Contos heróicos no Abrigo Verdejante

Pela preservação dos feitos gloriosos de Burgell e Morak.

Texto rápido e sem revisão: Um presente de aniversário para @Javanzord e @lklira.

(*)

São nos tempos de paz que se esquece da dor. Tu me perguntas se sou um herói. Resondo-te, mais de uma vez, que não. Contudo, se temos a possibilidade de plantar a nossa história no chão que habitamos, ela só é possível por causa deles.

Se me lembro bem, há muito tempo atrás, existia uma aldeia em meio às florestas: o Abrigo Verdejante. Frutífera terra de trabalho e suor. Regida por Tarbaw — o Colina Soturna — e sua família. As ingênuas reclamações tratavam do calor e cansaço da labuta. Mas houve um tempo em que se suava frio com o medo da morte e as queixas tornaram-se gemidos agônicos.

Invadiram-nos. Cultistas em seus mantos negros com detalhes púrpuras, mercenários de diversas raças, kobolds guinchavam enquanto queimavam casas, lagartos-dracônicos — chamados de ‘draco-emboscada’ por conta da sua velocidade em lutas — eram usados para transportar todos os nossos tesouros. Inacreditávelmente, um ser gigantesco acompanhava o saque. Um imenso dragão azul atemorizava-nos apenas com o olhar.

De Abrigo Verdejante ao abrigar-se do flamejante. Refugiávamos-nos no forte central, morada de Tarbaw. O cheiro era de um matadouro. Os animais: nossos cidadãos. O dormitório era a enfermaria e a preocupação nosso hobby. Eis que estrangeiros amistosos adentram nosso recinto. Todos baixos, o maior tinha cerca de 1,50m. Um halfling, um gnomo e um anão. Mal sabíamos que na pequenês destes havia em potência a grandeza heróica. Não julgais o outro sem antes conhecer a concretude do mesmo. Eles eram nossa única, inesperável, esperança.

Em meio a tormenta, de forma semelhante, cantavam os primevos rapsodos: ‘‘Wo die Gefahr ist, wachst Das Rettende auch’’ (1).

Citiavam nosso forte. Os estrangeiros faziam guarda. Súbitamente gritos surgiam da torre de guarda traseira. Atacavam nosso portão mais fraco. Um aríete vinha puxado por draco-emboscadores, kobolds e cultistas usavam equipamentos para escalar nossos muros, mercenários atacavam flechas e lanças de longe. Forçavam nosso frágil portão de madeira.

Nem sempre a garantia da vitória está na frente-de-batalha, mas na segurança da defesa. Cultistas montados em draco-emboscadores investiam contra o frágil portão. Este já estava se partindo, buracos começavam a ser abertos pelo impacto dos ataques.

Em meio a toda gritaria e os estrépitos de batalha, o gnomo se posiciona diante do portão, retira um pergaminho e começa a emitir uma série de palavras arcanas. Burgell, o gnomo-mago, silenciava sua mente em meio da intempérie, dos seus gestos saiam faíscas, engrenagens, parafusos, seu manto e o pergaminho flutuavam levemente ao emitir seus clamores ininteligíveis ao populacho. O portão se consertava magicamente e com os estalos saiam fagulhas e estampidos.

Mas este feito não poderia ser tão simples.

Os ataques aos portões continuavam, a frente de defesa do forte não conseguia conter todos os assaltantes, as investidas ao frágil pórtico se intensificavam. Uma nova fresta era aberta. Via-se a cabeça da montaria dracônica pelo buraco. Por mais que Burgell se preocupava com os ataques, isso não influenciava na sua concentração. Ainda não influenciava. Até que um cuspe ácido saiu do buraco e atingiu seu peito. A gosma corrosiva queimava sua roupa e pele. A sensação de abrasamento corrosivo descia vagarosamente e dilacerava o torso do Gnomo. Seu pensamento oscilava, o padecimento corpóreo afetava sua mente, a magia emitida pelos seus dedos não parecia suficiente para aguentar o avanço inimigo. Ele sabia para onde fugir, descobrira uma saída por túneis. Seria muito fácil desistir da defesa e correr para um esconderijo. Porém, algo nele clamava por continuar: A Persistência Heróica.

Transformou a dor profunda que penetrava seu ser em força arcana. Um estampido. Vapores, fagulhas, metais, parafusos, voavam para todos os lados. O pórtico que outrora era de madeira tornou-se um duríssimo aço. Os ataques não abalavam mais o portão. O momento foi tão inspirador que o pequeno Halfling ao seu lado ficou divinamente envolvido e fortalecido — mas isto fica para outro conto. A magia de Burgell intimava o heroísmo de todos. Com uma boa defesa e o aflamar energético para todos os aliados, o assalto foi contido.

