Quando o Amor chega antes

Caía a noite em Porto Alegre

O Theatro São Pedro havia os presenteado com um lindo espetáculo

Tudo aconteceu como se estivesse premeditado, mas não

Melissa, João Luis, Flor e Vicente bebiam algumas cervejas no boêmio bairro Cidade Baixa

Entre suspiros e impressões sobre o show ao qual muito aguardaram, os quatro lançavam verbos e adjetivos ao vento

Flor não poderia os acompanhar no restante da noite, mas, antes que fosse, Ênio haveria de alertá-los que o amor as vezes chega antes

Ênio aparecera alí sem pedir licença, aparentemente um morador em situação de rua

Transpirava uma necessidade imensa de afeto, carinho, atenção e alguns goles de cerveja, é claro

O diálogo entre os quatro amigos continuava e não demorou para que Ênio, afoito por saber mais sobre eles, perguntasse: vocês dois, são namorados? Apontando para Melissa e João Luis. Sim, respondeu João Luis

Logo, Ênio, que não media palavras, dispara: Reinaldo Gianechini, ao risos e apontando para João Luis. As gargalhadas ecoaram no Parque Farroupilha

Não demorou para que Ênio, sem concluir a frase, lançasse nova pergunta: E vocês? Apontando o dedo indicador da mão esquerda para Flor e Vicente

- Somos amigos, mas estamos nos conhecendo mais. Falou Vicente. — Sim, estamos juntos. Completou Flor

Ênio transparecia uma dura trajetória de vida, possivelmente marcada pela fome e a falta de uma moradia digna. Mas algo Ênio tinha de sobra: experiência de vida. Devia ter uns 50 anos de muita resistência e luta

Era um agosto fora dos padrões, fazia muito calor. Vicente usava uma regata vermelha. Sem papas na língua, Ênio pede um gole de cerveja a Vicente que prontamente estende, então, seu copo e compartilha de sua bebida com ele. E vai além: Ênio, tome aqui, vá lá buscar um sanduíche pra ti

Ao abrir a carteira e procurar os trocados, sem querer, Vicente deixa cair um pedaço de papel com alguns dizeres

[Em sua segunda passagem por La Pedrera, litoral uruguaio, achara o tal pedaço de papel, rasgado, mas que lhe chamara a atenção pelo conteúdo que dizia:

“Pra você guardei o amor

Que nunca soube dar

O amor que tive e vi sem me deixar

Sentir sem conseguir provar

Sem entregar

E repartir”]

Ênio, paralisado por alguns segundos, depois de rapidamente juntar o bilhete, com o olhar fixo as letras que ali se misturavam, age: leva o pequeno pedaço de papel até o peito de Vicente, suspira longamente e o entrega a Flor

Silêncio.

Flor e Vicente haviam se conhecido horas antes, durante o espetáculo no teatro

Mas Ênio não tinha dúvidas: para os dois, o Amor havia chegado antes mesmo de eles perceberem

Razão? Não. Apenas sentiram