Garotas, guitarras e a síndrome de donzela do rock

Kat Bjelland

Acho que não é a primeira vez que eu, por exemplo, vejo uma expressão como ”síndrome de Avril Lavigne” passar pelo meu rastro na internet. Vocês já pararam pra pensar o por que esse tipo de expressão tão popular na cultura pop internética de hoje tem a nos dizer a fundo? Quando digo a fundo, digo no sentido de se ir além de tentar compreender o motivo de assemelhar uma síndrome ao nome daquela cantora de pop rock (?) canadense que nos fez gostar de skate e bota suja tem a nos dizer.

‘’Babes in Toyland: Uma das melhores bandas de todas’’ por Thurston Moore.

Pra quem não está familiarizado com a persona da dita cuja, aqui vai uma rápida recapitulação do que você esteve alheio há uns bons 15 anos:

Avril ficou famosa no comecinho dos anos 2000 com seu visual ”tomboy” skatista que batia de frente com tudo que parava ao nosso ver na época. Além disso! As músicas falavam sobre liberdade, solidão, e contradições que todo adolescente que se sinta desconfortável com a sua vida tem a se ouvir, claro, com muitos riffs que o nosso bom e já velho pop punk tem a nos agitar. Depois do enorme sucesso do seu álbum de estreia, 2007 veio pra mudar toda a conspiração já imaginada na face da nossa internet de fotolog.

Além de mudar completamente o seu visual, Avril também mudou o rumo de suas letras em geral. Seu hit mais famoso ”Girlfriend” fala sobre ser uma rockeira mais audaciosa e pretensiosamente radical do que a namorada do seu alvo de paquera. Literalmente, uma música onde uma menina de calça jeans, all-star e gravata xadrez faz uma grande de uma chantagem psicológica e física pra poder tascar uns beijo no boy figurante que parece aquele baixista lá daquela banda chamada Fall Out Boy.

Bom… Mas isso aí tá errado. Tá tudo errado… né? Cadê as letras sobre complicação? Vazio? …Skate? Ela só pode ter sido morta e substituída! Esse tipo de aprofundamento em questão a Avril não vai ser interesse nosso, mas acho que vocês pegaram bem o espírito, não?

Liz Phair. Não sei se vocês se lembram de ”De Repente 30”, mas aquele balanço de guitarra e voz que questiona a liberdade dela em amar e ao mesmo tempo esquecer o seu amor jamais deixou de ecoar na minha mente. Acho que isso faz parte da minha nostalgia de criança fissurada em meninas com guitarras.

Rolling Stone Edição Especial: ‘’Mulheres no Rock’’ (1994)

Muito antes de emplacar seu último hit em carreira ativa no filme, ela já tinha conseguido quebrar muitos assuntos, principalmente no que se diz conceito a uma mulher tocando suas próprias composições sozinha num palco no começo dos anos 90. Liz sempre foi uma garota virtuosa nesse tipo de assunto, o que a fazia se destacar entre o masculino da coisa.

Em 1988, ela soltou suas primeiras composições gravadas em uma demo chamada Girlysound (Girls! Girls! Girls!) Tapes. Muitas das composições de Liz que passaram por essa demo que surpreendentemente ficaria popular entre os adolescente numa fama deliberadamente underground e sistemática de passa-passa em mãos e zines.

Em 1996, um estudante americano decidiu fazer um documentário caseiro sobre um grupo de garotas de 13 anos que estavam se distanciando da sociedade escolar por meio de suas intervenções artísticas e estéticas. Essas meninas se vestiam de modo diferente, meio desleixado, e compartilhavam zines (pequenas revistas caseiras) com frases positivamente feministas sobre independência e preconceito. O documentário com o nome de Dirty Girls (Meninas Sujas, em português) ficou famoso na época e levou junto uma das demos da Liz, Batmobile.

O documentário de 17 minutos é muito pesado e fala muito com a nova geração adolescente que nasce após a explosão do movimento riot grrrl e em paralelo a meninas que só escutam Pavement ou qualquer outra banda que flerte com o noise, plenamente menos babaca que o resto que rolava na época.

Passados os anos 90, parece que algum tipo de síndrome contagiou o que eu chamo de vazio comercial seguido daquela espetada gentil da produtora a transformar a sua guitarra azul numa guitarra rosa cheia de borboletas e fadas. Não que rosa, borboletas e fadas sejam ruins, mas creio que contactar um príncipe da Disney sem consultar a sua alma é um vacilo. E aí nós entramos finalmente naquele conto… Ele é real… E se chama indústria musical. Mais especificamente a indústria do rótulo obsoleto toque feminino (A Avril Lavigne lembra muito disso!). Infelizmente, a Liz emplacou um último adeus mundial em 2003 lá no De Repente 30, lembra?

