Tempos de solidão

Acordar, trabalhar, estudar, encontrar os amigos, dormir e acordar novamente

Joaquim vivia a vida com grande intensidade e mal via o tempo passar

Comumente era surpreendido por suas próprias reflexões: Puxa vida, não tenho um minuto livre, preciso de um dia com 30 horas e não 24. Ou então: Sou mesmo um cara de sorte, aproveito cada minuto do meu dia e isso é gratificante e inspirador!

Joaquim, na verdade, não entendia nada sobre o tempo!

Nascido em 1998, com 17 anos completos e assumidamente um menino precoce, nunca se preocupou em estar a frente ou para trás do seu tempo, afinal, não compreendia nada sobre o tempo

Sobre o tempo, ainda, uma certeza havia: Joaquim não tinha tempo pra estar só

Estar só. Solidão era uma palavra que causava calafrios em Joaquim, talvez por isso uma vida tão agitada e preenchida

Joaquim tinha medo da solidão e isso nunca negou, contudo, mal sabia os efeitos de estar só, de sentir na carne — e no coração — as consequências da solidão

Joaquim, na verdade, não entendia nada sobre solidão!

O trabalho era Home Office

A faculdade era com ensino a distância

Os amigos: estavam todos na palma da sua mão

Mas ainda assim Joaquim não conseguia compreender nada sobre tempo e a solidão

Joaquim não precisava, mesmo, entender o tempo, ele era a representação precisa do seu tempo:

No trabalho era explorado do sofá de casa, sem um minuto a perder

Educação = reprodução

Seus amigos? Vistos por último há uma vida inteira

Em uma manhã qualquer, porém, Joaquim acordou e percebeu que a internet estava fora do ar. Custou, custou mas aceitou estar só

A internet caiu, seu mundo se abriu, o tempo passou e Joaquim compreendeu, então, que sempre estivera só e que agora, de fato, tinha o tempo que…

Foi em vão, pura ilusão, a internet voltou!