Ei! Você aí, não interrompa tão facilmente a narrativa. Não vês que estou a me concentrar? Queres saber do anão? Está bem. Falemos de Morak, já que estais com pressa!

Depois de muitas batalhas, o grupo de forasteiros — que agora continha um meio-elfo para distoar na altura — traziam para o forte sobreviventes encontrados no templo. Avistaram, ao aproximar do refúgio, inúmeros kobolds com quatro prisioneiros e um humanóide meio-dragão de coloração azul com vestimentas púrpuras. Este era o líder do bando, auto-intitulado Langedrosa, Bafo Ciânico.

Ele bradava e desafiava Tarbaw a escolher um campeão para batalhar contra ele, independente do resultado Langedrosa entregaria quatro reféns que ele havia capturado. Os aventureiros sabiam que o regente do forte estava seriamente ferido, não haveria um campeão mais forte do que um deles próprios — os estrangeiros. Em conversa no grupo, Morak se pronunciou como o mais apto para a batalha. Não havia se ferido muito, tinha vigor para lutas mano a mano, não temeria o meio dragão. Assim, Burgell mandou uma mensagem arcano-telepática para Tarbaw. Ele logo pronunciou Morak como seu campeão, enquanto o restante do grupo furtivamente espreitava a entrada secreta do forte.

Langedrosa logo se animou. Poderia ser uma terrível emboscada para Morak, afinal estava cercado por uns vinte kobolds. Contudo, por mais malígno que fosse Bafo Ciânico ele continha a honra dos draconatos — manteria a sua palavra.

Morak, sacou seu machado de batalha que empunhava com as duas mãos, estalava o pescoço enquanto caminhava firme em direção ao meio dragão. Franzia o cenho, estava determinado. O anão poderia ter fugido, omitido-se na massa ferida do forte, deixado que outro morresse enfrentando o draconiano. Semelhante à escolha de Burgell, há momentos que podemos distinguir o comum do heróico. Certamente, em sua coragem, Morak carregava consigo a aura e a certeza que só um Campeão poderia ter.

Nada intimidado, Langedrosa saca sua lança com ambas as mãos, queria manter distância e estudar seu inimigo. Morak parte em investida contra o oponente que tem o dobro de sua altura, o anão quase acerta no ombro.

Langedrosa, em sua esquiva, tenta furar o peito anônico mas a cota de malha de Morak é suficiente para aparar o golpe. Este era o momento. O draconato estava com a guarda aberta. O anão pega seu machado e em um golpe truculento de baixo para cima decepa o punho direito do inimigo.

Todo o público rebuliça com o ocorrido. Pensei até que Langedrosa fugiria. Mas ele mostra o porquê de sua alcunha. Em gritos de agonia o draconato urra e de sua boca saem raios cianos que eletrocutam seriamente Morak. O anão dá vários passos para trás, mas não cai. Eis o motivo do dito: ‘Se vires um anão cair sem morrer, terás sorte para toda vida.’ Não podíamos negar que Morak estava espantado e muito ferido com o que havia acontecido. Feridas foram abertas em todo seu corpo. Suas pernas tremulavam. Atônito ele via Langedrosa largar sua lança e sacar a espada com sua única mão. Muito sangue escorria do que restava do seu punho.

Em investida furiosa o meio dragão brada sua espada em direção do seu oponente cambaleante. Mas a estratégia de Morak era essa, atrair seu inimigo. No meio da investida de Langedrosa, o anão estabiliza suas pernas, revigora seu corpo, salta se desviando do ataque. No ar, Morak levanta seu machado e com o peso do seu corpo impulsiona mais um golpe amputante. O outro braço do Bafo Ciânico está no chão.

A honra de um dragão impedia Langedrosa de fugir, ele se ajoelha e abaixa sua cabeça. Nem uma última palavra. Morak olha para Tarbaw e desfere seu coup de grâce. Os kobolds fogem atemorizados, enquanto todos os sobreviventes do Abrigo clamam a vitória do nosso campeão.

Se tenho algo para dizer a vossa geração é: tenham a Coragem de Morak e a Persistência de Burgell. No perigo do assalto eles ouvem o clamor de si mesmos para salvar-nos. Aqui está o relato de um rapsodo que foi resgatado pelos nossos heróis. Sou Fill, o Rapsodo Verdejante. Inspirado por Burgell a poetar e historicizar, resgatado pelos Campeões do Abrigo.

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(*) Conto inspirado na nossa mesa de D&D 5.0. História baseada no livro Hoard of the Dragon Queen da Wizard of the Coast.
(1) Verso do poema ‘Patmos’ do poeta alemão Hölderlin que, em tradução livre, significa: ‘Onde há o perigo, nasce também a salvação.’

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