A “luta” do Arsenal — Análise dos livres defensivos

A liga Inglesa está ao rubro. O Leicester City, equipa que nunca venceu a prova, encontra-se no primeiro lugar e delicia adeptos, adversários e mesmo curiosos do Futebol. Há dias, numa conversa de café escutei:

“…hoje não posso, quero ver o Leicester jogar…os gajos jogam muito!!!”

Mas quem é que no seu perfeito juízo, há uns anos atrás deixava de fazer algo para ver o Leicester jogar? Pois, ninguém. Mas o que é facto é que até ao momento somam 53 pontos e já superaram todas as expectativas.

Mas como não é do Leicester que vou falar, gostaria de relembrar os menos atentos que, mais ou menos há um mês, o atual terceiro classificado, o Arsenal, estava em primeiro lugar com 42 pontos. Numa época em que os principais candidatos, Chelsea, Manchester City e até o Manchester United, estão um pouco aquém do seu rendimento e performance, muitos já colocavam o Arsenal com o título nas mãos.

Nós, como analistas de performance e treinadores de uma equipa, devemos direccionar a nossa análise procurando defender-nos dos pontos fortes do adversário, ao mesmo tempo que exploramos os seus pontos fracos.

Esmiuçando os golos sofridos pelo Arsenal na Premier League, verificamos que:

  • 17 golos (73,9%) foram sofridos de bola corrida (seja em organização, ataque rápido ou contra-ataque)
  • 4 golos (17,4%) sofridos a partir de livres defensivos
  • 1 golo (4,3%) sofrido a partir de um canto defensivo
  • 1 golo (4,3%) sofrido a partir de um penalty

Apesar de o maior número de golos até ao momento ter sido sofrido em situações de bola corrida, como seria esperado, verificámos que em 44 livres defensivos, foram sofridos 4 golos que prejudicaram, de forma directa, a equipa do Arsenal em 9 pontos.

Como tem sido o comportamento do Arsenal nos livres defensivos em alguns jogos?

  • Arsenal 0 vs 2 West Ham

No momento em que o livre é batido, os jogadores do Arsenal formam uma linha em diagonal, havendo um jogador (Coquelin 14) que está nesse momento a colocar todos os adversários em jogo devido ao seu mau alinhamento defensivo inicial.

No decorrer do lance é também possível verificar que os dois jogadores do Arsenal mais próximos da bola demoraram muito a recuar e a ajustar em função do deslocamento da bola que, curiosamente, acabou por entrar mesmo nessa zona.

Lembro-me perfeitamente do que foi dito nos jornais desportivos do dia seguinte: “Cech oferece golo ao West Ham”. No entanto, de acordo com o vídeo, será Cech o único responsável pelo golo sofrido?

  • Chelsea 2 vs 0 Arsenal

Na derrota fora com o Chelsea por 2–0, podemos ver que também no momento da batida na bola, Koscielny 6 está a colocar todos os jogadores do Chelsea em jogo e, posteriormente, há uma descoordenação de toda a linha defensiva no recuo, sendo que no momento em que Zouma cabeceia a bola para o golo, quase todos os jogadores do Arsenal estão longe (à exceção de Koscielny).

  • WBA 2 vs 1 Arsenal

Algo semelhante acontece às duas situações anteriores, apesar de nesta situação haver um bloqueio individual chave a Mertesacker 4 que acaba por facilitar a entrada de um adversário vindo de trás que faz o golo.

No entanto, da mesma forma, no momento da batida da bola, o posicionamento de Mertesacker 4 coloca todos os adversários em jogo, e no decorrer do livre podemos verificar, mais uma vez, que há dois jogadores que não recuam para proteger a zona do primeiro poste.

  • Arsenal 3 vs 1 Sunderland

Neste lance percebemos de forma mais clara a importância do recuo dos primeiros homens da linha “defensiva.

Nesta situação, a linha posiciona-se mais uma vez em diagonal no momento da batida da bola e a ausência de recuo desses primeiros homens faz com que um adversário entre sozinho nesse espaço a atacar a bola.

Que conclusões podemos tirar destas análises?

Ao analisarmos a equipa do Arsenal a defender estas situações de bola parada, verificamos que o faz de forma zonal.

Para se defender à zona com sucesso é importante ter como referências:

  • A posição relativa da bola em cada momento
  • O preenchimento de zonas consideradas mais importantes do que outras
  • O posicionamento dos colegas e também o dos adversários
  • É preciso haver sintonia/sincronia nos movimentos colectivos pretendidos

Neste caso, facilmente chegamos à conclusão que há, de facto, um padrão defensivo “negativo” no Arsenal neste tipo de lances, pois as condições acima referidas nem todas estão garantidas, o que implicou consequências negativas directas no percurso da equipa.

Se juntarmos aos 9 pontos perdidos o facto de o Arsenal também ter sido eliminado na Carling Cup contra o Sheffield Wednesday por 3–1 (com um dos golos sofridos a ser semelhante aos 4 referidos anteriormente), podemos, como treinadores e analistas adversários, acreditar que estes momentos de bolas paradas são, cada vez mais, situações a explorar para procurar contrariar pontos fortes dos adversários e surpreender.

E vocês, concordam com esta análise ou têm outra leitura diferente?

E se fossem treinadores adversários, depois de verem a minha análise, há alguma estratégia que queiram partilhar para superar este Arsenal?

Análise realizada pelo Miguel Moita, Treinador Assistente/Analista de Performance do AS Mónaco.
Possui licenciatura em Desporto e Educação Física pela FADE-UP (Faculdade de Desporto da Universidade do Porto) com a especialização em Metodologia de Futebol. Acumula experiência em vários clubes, entre os quais, G.D.Chaves, S.C.Beira-Mar, S.C.Braga, Olympiacos, Sporting e atualmente encontra-se no A.S. Mónaco.
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