NEGRO

Olá, meu nome é Lucas, tenho 19 anos e sofri preconceito racial.
Era domingo dia 6 de novembro de 2016, segundo dia de prova do Enem, e eu mais um ano decidi tentar a sorte de conseguir um bolsa integral em uma universidade privada. O local da minha prova tinha sido liberado uma ou duas semanas antes do exame e como todo ano me colocaram em uma escola muito longe de onde eu moro, mas sem reclamar muito, fui mais uma vez passar horas resolvendo questões que não são exatamente do ensino médio, enfim… o foco não é esse.
O primeiro dia de prova foi tranquilo! aliás eu cheguei uns 15 minutos para fechar o portão (pois moro longe) mas na realização da prova eu senti que tinha me saído bem. Entretanto o fato de ter chegado um pouco em cima da hora no primeiro dia, me fez querer projetar outro caminho no segundo dia de prova, eu decidi pegar 2 transportes e tentar chegar mais cedo. Peguei o primeiro ônibus via EPTG e desci paradas antes do setor gráfico, afim de conseguir pegar um W3Sul pois minha prova era nas ultimas quadras da W3, porém eu não tinha muita certeza se nas paradas do setor gráfico passava meu ônibus mas mesmo assim eu desceria ali e daria meu jeito.
Desci na parada e havia uma senhora, mais ou menos 40 anos com uma cara de tão perdida quanto eu, esperei alguns minutos, e sem paciência lembrei da famosa frase da minha mãe “Quem tem boca vai a Roma!” decidi perguntar para a senhora se passava coletivos com destino a W3Sul naquela parada, ela estava atrás de mim e como eu estava preocupado em não me atrasar não havia se quer olhado pra ela ou observado a fisionomia ou expressões faciais dela. Quando me virei, observei que ela estava com um olhar estranho, me encarando da cabeça aos pés, como se eu estivesse a incomodando, mas sem pensar muito perguntei logo: — Moça! a senhora sabe me informar se aqui passa W3Sul?, e ela com o maior desprezo do mundo respondeu: — Não sei!, eu logo achei super estranho, ela não saber tudo bem! mas eu percebi um tom meio agressivo na fala dela, e foi neste exato momento que tudo começou! Virei para frente outra vez impaciente pela demora do coletivo e observei que outra senhora estava se aproximando da parada, e em questão de segundos elas começaram a conversar, e a primeira mulher começou a falar coisas ao meu respeito, ela mencionou que eu estava tentando assalta-la desde que havia decido do ônibus, insinuou que eu havia tentando puxar assunto para me aproveitar, (eu tremo só de lembrar do resto da história) a segunda mulher apenas ouvia toda a história, concordando e contando relatos de furtos que acontecera com ela, neste momento eu já estava pensando em como ia começar a me defender, olhei para elas e foi nesse momento que elas começaram com as ofensas. Eu não ia mencionar nenhuma das palavras, mas o meu espanto em saber que hoje, século XXI, ainda existem racistas, séculos após a escravidão, AINDA EXISTEM RACISTAS é causa suficiente para me expressar por completo.
Eu tive que ouvir tudo calado, ofensas como “Negro nojento, negro ladrão, negros são todos bandidos, nojo desse tipo de gente, VAI TRABALHAR VAGABUNDO!” me fizeram ficar sem reação! eu só conseguia pensar em duas coisas, em o porque da demora do ônibus! e o que eu tinha feito de errado! foi em me perguntar isso tudo que de longe observei um coletivo vindo e mesmo de longe consegui ler W3Sul no letreiro do ônibus, meus batimentos estavam acelerados, eu não sentia minha pernas, havia um nó em minha garganta e eu só pensava nos milhares de filmes que eu já havia assistido sobre racismo, preconceito, intolerância, xenofobia, eu tinha uma lista enorme em mente, lembrei do meu primeiro dia de aula minha mãe me penteando e dizendo — “Nunca deixe ninguém rir ou zombar da sua cor, ame quem você é, sua cor é linda!”, entrei no ônibus trêmulo, passei a roleta avistei uma cadeira sozinho no fim do ônibus, eu queria descer, eu queria voltar para casa, queria contar para minha mãe, queria ter uma reação! comecei a ter pensamentos horrendos de o porquê havia nascido naquela cor, porque estava passando por tamanha humilhação, e pro meu azar, eu estava tão desorientado que não percebi que as duas haviam entrado no mesmo ônibus que eu, o olhar delas me fazia querer gritar e contar pra todo mundo o que aconteceu, na verdade se naquele momento eu tivesse um de meus amigos comigo, teria sido tudo diferente, eles teriam reagido por mim e eu não teria travado. Tirei meu celular do bolso e WiFi conectado havia rede wifi naquele ônibus!!!! — pensei desesperado! procurei a primeira pessoa que veio em minha mente e contei toda a história, a pessoa foi a Mônica, que eu tenho um amor enorme e esse dia ela provou o quanto honra a palavra amiga, aos poucos ela me acalmou me dizendo o quanto eu era especial e o quanto ela queria estar ali, ela me entreteu por longos minutos e eu nem percebi que as mulheres haviam descido.
Poucas paradas depois dei tchau para Mônica e desci no meu destino, eu estava mais calmo mas não estava acreditando que isso acabara de acontecer comigo, cheguei no local do exame, achei minha sala, confirmei meus dados, sentei, abri a prova e lá estava o tema da redação: “Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil”, eu não tinha passado exatamente aquilo, mas havia sentido na pele um pouco do mal que o ser humano pode fazer, um pouco do mal que uma “intolerância pode causar”.
Eu sei que talvez um dia passarei por essa situação novamente, espero eu saber exatamente como lidar, espero saber não brigar mas reivindicar quem sou, e que ninguém é melhor ou “mais” que alguém por ter mais pigmentos que o outro. Jamais pensei que aconteceria comigo, mas aconteceu.
Prazer! Lucas, 19 anos, e sofri preconceito racial!
