Uma mãe pode voltar a ser feliz depois da morte de um filho

Emocionante reportagem da jornalista Karla Jaime publicada no jornal O POPULAR, nos dias 1º e 2 de novembro de 2012, sobre o processo de luto de pessoas que perderam um parente muito próximo (Uma ferida que não cicatriza e Três mães e uma dor em comum), estimulou-me a escrever pela primeira vez um artigo sobre minha vida.
Almejei, assim, somar-me às corajosas mães que aceitam falar sobre a tortuosa caminhada que fizeram do espanto e da dor dilacerante à readaptação forçada a uma nova vida, com a esperança de também contribuir com outras mães que procuram fazer o luto mais difícil de suas vidas.
Perder um filho (o meu Lucas partiu em 2002, aos 18 anos de idade, vítima de acidente com seu skate) assemelha-se a uma doença gravíssima que no início parece ser incurável. “A dor é física. Dói aqui”, disse-me a pianista Belkiss Spenzieri (que também nos deixou em novembro de 2005), apontando para a boca do estômago, no dia em que foi me visitar logo após a morte de Lucas. Ela também perdera um filho, Leonel, anos antes, e demonstrava o que eu sentia, mas não compreendia. Uma dor intensa demais para caber em alguma parte de nosso corpo e que, por isso, nos faz sentir um extraterrestre: a gente se sente em outro mundo, pois o mundo que conhecíamos até então despareceu junto com o filho que se foi.
Sucumbir ou sobreviver? Optei pela segunda alternativa. Sozinha não conseguiria. Impossível lidar com tamanha tragédia que tudo destruíra. Procurei uma psicanalista, não por coincidência a mesma de meu filho, que cursava psicologia na PUC-GO e fazia análise como projeto de também tornar-se um psicanalista.
A profissional orientou-me a transformar “a ausência numa presença”. Eu não entendia o significado daquilo. Chorei diariamente, e várias vezes ao dia, por pelo menos um ano. Só sentia um leve alívio na redação do jornal O POPULAR, onde mergulhei no trabalho como se este fosse um analgésico para minha dor. Era minha tábua de salvação à qual me agarrei para sobreviver depois do tsunami que passou, alagou e destruiu tudo a minha volta.
Na sala de espera do consultório da psicanalista havia duas poltronas. Eu sentava-me em uma, olhava para a outra e chorava todos os dias de sessão, enquanto lamuriava: “Lucas já se sentou aqui.” Chorava a cadeira vazia. Chorava sua ausência. A lembrança que tinha dele nesses momentos era sempre de dor.
Depois de um ano de profundo sofrimento e de dezenas de sessões de análise, um dia cheguei ao consultório como habitualmente fazia. Sentei-me, olhei para a poltrona vazia e pensei: “Lucas sentou-se aqui.” E sorri. Senti uma alegria imensa de pensar nele, nas coisas maravilhosas que ele meu deu, nos momentos inesquecíveis que vivemos juntos, na alegria de ter sido sua mãe e de lembrar como ele era alegre, de bem com a vida e como amava as pessoas. Aquele instante não foi de dor (ausência), mas de contentamento (presença). A cadeira não estava mais vazia.
Entendi naquele minuto o que a psicanalista repetiu insistentemente. Meu filho partira e isso era imutável. Mas se ele foi um presente e minhas lembranças dele não poderiam estar, eternamente, associadas à dor (ausência). Eu percebera, então, que sua eterna presença em minha vida não poderia ser um peso. Naquele minuto mágico eu transformara “a ausência numa presença”.
Revivi essa experiência trágica em março de 2009. Meu marido perdeu um filho de apenas 16 anos de idade. Mário morreu silenciosamente enquanto dormia. Minha própria experiência me ajudou a apoiar Fernando em sua difícil travessia da fase da dor profunda pela morte de seu filho (ausência), para viver sua presença. Mário e Lucas estão presentes em em nossa casa, da mesma forma que Bárbara, minha filha, e Pedro, seu filho. De maneiras diferentes, claro.
Eu sempre falo de Lucas com naturalidade, como qualquer mãe fala de um filho vivo que está fora do alcance de sua vista. Nem todas as pessoas estão preparadas para ouvir a mãe falar do filho morto. Assustam-se e mudam de assunto, pois supõem ser doloroso para ela, já que só conseguem imaginar a ausência e não a presença. Para mim, é uma alegria lembrar-me de meu filho e do Mário. Isso é presença, apesar de suas ausências eternas.
A perda de um filho torna-se uma doença crônica, e não tem cura. De vez em quando essa doença fica aguda (como nas datas especiais), mas depois se estabiliza. Ela é controlável, como muitas doenças crônicas, é possível conviver com ela e retomar uma vida normal. Assim, tenho coragem de afirmar sem culpa: uma mãe que perdeu um filho pode voltar a ser feliz.
Atualização de texto publicado originalmente em O POPULAR, em 4 de novembro de 2012, data de meu aniversário.