Paz não é silêncio

Quando eu vejo familiares, amigos (até então) e conhecidos vociferando apoio a um conjunto de pensamentos excludentes, eu me pergunto: por que essa pessoa diz que gosta de mim? Ou por que me cumprimenta; fala comigo sobre o tempo se me acha inferior? Se acredita que sou indigno de ter os mesmos direitos que ela? Se acha que meus companheiros são escória? Se, em última instância, defende que eu mereço morrer? — Cizenando Cipriano em “Entre o mundo e eu”

Quanto tempo dura o luto? Pouco mais de uma semana após a definição do processo eleitoral do Brasil em 2018 temos um governo federal apontando as diretrizes caóticas de sua futura gestão (não muito distantes da atual, diga-se), seus apoiadores buscando impôr uma agenda de ataque contra a Educação e contra símbolos físicos ou culturais do quê identificam como problemas; a oposição batendo cabeça disputando o comando do barquinho e críticos dispersos entre gritos de guerra pouco articulados, medo e catatonia.

Slogan da Ditadura Militar (1964–1985) recuperado pelo canal SBT nesta reta final de 2018. (Imagem: Twitter)

A avaliação pode variar — você me chamará de pessimista e/ou exagerado, e não será nem o primeiro, nem o segundo -, mas o fato concreto é: a vida segue. Não à toda, onde a Democracia sempre foi uma ideia bonitinha de vender, só que nunca uma aplicação concreta, o genocídio continua, por exemplo, no Complexo do Alemão, no Complexo da Maré e na Cidade de Deus [links ao fim deste texto] (um aperitivo do que seguiremos tendo em breve). Além disso, tão trivial no sempre escasso noticiário sobre essas vidas, as famílias e amigos separados pela Eleição 2018 buscam se reagrupar.

Sim. (Imagem: Facebook)

Confesso que tenho uma grande dificuldade em lidar com a simplificação a uma mera escolha de números na urna dos motivos destas discordâncias que mobilizaram-nos neste período. Como já coloquei na publicação “Entre eu e o mundo” [link ao fim deste texto], o debate era existencial — e uso o termo em sentido prático: o projeto vencedor tem como carro-chefe a inviabilização da vida de outros cidadãos por diferenças físicas, comportamentais, religiosas ou de opinião. A escolha por ele implica em concordar com seus princípios.

Paródia da música-tema do seriado A Grande Família, composição original de Tom e Dito. (Imagem: Twitter)

Diante disso, os laços que estremeceram me parecem terem sempre sido mais frágeis do que aparentavam em tempos em que exaltar torturadores era feio porque desumano. Posso soar repetitivo, mas não se trataram de discussões sobre a melhor maneira de conduzir a Economia ou realizar melhorias na Saúde; falamos sobre promoção do preconceito, revisionismo histórico e dilapidação do arcabouço educacional vigente. Pautas que poderíamos agrupar sob um a denominação “ético-moral”. Há como seguir caminhando sem o impulso de olhar pra trás apreensivo(a)?

Em termos simples. (Imagem: Twitter)

Obviamente, existe um movimento fundamental de pacificação de famílias que se viram apartadas da sintonia que julgavam manter. Reencontrar o afeto, a maior ação política que podemos adotar atualmente, não é um processo em que a minoria ou o derrotado cede à maioria ou ao vencedor; antes disso, requer a reflexão de todas as partes sobre o que as levou até aquele ponto. Amor não se sustenta sem Respeito e este talvez tenha sido o maior aprendizado de 2018.

Texto do professor e escritor Luiz Antônio Simas. (Imagem: Facebook)

A escolha de (re)construir pontes é tão compreensível como a de quem preferiu se afastar. Pessoalmente, a visão algo religiosa de que “perdão, o seu primo não sabe o que esta fazendo” ao optar por um modelo discriminatória e potencialmente fascista não me desce muito bem. Nesta situação, o Natal sozinho ou entre renegados me parece uma opção melhor do que entre os de sangue, mas que não me olham como alguém plenamente digno de existir do jeito que estou sendo.

Abertura da série “Um amor de família” (Married… With Children, no original) com a música “Love and marriage” ( James Van Heusen | Sammy Cahn) na voz de Frank Sinatra. (Vídeo: Youtube)

Há questões práticas e questões (mais ou menos) filosóficas. Quando se defende que “ninguém solta a mão de ninguém”, deve-se pensar em quem está fora da ciranda formada e nunca teve a mão estendida para si. Os rastros de sangue deixados por tiros de fuzis nas costas de jovens continuam nas favelas; gays seguem com medo de andar de mãos dadas nas ruas enquanto correm pra se casar antes do fim de ano com medo da perda de direitos; mulheres são violentadas e assassinadas por serem mulheres.

Imagem meramente ilustrativa. Entendedores entenderão… (Imagem: Facebook)

Quanto tempo precisaremos lutar? O verbo é também intransitivo. Ela sempre será necessária, pelos que já foram e pelos que virão, esteja o tempo bom ou ruim para o status quo. Quando se reunirem à mesa, para o almoço de domingo com a família, que não seja para manter as aparências ou por medo de estar sozinho (busque sempre os seus). Que seja para celebrar entendimentos, empatias e a memória dos que não tiveram e não estão tendo esta mesma sorte. Paz não é silêncio.

“Estão vivos os fantasmas
e aprenderam
a uivar.”
— Ondjaki

  1. Link: “Policial ‘confundem’ muleta com arma e atinge homem no Alemão”.
  2. Link: “Adolescente é morto em ação policial na Cidade de Deus”.
  3. Link: “Três mortos e oito feridos em ação policial na Maré”.
  4. O texto “Entre eu e o mundo” completo.
  5. Link para post de Luiz Antônio Simas: aqui.
  6. Entrevista com Tom, um dos compositores da música “A grande família”.