O DEUS DOS INVISÍVEIS

por Vinícius Lima

Desde que criei o SP Invisível, há dois anos, com o meu amigo André Soler, tenho conversado diariamente com irmãos e irmãs em situação de rua em São Paulo. Em todos as conversas, sempre acabamos falando sobre religião. Grande parcela da rua professa a mesma fé cristã que a minha, mas muitas vezes percebo que o Deus desses seres humanos invisíveis não é o mesmo Deus da maioria dos evangélicos.

A pergunta “quem é Deus para você?” sempre acompanhou os nossos papos pelas ruas. A resposta era totalmente diferente de uma que eu teria na minha igreja de classe média alta. “Deus é tudo para mim” ou “Deus é o meu melhor amigo” mostravam uma fé e uma dependência muito bonita que parecia a de um filho para um pai, mesmo. Deus só deixa de ser invisível quando é apresentado e se torna o Deus dos invisíveis.

Essas conversas me fizeram lembrar a passagem de Mateus 25, quando Deus vai julgar as nações e o seu critério é simples, “quem O viu no necessitado e fez alguma coisa e quem não O viu no necessitado e não fez nada”. Deus diz que, em Jesus, Ele estava no faminto, no preso, no que tinha sede e frio. Então, não é de se estranhar essa dependência dos irmãos de rua do divino, assim como um filho depende de um pai.

Quando Deus diz aos povos que estava com fome, sede, frio, refugiado, preso e eles não O viram, nem fizeram nada, Ele deixa claro o seu convite e a proposta da sua mensagem, “vejam!”, ou melhor, “me vejam”. Deus não está nada preocupado com a legalização ou não das drogas, com o movimento LGBT, regulamentação do aborto, Ele está preocupado se você viu ou não o viu nas periferias e nas ruas das cidades para servi-Lo.

Mas por que devemos enxergar? O que Deus quer fazer curando a nossa cegueira? Ele quer que a gente enxergue o invisível para que o invisível possa ver Ele em nós. Em João 9, Jesus cura o cego não porque alguém tenha pecado em sua família ou porque ele pecou, mas para manifestar a Sua glória e o seu amor e para que o ex-cego sinalize esse amor em todos os lugares que ele for. O invisível na cena era o caráter messiânico de Jesus.

Logo após, os fariseus em sua volta perguntam, “somos cegos também?” e Jesus responde “se forem cegos, não são culpados de seu pecado, mas como dizem que me viram, são responsáveis pelo pecado dentro de vós”. Embora, muitos pastores queiram nos mostrar o Cristo nas igrejas ou até na política, Ele sempre se mostrou sempre com o necessitado.

Ao contrário do que diz o Feliciano, Jesus não quer curar o homoafetivo, a única cura que ele quer fazer é em nós, é a cura da nossa cegueira para que possamos O ver nos invisíveis para servi-Lo em momentos de fome, frio, sede e refúgio. O que prova se você enxerga ou não, não é se você vê o que é invisível, mas é o que você vê no Invisível.

*Vinícius Lima tem 20 anos, é estudante de jornalismo na PUC-SP, já trabalhou em veículos como Portal R7 e BandNews e é co-fundador do SP Invisível.

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