Ordinárias — #1
Palitara os dentes. Agora, procurava o isqueiro enquanto apoiava o pacote de Free no balcão. “Que cena horrível”, o outro pensava, espremendo laranjas retiradas de um enorme saco amarelo encostado na pia. O velho do cigarro, careca pelo tempo, pouco preocupava-se com os botões abertos da camisa suja na gola ou com a barriga arredondada como a de uma grávida. Dirigindo-se à saída para fumar e terminar de limpar a dentadura castigada com o palito quebrado em uma das extremidades, o cliente garante a última dose e um café que, em alguns minutos, seria adoçado com três colherinhas cheias de açúcar, num desafio contra a diabetes de anos:
— Cobra mais uma e um café, meu anjo.
Do outro lado do balcão de pedra, o homem das laranjas tenta coçar a testa suada com as mãos embebidas pelo líquido cítrico. A todo instante, a atendente gritava um novo pedido de qualquer coisa acompanhada por um suco de laranja. “Essa gente só toma suco de laranja”, resmungava. Por três reais, o copo de suco de três laranjas espremidas na hora era, além de mais barato, o mais vendido.
Aproximava-se da entrada uma menina de cabelos longos, loiros, certamente pintados, mas muito longos e muito loiros. A cabeleira loira cobria, em partes, o decote da regata rosa, sem muito mistério, deixando aparecer a renda preta do sutiã com bojo. Sôfrega por algo gelado que acalmasse o calor das 15h refletido pelo asfalto, a mulher pede suco de morango com leite, senta-se em frente ao moço dos sucos, cruza as pernas abraçadas pelo sol que ultrapassa a janela e espera o pedido. Enquanto ela separa os quatro e cinquenta na bolsinha de moedas, o homem, concentrado, pega o leite, abre a caixa de polpa de fruta, comanda o liquidificador, serve o suco. A loira pega um canudinho, coloca o cabelo para trás, começa a sugar a bebida rosada. Voltando a espremer laranjas, o rapaz vê a cena, para por um instante, observa o ritual: o canudo encontrando os lábios, o suco desaparecendo do copo fundo, o cabelo querendo voar, o decote cada vez mais aberto, os seios pulando enquanto a menina se ajeita no banco alto. A mulher termina, levanta-se, arruma o decote - que golpe! -, vai até o caixa, paga o que deve e desaparece. O gordo de camisa desabotoada senta-se no lugar antes ocupado pela pequena, engole a cachaça, reforça o pedido do café, coça a barriga, espreguiça-se. “Que cena horrível”, o outro tenta coçar a testa.
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