Texto : Matheus Vieira

Cabelo escuro e cacheado, levemente grisalho, tangenciando o fim da nuca; barba com aparência de um mês sem ser raspada e coloração mista, majoritariamente branca com vestígios de preto. Sua pele bronzeada e com manchas negras de sujeira entregava sua condição de morador de rua. Para proteção contra o sol, usava um boné bege da companhia gaúcha de produtos militares Taurus. Sua bermuda era azul, com traços brancos que imitavam flores, típica roupa de surfista, o que combinava com seu constante deslocamento e fascínio por praias de Santa Catarina. Levava em sua cintura uma pochete da marca australiana Rip Curl. Esse é João de Almeida.

Esguio e com olhos entreabertos, apontava seu nariz saliente e com pequenos arranhões para o horizonte, o qual observava sorridente e alcoolizado, junto a seu amigo igualmente afetado pela bebida, Carmo Alves de Souza- um senhor ruivo de prováveis 1,65 de altura, barrigudo e com um fixado olhar entristecido. Conhecia Carmo a tanto tempo quanto estava em Florianópolis, 2 meses , além de dividir com ele uma garrafa de Teimosinha, cachaça com 29 porcento de álcool.


Passara a maior parte de seu tempo nas praias da ilha e agora se encontrava na praça Nossa Senhora de Fátima, frente à igreja homônima, no bairro Estreito. Dizia ter escolhido esse lugar para dormir por conta de sua crença em Deus, acreditando que receberia alguma forma de benção ao descansar em frente à igreja.


Natural de Santa Cecília, cidade localizada no centro de Santa Catarina a 64,7 quilômetros de Curitibanos, João de Almeida é morador de rua há 15 anos, acredita não haver um grande motivo que tenha o levado às ruas, “apenas aconteceu” reforça. Já passou pelas praças e calçadas de inúmeras cidades, como Itapema, Balneário,etc.

Sua vida como viajante, começou alguns anos antes de sua primeira noite dormindo em banco de praça. Viajou sem a família pela primeira vez em 1993, quando tinha 19 anos e buscava melhores oportunidades no Rio Grande do Sul. A mudança para o estado só aconteceu porque João, após se formar no segundo grau, com 17 anos, não passou no vestibular para Contabilidade na Universidade do Paranaense, em Umuarama(PR). A morte de seu melhor amigo foi um dos principais fatores a desviar sua atenção na época do vestibular.

Por conta do trabalho de seu pai, que era mestre de obras de ferrovias, teve que se mudar para Lages, onde concluiu o ensino médio. Trabalhou para o pai como pedreiro. No que lembra ter sido um dia primaveril, enquanto trabalhava para seu pai, João foi surpreendido por quatro amigos, que insistiram em chamá-lo para ir a uma boca de tráfico localizada no bairro de baixa renda Habitação, em Lages. Cansado e convencido pelo seu melhor amigo, Zeca, João largou o serviço e seguiu rumo à boca, parando eventualmente para beber e fumar maconha, produto que estava perto do fim, justificando a ida à boca. Bêbados e chapados, adentraram a casa do traficante, amigo da época de escola de Zeca, intimando-o em busca de mais maconha, já que a deles estava perto do fim.

Sem notar que tal amigo de Zeca não se encontrava e quem estava em seu lugar era seu pai, verdadeiro dono da boca, que ao ouvir chamarem seu filho de traficante, ficou enfurecido lançando um tiro mortal contra Zeca, morrendo no mesmo momento. Assustados e desesperados, os três amigos de João saíram correndo e abandonaram-no com o melhor amigo falecido em seu colo. Sem saber o que sentir e apático à situação, por conta da embriaguez e da maconha. João seguiu carregando o corpo de Zeca pelas ruas da cidade, com exceção de um momento, no qual parou para tomar uma caipirinha que um amigo seu já havia deixado paga no bar.

João lembra que os pais de Zeca nunca acreditaram em sua versão. “ Ficaram enchendo meu saco, diziam que eu quem levei o filho deles pro mal caminho. Mandei se foder e disse que o cara que teve a ideia, o problema é deles” contou rindo. Admitiu depois que já fumava e bebia muito antes do acontecimento e que para sua infelicidade, hoje se vê como um alcoólatra e preferia apenas fumar maconha, o que, sem justificativa, trata como inviável.

