Elza: uma mulher, muitas mulheres
Sei que é demais querer-se paz e amor também
A expectativa é a mãe das decepções. E também do espetacular. O deslumbre expressado em centenas de derramados adjetivos ao longo dos últimos meses definitivamente encaixam Elza no segundo caso — e são poucos para lhe fazer justiça, do começo ao fim da experiência. Estar na plateia por duas horas é um deleite nos fazendo pensar em nós e no mundo (aquele que foi, aquele que é e aquele estamos construindo).
Uma sensação que percorre do cóccix até o pescoço é a de ser alguém entre mil pessoas e ter a apresentação sendo encenada exclusivamente para si. Como se cada pedaço da construção cênica estivesse pensado para te agradar, não porque tenha revelado o quê imaginava encontrar, mas por ter recebido uma descarga de emoções que, anteriormente, nem mesmo saberia apontar o melhor caminho para atingi-la em você caso tivesse sido consultado.

O musical é escrito por Vinícius Calderoni; com direção de Duda Maia; possui direção musical de Pedro Luís; e, ainda, arranjos de Letieres Leite. É sobre Elza Soares. É sobre o Brasil. É, mais especificamente, sobre milhões de brasileiras, mulheres negras massacradas por séculos de violência, machismo, invisibilidade que a voz rascante da cantora incorpora, traduz e amplifica.
A montagem bota a lata d’água na cabeça e de maneira arejada se propõe a nos contar a biografia da diva. Sob um desenrolar agridoce — delicada e contundente — , a obra é um desfile de sucessos da artista e, também, um registro do tamanho de sua dificuldade para se realizar e alcançar seu sonho. “Sobreviver é um ato político”, ainda mais sendo negro, ainda mais sendo negra. Mas, se você quiser, você pode tudo, né? Faça-me o favor…

Tentando absorver toda a narrativa, sentindo o quão impactante é essa mulher no palco, sentindo a fundamentalidade de sua obra (anterior e, destacadamente, a recente) e pensando em tudo que ela já viveu — fome; agressão; racismo; amando e sendo recriminada; mortes de filhos… Olha a dificuldade que é, saindo de baixo, fazer do seu talento (qualquer um) modo de vida! Quantos perdem a batalha? Quantos não possuem um exército, por menor que seja, para lhes ajudar na guerra?
Elza Soares é uma força da natureza tão poderosa que são necessárias sete artistas para representá-la. Uma mulher de sete vidas! Não apenas isso: sete exuberantes atuações! Larissa Luz, Janamo, Julia Dias, Khrystal, Verônica Bonfim, Nívea Magno e Késia Estácio. Elas brilham no palco acompanhadas por uma banda composta também por mulheres (Antônia Adnet, Georgia Camara, Guta Menezes, Neila Kadhí, Marfa e Priscilla Azevedo). Deus é Mulher, Deus há de ser.

Larissa é a luz permanentemente acesa da trama ao incorporar a voz e o jeito da homenageada, conduzindo-nos a ela. Entretanto, a opção por não ter as outras atrizes buscando esse registro é um acerto que fica evidente desde o primeiro momento, em cada solo, em cada monólogo — especialmente, a partir do “diálogo” entre a narradora e a personagem jovem num programa de calouros. A abordagem natural nos faz também Elzas. Todas são chamas intensas: o sol ensolarará a estrada dela…
Há momentos de magia ao gosto do freguês e da freguesa. O meu guri, Espumas ao vento, Língua, Maria da Vila Matilde, Pra fuder… O mais sublime deles ocorre no trecho sobre a relação entre a cantora e Mané Garrincha: a entrega de Késia Estácio em Dindi merece, como se costuma dizer no futebol sobre um lance magnífico, que o público saia do estádio e pague o ingresso novamente.

Como uma das peças do período recente no Rio de Janeiro dedicadas a dialogar com a negritude, colocando os(as) negro(as) no centro da “(cri/interpret)ação” e da plateia, o peso de a carne mais barata do mercado “não é mais” a carne negra faz parte dos espectadores diretamente atingidos levantar-se e acompanhar de pé o esquete. As lágrimas, os aplausos, o envolvimento mostram que entendimento do que significam a artista e a peça chegam antes mesmo de as cortinas se fecharem.
O musical é uma homenagem. Não há nada menos que exaltação da vida e da obra de Elza Soares. Porém, não há pieguice. Elza é alegria e, dura na queda, canta para transformar dores; canta para potencializar lutas. Canta porque é preciso. Assim como é fundamental que todos vocês corram para o teatro para assistir imediatamente esta preciosidade. E se já viu, peça bis!
