos votos contra 74,16% de Iris, que venceu no primeiro turno. Em 2004, Sandes recebera 18,73% dos votos válidos. Em 2012, o vexame da base governista foi ainda maior. O deputado federal Jovair Arantes (PTB), recebeu apenas 14,25% dos votos válidos.

Esse passeio pelo passado nos permite enxergar a dependência eleitoral do PMDB de Iris Rezende. O partido ganhou em Goiânia quando ele exercia poder, direta ou indiretamente, sobre o governo e depois quando ele próprio se candidatou. O jornalista Carlos Honorato afirmou em seu blog em agosto de 2008 que Iris virou uma ”franquia eleitoral” do PMDB. Agora que essa franquia fechou as portas (pelo menos é o que Iris tem garantido ao se negar a disputar nova eleição), o partido não tem plano B.

O próprio Iris incentivou e cultivou essa dependência, ao manter o PMDB sob seu controle absoluto até janeiro último, quando um grupo de deputados estaduais e federais, liderados por Daniel Vilela, ganhou o diretório regional com cerca de 70% dos votos. Mas a ele não pode ser atribuída toda a culpa. Faltaram lideranças políticas arrojadas, com habilidade e força política para construir uma liderança capaz de superar a de Iris, como ele próprio fizera em 1965, quando conseguiu ser o candidato de Pedro Ludovico a prefeito de Goiânia, e como os deputados conseguiram fazer na última eleição do diretório regional.

Parte dessa dificuldade de formação de lideranças deve-se também ao sistema político brasileiro. As pessoas que sobreviveram na política aceitaram jogar o jogo, sendo quase impossível se eleger sem esquemas condenáveis do ponto de vista ético e legal. Isso travou o surgimento de líderes com mais qualificação, mas sem disposição de aderir a essas ilegalidades. Assim o PMDB ficou sem lideranças com potencial político e eleitoral para substituir Iris nesta disputa. O partido corre o risco de repetir neste ano o mesmo fiasco de 2000 caso mantenha a intenção de escolher um candidato entre os nomes de que dispõe.

O PSDB e seus aliados sofrem das mesmas mazelas. Não formaram um líder com competência para substituir Marconi. Da mesma forma, as opções eleitorais de sua base são políticos forjados neste sistema apodrecido e, portanto, sem discurso. Para piorar, o governo nunca venceu eleições na capital, inclusive nas disputas para governador.

O PT enfrenta seus próprios fantasmas. Nacionalmente, o desgaste da legenda com o protagonismo de seus filiados nos escândalos do mensalão e da Lava Jato e a crise política e econômica que desembocou no impeachment da presidente Dilma Rousseff. Responde também pela gestão impopular do prefeito Paulo Garcia, reprovado por 60,7% dos goianienses, segundo pesquisa Serpes divulgada pelo POPULAR em 18 de julho.

O empresário Vanderlan Cardoso (PSB), que apareceu em segundo lugar na última pesquisa Serpes, cometeu um pecado que pode lhe custar caro. Ele não fez opção entre os dois polos políticos de Goiânia, oposição ou governo. Agora não é confiável de nenhum dos lados, especialmente da oposição, que teme se coligar com Vanderlan e depois de eleito este se aproximar do governador Marconi.

A fragilidade das três maiores forças políticas goianas, associada às dificuldades de Vanderlan, criou esse vácuo de candidatos competitivos e abriu espaço para o delegado e deputado federal Waldir Soares (PR), o Enéas da política goiana.

Para quem não se lembra, o cardiologista Enéas Carneiro, que morreu em 2007 de uma leucemia, criou o Partido da Reedificação da Ordem Nacional (Prona) e ganhou notoriedade por falar rapidamente nos poucos segundos que dispunha no horário eleitoral gratuito no rádio e na TV e encerrar seu programa com o bordão “Meu nome é Enéas”. Ele foi candidato a presidente da República em várias eleições, tornando-se conhecido até se eleger em 2002 deputado federal mais votado de São Paulo, com 1,57 milhão de votos.

O deputado Waldir surfa na popularidade que conquistou com seu estilo pitoresco na campanha para deputado federal que, como ocorreu com Enéas, lhe rendeu a maior votação em 2010. Seu estilo lhe colocou em primeiro lugar na pesquisa Serpes para a prefeitura de Goiânia depois da desistência de Iris, mas nada garante que essa popularidade típica de celebridade será suficiente para elegê-lo prefeito, especialmente em um ano em que o eleitor parece mais atento.

Pelo que vimos no histórico eleitoral de Goiânia e pelos fatos do tempo presente é possível afirmar que pela primeira vez desde de 1985, o quadro eleitoral em Goiânia encontra-se esfacelado. A disputa neste ano retrata a nova realidade brasileira pós-escândalos do mensalão e da Operação Lava Jato e pós-mobilização popular iniciada em 2013 que esgarçaram a credibilidade dos partidos e de suas lideranças. Também é a primeira vez que o Brasil vai às urnas com boa parte de suas lideranças políticas presas ou acusadas de envolvimento em escândalos.

A política mostra sinais de esgotamento em todo o Brasil e não seria diferente em Goiânia. É muito grave crise por que passa a política, mas como esta não pode acabar passa da hora de reinventá-la. E para reinventá-la é fundamental a participação do eleitor, qualificando seu voto e também pressionando o Congresso Nacional e o governo federal a mudarem as legislações partidárias e eleitorais que sustentam o atual falido sistema político nacional.