Meio ambiente também é um caso de saúde pública

A saúde e o bem estar estão diretamente conectados com as condições do meio ambiente. O consumo e consequentemente o excesso de resíduos — domésticos, industriais, agropecuários — deixados na natureza aumentam a poluição e o possível contato com agentes patógenos, ou seja, causadores de doenças. A água, o esgoto e a superpopulação de animais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) também são fatores externos que interferem diretamente no estado de saúde pública do campus Seropédica. Esses fenômenos estão interligados: a água, o esgoto e os animais fazem parte de um ciclo no qual toda comunidade local e acadêmica também fazem parte. De forma pacífica ou não, nós sempre convivemos com microrganismos.


“A água é um ciclo”

O acesso ao saneamento básico é um dos principais indicadores de qualidade de vida. Mesmo assim, as doenças comuns em regiões sem saneamento básico são causadas pela existência de micro-organismos na água ou por alimentos irrigados com água contaminada. As doenças mais comuns associadas a falta de saneamento são: cólera, disenteria, Hepatite A, Poliomelite, salmonelose. A maioria delas causam diarreia, dores abdominais e desidratação aguda. . Em países pobres essas doenças são ainda mais comuns e e tem relação direta com o alto índice de mortalidade infantil porque as crianças são as mais vulneráveis.

A realidade confirma os dados da ONU: a cada 1 real investido em saneamento básico pode gerar uma economia de R$ 4,00 reais em saúde médica. E assim o que parece ser uma necessidade básica de todos, ainda é uma realidade distante para muitos. A diarreia ainda hoje é uma das maiores causadoras da mortalidade infantil, e isso se dá principalmente pelo consumo de água contaminada.

O instituto Trata Brasil destaca que a metade da receita investida em saneamento básico no Brasil fica concentrada nas cem maiores cidades,enquanto Belo Horizonte (MG) e Franca (SP) tem 100% do esgoto coletado em todas as casas, Santarém e Ananindeua, dois municípios localizados no Pará, não conta com nenhum serviço de coleta. O final do ciclo da água de uso doméstico é se transformar em esgoto. Aproximadamente, a cada dez litros de água consumidos, oito viram esgoto bruto.

A Coordenadoria de Projetos de Engenharia e Arquitetura (COPEA), responsável pelas obras na Universidade, não sabe da condição do caminho aberto há menos de um ano entre o Restaurante Universitário e o Pavilhão de Aulas Teóricas (PAT) porque nenhum órgão solicitou uma vistoria até hoje.

A Coordenadoria de Projetos de Engenharia e Arquitetura (COPEA), responsável pelas obras na Universidade, não sabe da condição do caminho aberto há menos de um ano entre o Restaurante Universitário e o Pavilhão de Aulas Teóricas (PAT) porque nenhum órgão solicitou uma vistoria até hoje.

Os animais no campus: segurança e controle de doenças

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que existam 30 milhões de animais abandonados no Brasil. No Campus da Rural eles são muitos e talvez por isso nem todos possam ser acolhidos. O voluntarismo da comunidade acadêmica não é suficiente para suprir os cuidados que os animais precisam. Não há uma estimativa possível sobre a quantidade de animais abandonados na Rural porque a prática do abandono por aqui é recorrente, e a extensão do campus aumenta ainda mais a taxa de natalidade.

Em 2013 o IBGE estimava que no Brasil já existia mais animais de estimação do que crianças. O número de animais doméstico é enorme, e em consequência disso, o número de animais abandonados pelas pessoas também é alarmante. É comum encontrar animais abandonados pelas cidades e se engana quem pensa que este é um problema exclusivo dos grandes centros urbanos.

“Alguns parceiros fazem castrações a baixo custo, doam ração e medicamentos, mas o número de cães e gatos superam o número de doações.” SOS Animal

A quantidade de animais revela que além do abandono há um problema de saúde pública. Cães e gatos podem transmitir doenças que são comuns entre seres humanos e animais, as chamadas zoonoses. As principais doenças transmitidas são a toxoplasmose, raiva e leishmaniose. Mas o controle fica ainda mais difícil quando os animais estão em situação de abandono e não se sabe nada sobre eles. O método mais comum no Brasil para o controle das populações de animais que moram na rua é a castração, mas eles também precisam de acompanhamento veterinário, vacina e prevenção de doenças.

Os animais abandonados são um problema já conhecido da Universidade Rural que se mobiliza enquanto pode através de grupos como o SOS Animal. Eles promovem campanhas permanentes de adoção responsável, arrecadação de alimentos e castração. Nos Alojamentos Estudantis e nos Institutos os estudantes “adotam” os bichinhos e deixam à disposição ração, água e é claro, atenção.

Gatinho Inhame adotado pelo Alojamento Feminino Estudantil F4

A extensa área do Campus Seropédica também abriga animais silvestres, como a capivara. Hoje elas são motivo de preocupação nas áreas urbanas em contato com os seres humanos. “O contato de animais silvestres também pode causar doenças. A capivara transmite febre maculosa, o morcego transmite raiva, o rato transmite leptospirose.”, relembra a Dr. Sandra Maria Gomes Thomé do Departamento de Epidemiologia e Saúde Pública (DESP) da Universidade Rural.

“As capivaras são risco pra contaminação ambiental do gramado por carrapato. Quando a fêmea é infectada, ela já tem ovos infectados, esses ovos quando eclodem viram larvas e ninfas já infectadas. Toda vez que esses novos carrapatos foram se alimentar eles já estão aptos para transmitir.”

As zoonoses são doenças que podem infectar tanto animais quanto seres humanos. A imensa maioria dos animais domésticos evoluiu junto com a humanidade. Através do convívio de milhares de anos com cães e gatos, por exemplo, o ser humano adquiriu resistência, acumulou conhecimento, desenvolveu políticas públicas e formas de combater as epidemias.

Mas todos os animais silvestres são protegidos pela Lei de Crimes Ambientais 6905 art. 32/1998. Qualquer pesquisa ou controle desses animais precisa da autorização expressa do IBAMA, o que dificulta o enfrentamento das doenças como problemas de saúde pública. Ao contrário dos animais domesticados, os silvestres não são acostumados a serem manipulados e podem reagir organicamente, ou seja, o estresse pode fazer mal a sua saúde.

*por: Clívia Mesquita e Gabriela Venancio