
O que o MEJ tem a aprender com piratas somalis?
E não só com eles.
Mas também com coletivos hackers clandestinos, fazendeiros Amish de leite de camelo ou gângsters das ruas lotadas de Shenzhen?
Filosofia. Motivação.
E, talvez mais do que isso: inovação.
Essa discussão não é sobre glorificar práticas muitas vezes imorais (vamos com calma, né?). Na verdade, o argumento é bem simples: o mercado que a gente conhece não tem o monopólio da inovação. Enquanto os Googles, eBays e Toyotas do mundo realmente entregam valor em práticas inovadoras, essa é só uma parte do conjunto.
E talvez esteja mais do que na hora de olhar para o resto.
A gente vive um momento em que a formalização da Revolução Industrial, que fazia sentido há 250 anos atrás, pede um respiro. Essa lógica econômica exigia níveis enormes de eficiência, padronização e especialização, mas os tempos mudaram: a mentalidade que justificava as grandes linhas de produção não cabe mais aqui.
Os sistemas precisam de reformas verdadeiramente radicais. Nossa economia sofre choques contínuos. O setor energético encara sérios desafios a longo prazo e comunidades locais enfrentam crises que vão desde desemprego a escassez de água.
Então, a grande pergunta talvez seja: como a gente pode aproveitar o instinto de inovação para ajudar a sociedade?
Agora é a hora de olhar para lugares nunca antes imaginados. Temos que descobrir novas formas de reconstruir e reformular o compromisso que os antigos pensamentos empreendedores quase destruíram.
Agora é a hora de olhar para a inovação que não cabe só no corporativismo.
Os chamados inovadores fora do padrão trabalham de forma mais criativa do que muitas grandes empresas, além de desenvolverem soluções economicamente mais responsáveis para problemas que os setores tradicionais nem ousam pensar. São pessoas que valorizam a originalidade. E essa inovação exige uma quebra com padrões já existentes, sejam eles de atitude, de regras ou de práticas organizacionais.
“Ok, talvez o MEJ precise mesmo de mais pessoas assim. Mas como eu posso trazer isso para a realidade da minha EJ?”
Você consegue imaginar grandes líderes do movimento hacker em treinamentos semanais ao invés de realmente se infiltrarem em sistemas para tornar a informação livre? Generais de trincheiras em reuniões de alinhamento ao invés de realmente conquistarem territórios? Empreendedores do mercado informal preocupados com uma extrema burocracia ao invés de realmente alterarem aquilo que não funciona mais?
Não parece muito lógico, certo? E realmente não é. Quando os sistemas que fogem do mercado tradicional desenvolvem a confiança, o comprometimento e o surgimento de propósitos coletivos, sua natureza de auto-regulação solidifica algumas noções importantes — como lealdade, engajamento e senso de dono.
Parece com um certo movimento que você conhece?
É realmente bom que pareça. A velha ideia de “pensar fora da caixa” nunca veio com receita pra ser seguida. Mas se existe alguma forma de inovação que conecta líderes de gangues com altos gestores do Vale do Silício, por que ela também não pode estar presente em uma EJ no coração do Brasil?
São apresentadas, então, cinco maneiras de despertar o grande inovador que (com certeza) existe dentro de você. Aproveite sem moderação.
- Hustling: esse termo pode ser entendido como agitação, tumulto, trapaça ou convicção e traz a ideia de criar algo a partir de nada. De sujar as mãos, ser resiliente e ousado. De fazer muito com pouco e guiar seu próprio destino. De se mover rápido e, principalmente, de trabalhar duro e ativamente moldar as suas chances ao invés de esperar que elas cheguem até você.
- Cópia: não é defender roubo de propriedade intelectual, mas é acreditar que a construção com referenciais fortes pode ser positiva e promover a inovação. Há muito tempo já se discute sobre como os imitadores são competidores naturais e favorecem a economia, quebrando monopólios e trabalhando a favor do colaborativismo. Imagine grandes invenções como a internet ou a prensa de Gutenberg: dificilmente elas foram criadas de um dia para o outro, mas sim, com o trabalho de uma pessoa sobrepondo o da outra até se alcançar um resultado final. A cópia significa, na verdade, construir sobre algo que já existe para melhorar sempre.
- Hacking: o que se pode aprender com esse movimento é, principalmente, a importância de um ceticismo fundamental em relação a autoridades e a certeza de que toda informação deve ser livre. Os hackers acreditam fielmente em desmontar as coisas a fim de entendê-las. Assim, é possível dominar uma organização e fazer com que ela seja o melhor que pode ser.
- Provocação: é o elemento essencial para sair do mundo que conhecemos, imaginar algo diferente, subverter o jeito usual de se fazer negócios e enxergar novas possibilidades. O princípio da provocação não é ter todas as respostas (ou qualquer uma, na verdade), mas sim criar condições para novos debates e encorajar alternativas diferentes. A provocação é essencial para se aprender a questionar o status-quo.
- Pivotação: se torna essencial quando pensamos em pivotações pessoais. Experimentar mudanças dramáticas que encorajam as pessoas a perseguirem maior realização e inspiração na vida ajuda a enxergar caminhos novos mesmo se surgirem dúvidas, pressões ou resistência. Isso se traduz em uma vontade de transformar completamente o senso de auto-conhecimento, como aconteceu com a jornada de Alice ao País das Maravilhas ou a viagem de Dorothy pela estrada de tijolos amarelos.
Quando a gente fala sobre os nomes de peso da inovação, em quem você pensa?
Claro que as grandes referências se tornaram referências por algum motivo. Mas, cada vez mais, emerge um mundo que alimenta o não convencional e que abre espaço para visões diferentes sobre assuntos tradicionais. Por isso, talvez a maior lição que o Movimento Empresa Júnior tenha que aprender com piratas, hackers e agitadores seja a busca constante por liberdade e oportunidade. Sem ter medo de rever as regras do sistema.
O MEJ fala muito sobre romper com o que existe e sobre ser diferente. Essa pode ser uma oportunidade de mudar olhando para o lado B da inovação.
O lado que, assim como a gente, começou nos lugares mais inesperados.
Carolina Pavan
Comunicação ConcentraDF 2016