Usar uma blusa do CBGB ou do T.Rex não faz tanta diferença quando a sua filosofia musical percorre um estágio de esquecimento que só as borboletas e as fadas podem fechar as portas. Não só borboletas e fadas, mas calça jeans, all-star e gravatas xadrez também. E mechas rosas. Ah… Ou ser esposa do Kurt Cobain. E esse é, consideravelmente, uma menopausa que dura um bom tempo. Talvez pra sempre. Liz gravou seu último álbum em 2010 e não planejava voltar tão cedo.

E quem foi que nunca desmereceu The Go-Go’s ou The Bangles por ser rock de menininha? Ou da sua mãe? Seja lá o que isso queria dizer. Só comprova? Em pensar que uns anos antes elas só se vestiam de preto! (E elas são ótimas instrumentistas. Sério.)

The Bangles

Isso não é o que passa pela minha cabeça quando pesquiso sobre tal assunto na internet. No Youtube, você já pode tirar suas próprias conclusões. Existe o termo ”mulher guitarrista” sem uma conotação sexista? As pessoas que vêem os vídeos mais famosos de ”meninas tocando bateria” realmente se importam a ponto de ter de destoar baterista de menina? Ou vice e versa?

Esse tipo de assunto costuma ser bem mal interpretado, principalmente por homens que não estão engajados nesse tipo de causa. Sites que dão preferência as mulheres não querem fazer uma lavagem feminina no mundo e sim colaborar pra que o padrão patriarcal (e sim, ele existe muito ainda, acredite) em volta do mundo da música com o tempo se torne igualitário a ponto de não termos que nos referir a menina bonita e peituda que canta AC/DC acústico no Youtube. Mas como boa instrumentista. E é claro que sempre vai ter aquela famosa frase: ”Mas fulana de tal não é sexualizada ; Por isso que eu gosto dela e ela merece o meu respeito”. Hah! Aí vamos nós.

‘’Elas não poderiam existir sem Siouxsie. E Siouxsie não poderia existir sem elas.’’

Temos muito a trabalhar. Imagina se uma pessoa dessa interpretasse alguma letra da Liz Phair? Mas cara… Você gosta de GLAM METAL!

Independente de passar até por quem não teve nem o suspiro de poder questionar esse tipo de coisa (desculpa Meredith, nós amamos você), além dos anos 90, existem muitas dessas. Muitas mesmo. Vocês já se deram conta? Passando da Irmã Rosetta Tharpe, Joan Jett e da Lita Ford, Kim Gordon, ou até mesmo todas as meninas que compõe o shoegaze. Vê um avanço aqui? Acho que cada trabalho é fruto de seu tempo, e o nosso tempo é o mais favorável até hoje. E sinto que a força que o fantasma dos anos 90 deixou em empoderamento tem dado seus resultados a tudo que nós temos experienciado até agora.

Vocês já ouviram falar da Carrie Brownstein? Ou da Mary Timony? Kat Bjelland? June Millington? Holly Golightly? Kaki King? São guitarristas excepcionais e que marcaram o mundo da música com suas composições.

Carrie foi nomeada pela Rolling Stone a uns anos atrás como a ‘’guitarrista mais subestimada de todas’’.

Carrie Brownstein com o Sleater-Kinney (2015)

Se falando sobre guitarras em maioria, imagine falar de outros instrumentos. É engraçado por que até o baixo elétrico pode ter uma relevância maior ao nosso assunto. É o lugar reservado de que não sabe muito sobre badalar cordas e de preferência faz os vocais de apoio. Coisas que inclusive estão na história de muita das bandas com integrantes femininas.

Mary Timony tocando com o Helium (1996)

Aproveitando o que Mary mesmo disse e nos reduz a tudo o que trouxe você aqui:

Repórter: Pra mim, parece que pessoas que são ”tecnicamente” boas na guitarra — particularmente algo estritamente rígido como uma guitarra de blues — são mais propícios a produzir uma música mais obsoleta e flopada.

Mary Timony: Você conhece Mr. Big? Eles são aquela banda do final dos anos 80, do Billy Sheehan. Aqueles caras são conhecidos como sérios músicos — ou ao menos foi isso que pensei quando era uma adolescente. Ouvi isso do meu professor de guitarra na época. — E eu só acho que as piores músicas do mundo são escritas por pessoas que são realmente habilidosas tecnicamente e que estão tentando enganá-las.

