Bleeeem bleeeeem
Com os primeiros raios da manhã quebrando as luzes gélidas das avenidas, saltam os rojões nas periferias anunciando a chegada do pó branco que abastece todos os cantos da cidade, para que os olhos dos universitários e dos moleques viciados acompanhem a noite que não demora a aparecer. No Centro, meninas lascivas, ainda presas na madrugada, dançam vestindo microssaias, jogam seus cabelos, balançam os seios nus. As estudantes marasmáticas caminham com suas botas, empinam-se nas calçadas. O travesti enquadra um cliente no orelhão desativo, na esquina seguinte, é enquadrado por um policial. Eu, parado, comendo pipoca, com a boca seca por tanto sal, olho os carros, assisto a cidade. Apoio-me no poste da placa que diz “Consolação — Dr. Teodoro Baima”. Observo os sinos da igreja balançarem, soarem, balançarem. Bleeeeem, bleeeeeem. Vejo as pombas agitadas no alto, os meninos de uniforme inquietos no chão. Ouço as buzinas, cada vez mais altas, cada vez mais surdo. Bleeeeem, bleeeeeem. Presto atenção nos peruanos:
Agora, pedindo o Lance na banca, pagando um e noventa. Olho o troco, controlo-me para não pedir Marlboro vermelho. Um só, avulso, o isqueiro está no bolso esquerdo da calça. Não posso, um chama os outros. Corro, vermelho só o sinal. Meus pulmões, mais negros pela fuligem dos carros do que por meia dúzia de escolhas ruins, dilatam-se enquanto ainda ouço os sinos balançando, soando, balançando.
Pronto! Sentando ao balcão do boteco, pedindo cerveja. Converso com Israel, o metroviário. Tento acompanhar os olhos tortos do Zé, o atendente. Empresto o jornal. “Opa, valeu, meu velho”.
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