WHAT ABOUT THIS?

Sócrates e Platão

Estive pensando, desde alguns anos para cá, como se poderia usar a filosofia no dia a dia. Sim, porque eu sentia que não era legal essa noção comum de que filosofar é colocar a cara para cima e ficar pensando em alguma coisa para se chegar à conclusão de que: penso, logo existo.

Não, não era possível! Só isso? Meu espírito irrequieto não aceitava tal coisa. Jamais! Para completar, os contatos que tive com a Filosofia do Direito me fizeram pensar que tudo era pior que isso. Assim, confesso que cheguei a pensar: se sou incapaz de filosofar, e se filosofar é atividade do intelecto por meio do pensamento, então sou incapaz de pensar. Isto quer dizer então que eu não existo? Que trauma!

Confusão geral. Bom, deu uma certa angústia, mas o tempo foi passando e o interesse sempre crescendo. Não fui fazer graduação em filosofia, por causa disso, obviamente. Tampouco fiquei como O Pensador, de Rodin. Na verdade as leituras esporádicas e, depois, as habituais, sobre mitologia grega, me mostraram um mundo de paixões tão próximo do nosso, que fui me encantando para saber mais. Daí então foi um pulo para seguir lendo sobre a decadência do Mito e o surgimento da filosofia grega, nos idos do século VI a.C. .

Então aí, permitindo-me fazer associações, ou o que chamamos hoje de link, com os problemas atuais e também com muitos dos corriqueiros nas nossas vidas, pude perceber que já estava filosofando quando me dispus a saber mais. Penso, logo, phylos! Eu estava pensando sobre; eu estava buscando saber mais sobre; então eu estava existindo! Uma existência em busca do saber.

Você pode me questionar: mas uma planta também existe. E eu te digo: sim tudo existe, ou está em potência de existir. Os bósons estão aí esperando a nossa atenção, segundo a física quântica. Agora, a diferença é que o ser humano, com o diferencial da razão, que lhe permite esses movimentos de indução, dedução, associações, de fazer links, etc., tem o poder de compreender e transformar o que quiser. E isso é puro power! Então porque não desenvolvermos essa faculdade transformadora, com essa ferramenta tão simples que é o pensar?

Será que só o debate dialético profundo, eu com você, você comigo, e mais um outro que se meta na conversa, num ambiente de uma Acrópole, adornados com uma toga, é que caracterizaria um debate filosófico? Será que seria realmente necessário se afastar para um jardim fora da cidade, como fez Epicuro, ou se fechar numa caverna com uma cuia de urtiga para meditar, como fez o hindu Milarepa, para somente assim se poder entender o mundo ou sintonizar o mais sublime?

Penso que não, gente. Penso que se pode resgatar a prática filosófica que propôs Sócrates. Aplicar a filosofia prática que ele usava quando abordava os passantes nas ruas e no mercado de Atenas, provocando o debate, a reflexão, a coragem de dar opinião contrária sem o envolvimento passional que destrói sínteses construtivas. Penso que se pode discutir um tema e concluir-se por uma opinião comum; ou deixar em aberto o tema em discussão; ou, em outra hipótese, chegar-se a conclusões divergentes num debate acalorado e, depois, todo mundo ir junto tomar uma cervejinha ou comer uma pizza, em sinal de respeito ao outro ser pensante.

É óbvio que a filosofia prática, cotidiana, se torna mais difícil a cada dia. Parece que hoje já não há mais a “hora do rush”. Toda hora é de rush, e a gente segue feito o coelho de Alice no País das Maravilhas. Ufff!!! Vivemos no automático, com ações repetitivas. E se uma situação inesperada surge não sabemos resgatar o pensamento introspectivo anterior e mais elaborado que o automático. Aí o desespero bate à porta; o pensamento automático não ajuda, quer se manter a todo custo, e então apelamos muitas vezes para as famílias do OL, do IL e do Al (propranolol, rivotril, gardenal, etc.).

Mas a gente não está nem percebendo isso! Nos tempos atuais até pensamos que um like ou um dislike numa rede social já é reflexão sobre um tema. “Não falei nada, mas tô antenado!” Pensa o cara, penso eu, pensa você…

Então, pensando nisso, e para contribuir para valorizarmos cada vez mais o ser pensante que somos, poderíamos, quando nos depararmos com um assunto interessante (política, esportes, ciência, ou mesmo um acerto ou desacerto de alguém nas redes sociais), tentar praticar uma sequência de exercícios filosóficos, como fazemos numa sequência de malhação.

Pensando sobre as questões do cotidiano, das manchetes, sobre uma obra de arte, fatos da história, ou até mesmo sobre uma piada circulando no whatsapp, podemos, racionalmente, ver mais do que a sombra deles lá no fundo da caverna de Platão.

Debatendo com os amigos — ou com os ainda não amigos, podemos trocar a mentalidade atual, no automático, por uma mentalidade filosófica, crítica, que considera contexto histórico, atores do fato, prós, contras, etc.

Parece muita coisa ao mesmo tempo, não é mesmo? Em um mundo virtual onde a velocidade das informações é mais que supersônica, parece até que pode dar um tilt na cabeça de quem se arriscar a pensar. Um “curtir” ou um emoticon seria mais rápido.

Nada! Experimente começar e sinta a dopamina do saber contaminar você! Deixe a conversa fluir, tranquila. Inicie com um simples “What about this?” . Afinal de contas, em busca da sabedoria, como fazia Sócrates e como faz a deusa Saravasti, somos todos filósofos!

Bom começo!