Essa parte de uma entrevista recente com a Mary diz bem o que era justamente aplicado a ela também. Na época que a sua banda Helium saiu do status de underground pra alcançar uma fama notável até a MTV americana (tão notável que até o Sonic Youth pediu pra usar uma composição dela!), muitos críticos rebaixaram o talento dela a não só adjetivos pavorosos como bem machistas também. De ”álbum de menina afetada até ”uma adolescente perdida que fantasia obscuro demais”, fez com que Mary tivesse muitos problemas com a fama.

Eu não sei, mas além de uma implicância e uma pitada de pré-julgamento, se formos pensar no que a música e especialmente o rock tem a dizer em seu livre arbítrio de compor e se expressar, estaria Mary errada na época dela? Ou talvez tão certa a ponto de ser negativada por tais críticos?

Hoje, depois de mais de 20 anos passados, Mary continua dando aulas de guitarra em seu bairro, e por fora tem um trio bem legal que toca rock bem no estilo rockabilly, só que sem a deliberação da visão masculina. Não é demais? (os clipes são maravilhosos e cheios de referências, assistam!)

Estávamos a falar de Liz Phair, lembra? No final do ano de 2016, Liz apareceu na festa de comemoração de aniversário de sua gravadora (e de muitas outras artistas já citadas aqui), a Matador. Fez um show pra arrecadar fundos pra uma ONG que luta contra o câncer de mama cantando sucessos de seu álbum mais famoso, o Exile in Guyville, com convidados da cena musical atual.

Liz Phair e Bettany Cosentino (Best Coast) em show para a Matador Records.

Em entrevista ao L.A. Times junto a Bettany Cosentino, Liz fala sobre a importância de tudo que já fez e já passou em sua carreira anterior, que apesar de estar estagnada naquele tempo, ainda é recorrente e recorrida. ‘’É tudo sobre os resultados!’’ E não é isso que buscamos aqui?

Mitski Miyawaki

A cena da música feminina tem crescido muito, de todos os lados possíveis. A indústria não é a maior das vias, como já sabemos por sumo. De uns 10 anos pra cá, uma quantidade extraordinária de compositoras independentes tem marcado seu território na mídia, e principalmente nos tabloides mais famosos de melhores do ano. Mitski é uma delas. E ela me lembra o mesmo caso da Liz, só que com um futuro proeminente de seu apoio. Um produto de seu próprio tempo, de fato. Mitski lançou seu álbum Puberty 2 na metade desse ano, e tem tido um grande sucesso e atenção restrita. Seu álbum compõe-se de letras sobre rejeição, independência, frustração sexual, e tudo com um tom a mais: a sinceridade brutal. E ela é linda. Te lembra alguma coisa? E o que ela espera disso? Isso só depende da nossa força de vontade. Nem mais nem menos e claramente: Dar suporte a sua guitarrista local! (de preferência se juntando a ela)

A She Shreds é um grande exemplo de suporte a comunidade feminina musical em geral. É a primeira revista em circulação nas bancas e demais mídias literárias (americana, apenas) a tratar de assuntos musicais com artistas femininas. De acordo com pesquisas, isso é importante, pois dos 20 veículos de mídia musicais operantes e populares, menos de 10% dele tem espaço as mulheres.

She Shreds Magazine: Edição #6 (25.04.16)

Aqui na América Latina, nós temos a Hit Hat Girls Magazine. É uma revista independente que atua desde 2011 e retrata bateristas.

St. Vincent (Annie Clark)

Depois de todo esse ode e reflexão sobre a situação condicionada aos esteriótipos mais machistas da sociedade que arcaizaram do rock e da elite que era a música em si, o espaço feminino hoje em dia é de extrema expressão em resposta ao que a 60 anos atrás era improvável de se tocado por mãos femininas por não atender a demanda formal de simplesmente expressar o que tem de mais humano: a sua essência, sua frustração e a sua visão de mundo. Pra quem ainda tem como pergunta de maior importância a maternidade e o comportamento acima de suas visões artísticas, claramente ainda temos muito com o que nos importar.

Fica aqui o meu agradecimento a sua atenção! E antes que eu me esqueça: Sempre que puderem, façam como o Sleater-Kinney… Um vídeo-sátira em como ser uma banda de mulherzinha num ambiente de ‘’rockistas’’.

”And all the boys in the band know how to get down
Fill our Christmas socks with whiskey drinks and chocolate bars
And when the evening ends
We won’t be thinking of you then
Even if your song is playing on the jukebox!”

Vocês podem seguir minhas playlists temáticas de rock e mulheres no Spotify!

E lembrem-se: As mulheres inventaram o punk, não a Inglaterra!

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