Sob um manto de absolutismo moral

Ciro Siqueira
Aug 24, 2017 · 4 min read
Fiscal do Ibama observa destruição de serraria em uma das regiões mais pobres do Maranhão em foto de Felipe Werneck/Ascom-Ibama

No dia 22 de maio de 2009 o lavrador Emanuel Josian Barbosa caçava arribaçãs numa área de proteção ambiental quando foi abordado por fiscais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Os fiscais atiraram contra o lavrador que morreu horas depois. O Ibama, divulgou nota oficial na qual lamentou a morte de Josian, mas reforçou a necessidade de fiscalização na unidade de conservação.

O município de Marcelândia, em Mato Grosso, tinha cerca de 25 mil habitantes no início dos anos 2000. O dinamismo econômico que atraiu os moradores vinha da exploração madeireira e do avanço da fronteira agrícola. Marcelândia figurava no topo da lista dos maiores desmatadores de florestas na Amazônia. O Ministério do Meio Ambiente (MMA) disparou então o Ibama em operações regulares de combate à destruição ambiental acompanhadas pela Polícia Federal e pela Força Nacional de Segurança. A taxa de desmatamento em Marcelândia foi praticamente zerada, mas a economia local estagnou e 13 mil brasileiros deixaram a cidade. Ninguém sabe ao certo para onde.

Em dezembro de 2009, Élcio Santos, um morador da comunidade de Pinhel no coração da Amazônia, procurou jornalistas em Santarém, no Pará. Élcio queria fazer uma denúncia. Contou aos jornalistas que fiscais do Ibama reuniram os moradores das comunidades que ficam dentro da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, e os comunicaram de que serão proibidos de criar gado. Os moradores da reserva criam gado desde o século 18. Numa das reuniões um fiscal ambiental sacou uma pistola e colocou-a sobre a mesa à sua frente enquanto falava. “Todos acham que foi para intimidar os moradores. Os comunitários deverão se reunir e prestar queixa na delegacia”, disse Élcio aos jornalistas de Santarém.

Em janeiro de 2010 uma equipe de televisão que acompanhava uma operação do Ibama e da Força Nacional de Segurança em Novo Progresso, no Pará foi detida pelos fiscais. O jornalista Walteno de Oliveira, o cinegrafista, o auxiliar de câmera e o presidente da Associação de Produtores de Novo Progresso, Luiz Relfinchtain ficaram presos por mais de quatro horas na sede do Ibama e tiveram seus equipamentos confiscados e vistoriados. “Os militares disseram que não podíamos fazer as imagens”, protestou o jornalista.

No dia 23 de outubro de 2015, o trabalhador rural Pedro Moreira da Luz procurou a Delegacia de Polícia Civil de Novo Progresso para registrar um Boletim de Ocorrência. Ao então delegado Daniel Mattos Mathias Pereira, o trabalhador relatou ter sido abordado por um agente do Ibama ao sair da propriedade rural onde trabalhava às margens da rodovia BR-163, na comunidade de Cachoeira da Serra. Aos policiais, o trabalhador relatou ter sido agredido com socos e ponta pés, e teve o pulso quebrado pelo fiscal ambiental. Registrou ainda no Boletim de Ocorrência ter sido amarrado e abandonado na mata pelos fiscais. O trabalhador passou uma noite e um dia na mata até conseguir se soltar e procurar a Polícia Civil para registrar a ocorrência.

O filósofo e escritor francês, Albert Camus, em O Homem Revoltado, fez uma dura crítica ao abandono do humanismo em prol de sistemas filosóficos abstratos e a uma incapacidade dos intelectuais comprometidos com esses sistemas filosóficos de denunciarem suas ideologias. Camus se referia aos abusos do totalitarismo marxista no leste europeu para os quais os intelectuais de esquerda da Europa ocidental faziam vistas grossas.

A estratégia de ocupação da Amazônia do governo brasileiro até os anos 80 tinha não teve grandes preocupações ambientais. Brasileiros foram instados pelo governo a irem para o norte desmatar, plantar, produzir, desenvolver e se integrar à sociedade como cidadãos. Muitos atenderam o chamado do governo e se orgulham tê-lo feito. Muito desmatamento houve na esteira desse processo. O desmatamento e o avanço da fronteira eram morais e legítimos à época e as gerações que sucederam os pioneiros, as economias locais, as mentes e as culturas desenvolvidas na região nas últimas décadas, têm o velho espírito.

Mas hoje, o espírito é outro. O desmatamento tornou-se imoral e ilegítimo. A prática antes incentivada pelo Estado passou a ser coibida. O aparato repressor lançou-se contra uma população de brasileiros que cresceu com o antigo espírito e que não entende bem a mudança.

Por ser mais fácil, o Estado brasileiro optou simplesmente por oprimir o antigo comportamento predatório sem deixar no seu lugar nenhuma alternativa de desenvolvimento sustentável. O expurgo de Marcelância, o assassinato de Josian, as ameaças denunciadas por Élcio e a censura ao jornalista Walteno de Oliveira, são justificáveis, morais e vêm se tornando paulatinamente legítimos.

Por toda a Amazônia as operações oficiais de proteção ambiental foram seguidas pela ruína das economias locais com consequências na redução dos empregos, da renda e das expectativas das pessoas. Em alguns municípios como Novo Progresso, Paragominas e Tailândia, no Pará, Buriticupú, no Maranhão, e Buritis, em Rondônia, ocorreram insurreições populares. Todas elas, ou foram ignoradas pela sociedade, ou foram percebidas como reação dos destruidores da Amazônia contra a legítima estratégia de defesa ambiental do governo.

O ambientalismo cobriu-se com uma espécie de manto de absolutismo moral. Tudo o que é feito em prol da salvação do meio ambiente é moral e potencialmente legítimo. Mesmo a ameaça, a restrição de direitos, a tortura, o expurgo, a censura e o assassínio são justificáveis. O ambientalismo, um sistema filosófico abstrato, invoca a urgência da salvação do planeta para justificar o que de outra maneira seria injustificável, e ninguém os denunciará.

)
Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade