O dia dos museus — Review

Às vezes o mais velho parece melhor que o mais novo e mais caro. Ainda não visitei o novo museu dos coches. Estava para visitar nesse dia — o Dia Internacional dos Museus — mas disseram que ainda não tinha reaberto, que tinha de ir ao antigo e eu fui.

Já não me lembrava de nada. De certo que o teria visitado quando ainda era criança, todas as escolas parecem passar por lá, mas nada. Nenhum reconhecimento das suas paredes, nem da sua sala principal, com uma entrada ofuscada por um sol que entra pelas janelas ao fundo e que banha todos os coches de ouro com mais ouro ainda.

Ainda não visitei o novo museu, mas o antigo parece estar vestido para o papel, a rigor. O chão, polido pelos milhões de pés que o percorreram ao longo dos anos; os letreiros antigos, já amarelecidos que descrevem a quem pertence cada carruagem e o cheiro levemente bafiento; contribuíem para que a atmosfera, de alguma forma, pareça certa.

A luz que ofusca e banha de ouro

De vez em quando o silêncio é interrompido por uma vaga de estudantes impacientes, que falam alto e que passeam pelos corredores como quem não quer a coisa, mas tem de a querer. Uma das jovens confidencia à outra: “Eu pensava que Miguel Ângelo era português”, e a outra ri-se. Estam na altura em que esse tipo de coisas ainda é perguntada em testes ou em partidas de Trivial Pursuit. E de qualquer forma é uma pergunta de que se pode rir a vida inteira que nada acontece. Nada vai ruir ao ressoar da resposta.

Depois de sair, fui em direção aos Jerónimos. Pensava que já lá tinha estado tantas vezes, e de facto na parte da Igreja sim, mas na parte do pátio interior, onde estão os túmulos de Fernando Pessoa e de Alexandre Herculano, não. Ou se tinha estado não me lembrava de nada, nem como o sol deita fogo àquelas arcadas e aquece os inúmeros motivos que foram rendilhados nas suas paredes. Não sei como será num dia de chuva, mas num dia de sol é magnífico e fresco.

No túmulo de Fernando pessoa, podiam ler-se alguns excertos de Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos, na parte da frente e dos dois lados do pilar:

“Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. / Põe quanto és / No mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive.” (1933) Ricardo Reis
“Não basta abrir a janela / Para ver os campos e o rio / Não é bastante não ser cego Para ver as árvores e as flores.” Alberto Caeiro (1919)
“Não: Não quero nada. Já disse que não quero nada. Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer”. Álvardo de Campos (1923)

Todos eles parecem fazer particularmente sentido e convidam-me a sentar um bocadinho num dos bancos de pedra, só a olhar para eles.

Depois de um momento, parto em direção à saída, para entrar pela entrada lateral no Museu de Arqueologia, onde me tinha registado numa sessão de leitura sobre a escravatura em Portugal. Os textos pareciam de ficção, perguntei no final se eram baseados em dados verídicos e a resposta foi de que sim, eram baseados em investigação científica. Sempre adorei História, pela sua característica de à luz de outro tempo parecer surreal. Ajuda a olharmos para o nosso próprio tempo com alguma distância e crítica, porque sabemos que outros tantos, passados outros tantos anos, o acharão surreal também.

Depois da leitura a ideia era ir até à Torre de Belém, mas o Museu de Arte Popular pôs-se no caminho, e obrigou-me, através da sua aparência pacata mas decisiva, a entrar pela sua porta com a inscrição “Douro e Alto Minho”. Como se o simples ato de passar por baixo daquela ombreira me transportasse para outro local e outro tempo de vestidos folclóricos e ceifa. Um destes vestidos estava no meio da sala, para mostrar quem é que mandava ali.

Noutra das salas mostravam-se postais convertidos em azulejos ou vice-versa, porque reparei que num painel a data era anterior à escrita na fotografia. Fiquei ainda alguns momentos a olhar para isto, para ver se tinha lido as datas mal, pois o painel era igualzinho à foto do postal, e parece ser dificil que se tenha antecipado à realidade. A não ser que a realidade fosse tão rotineira naqueles tempos, que qualquer foto tirada depois, fosse sempre igual à anterior. Um dia ainda hei de perguntar.

Não é este o da data perplexa, mas também é bonito

Terminei a minha perplexidade, como convém na gestão do tempo que se tem para visitar museus, e voltei para a sala inicial onde vi alguns exemplos de cores que se podem obter nos azulejos, até ser surprendida pela senhora do Museu que me disse: “Desculpe, desculpe, temos de fechar. Dê só mais uma voltinha”.

Ao consultar o Google vi que a Torre de Belém encerrava às 18:30, mas que a a última entrada era às 17h. Ainda andei até lá, mas era mesmo verdade e já estava fechada. De qualquer forma o dia estava lindo e com os pasteís de nata que tinha comprado, ficar a assistir àquele espetáculo mesmo de fora, era uma conclusão perfeita ao dia internacional dos Museus.

Muitas vezes quando se está fora é mais comum fazer estas visitas em catadupa aos museus, e esquecemo-nos da riqueza que cada uma destes espaços encerra, muitas vezes bem perto de nós.

Às vezes é só preciso entrar.

A Cobaia

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