Após o fracasso no vestibular, João continuou a trabalhar para seu pai e aos 19 anos começou um curso de um ano para técnico em Segurança no Trabalho, o qual desistiu em 8 meses. A procura de uma forma de ganhar mais dinheiro, decidiu rumar ao município gaúcho Caxias do Sul. Pediu que seu pai financiasse a viagem, mentiu que iria para a cidade fazer um curso da Polícia Militar. Satisfeito com a decisão do filho, fez um cheque na condição de que ele voltasse apenas após terminar o curso.

O tempo de João em Caxias do Sul durou apenas dois anos. Morava em uma pensão junto a outros 20 homens, sendo que , segundo ele, dez eram mal caráter e dez confiáveis. O que mais chamava sua atenção na casa não eram a estrutura ou os moradores que ele dividia de forma maniqueísta, mas o fato da dona do estabelecimento e sua filha serem lésbicas, algo que o pertubava de alguma forma. Rindo, referia-se às duas como “machorras”.

Sua relação com as mulheres de Caxias era restrita a uma em específico, que não quis identificar, com quem teve uma filha. Namoraram durante os dois anos em que morou ali, dizia-se fiel a ela e pretendia assumir a filha. Porém, sua relação sofria com a desaprovação do pai, que por conta da profissão que escolheu levar em Caxias(ajudante de entrega de garrafas da Pepsi), não o considerava digno de namorar sua filha. Furioso por conta da gravidez, o homem que poderia ter sido seu sogro, acabou virando uma ameaça na vida de João.

Com medo das consequências de manter a relação, mudou-se de volta para Santa Catarina, dessa vez para residir em Balneário Camboriú, onde poderia aproveitar uma de suas paixões, a praia. Tinha 21 anos e trabalhava como pintor, morava na casa de sua tia, que ao mesmo tempo era um prostíbulo. Admitiu não gostar muito da tia, reprovando sua forma de ganhar dinheiro e a chamando de desonesta. Decidiu ir embora da cidade quando ela tentou comprar móveis em seu nome sem sua permissão.

Apesar das desavenças com a tia, nutria carinho por seu primo, que era dono de uma loja de equipamentos de som. O sucesso da loja era tamanho que, durante o pouco tempo que João permaneceu na cidade, seu primo acumulou dinheiro o suficiente para comprar uma BMW zero. Algumas semanas depois da aquisição, ao parar de noite em posto de abastecimento, foi morto e teve seu carro roubado. Assim como as outras lembranças que poderiam lhe soar dolorosas, João nos contou o caso rindo.

Mas, nem todas as suas memórias são assim, indolores. Confessou, sem entrar em detalhes, que seu pai, com 69 anos, teve um infarto e morreu em 2006. Falou também que, por conta de sua aparência e condição de morador de rua alcoólatra, não tem coragem de reaparecer na casa de sua irmã e mãe, que hoje moram no bairro Abraão, em Florianópolis, próximo ao bairro Coqueiros.

Morou com as duas em abril de 2015, mas por se considerar independente da família, abandonou-as para voltar a uma de suas cidades favoritas, Itapema. Novamente, nutrindo seu fraco pela praia. A sua última lembrança ruim é de quando foi preso, um ano após o falecimento de seu pai. Fora pego furtando pedaços de uma cerca de alumínio e ficou preso por seis meses, os quais não gosta de recordar. “Lembrança de inferno não quero” refletiu ele.

Quando questionado sobre o futuro, João, que hoje tem 41 anos, disse, em tom de brincadeira:- pretendo dormir hoje à noite-. Depois, em tom sério, falou que iria voltar a aproveitar as praias da ilha. Pretende largar o álcool um dia, arrumar um emprego e prestar o vestibular. “Sou inteligente, posso passar no vestibular também” afirmou com convicção. Tomou mais um gole de sua aguardente, sorriu e voltou a seu olhar reflexivo.