Lote 42: editora com alma de startup

Em nenhum momento existiu tamanha efervescência de empresas e serviços que substituem meios tradicionais pelo digital. Serviços voltados pro online ganham cada vez mais aceitação e meios tradicionais começam a repensar o seu modelo de negócio. Entretanto, na contra mão deste movimento do offline pro online, existem algumas empresas que nasceram com um DNA bem definido e sabem tirar proveito e usar ambos em prol do seu negócio, como é o caso da Lote 42.

A Lote 42 é uma editora com alma de startup, como eles mesmos se auto definem. Basicamente é uma editora de livros desapegados de quaisquer tipos de preconceitos e que prezam pela experiência de leitura, desde a escolha das obras, ao papel em que ele vai ser impresso, a tipografia e as ilustrações.

Ainda quando era estudante de jornalismo, João Varella, sócio-fundador da editora, mantinha um blog no Blogspot e uma comunidade no Orkut. Nestes, já começava a utilizar técnicas de marketing digital, mesmo que tal técnica ainda embrionária, para tentar atrair as editoras a apostarem na publicação Curitibocas.

A vontade sempre existiu de ter algo próprio, mas foi o próprio livro Curitibocas que ajudou fomentar a ideia que viraria a Lote 42. A obra, escrita por Varella e Cecília Arbolave, é um híbrido entre ficção e realidade, relatando a história de Darci, que não é revelado se é homem ou mulher, passando por pessoas chaves e icônicas da cidade de Curitiba. Esse livro enfrentou grande dificuldade para chegar às grandes editoras e, só chegou, quando a Carta Capital fez uma matéria de duas páginas sobre o projeto. Após esse carimbo de um grande, outros veículos começaram a olhar para esta ideia, dando a sensação de que o jornalismo tem um certo receio e falta de coragem para apostar.

Diante de tal situação, veio o insight dos sócios:

“Um dia a gente vai ter uma editora e não vamos deixar passar este tipo de projeto” João Varella

Em 2012, Thiago Blumenthal,’’’87 um dos sócios da editora, perdeu um freela que ele estava fazendo e começou a ficar sem grana até mesmo para pagar o aluguel. Vendo tal situação, Varella, que tinha um dinheiro guardado, viu uma oportunidade de colocar em prática a ideia que eles sempre quiseram fazer: a editora. Como grandes amantes do meio, eles acompanhavam o mercado editorial analisando e comentando sobre ele, se dava pra fazer diferente ou melhor. Foi aí que resolveram fazer uma editora do jeito que eles sempre imaginaram, do jeito que acreditavam que deveria ser, preenchendo as lacunas e brechas deixadas pelas gigantes. O dinheiro dava pra pagar a produção de três livros e, o primeiro, já conseguiu pagar os próprios custos de produção(gráfica) na pré-venda. O custo de gráfica é o principal custo do livro, aí veio o 2 e 3 livro e começou o funcionamento da empresa.

No meio da dificuldade encontra-se a oportunidade. — Albert Einstein

O conceito da empresa é ser uma editora que não luta contra os mercados digitais, mas aproveita das forças dele e usa a seu favor. Inclusive, alguns livros são conteúdos que foram publicados originalmente na internet, como é o caso do O Pintinho e o Já Matei por Menos. Porém, mesmo que muitos deles já tenham sido lidos por muitas pessoas através de posts, o formato físico possui melhor edição e escolha. Outro detalhe é que existe uma curadoria para todo o processo de execução do livro, eternizando, de certa forma, o conteúdo.

O livro físico, em relação ao digital, possui a vantagem de não possuir nenhum tipo de interrupção, não tem ninguém te chamando por mensagem ou notificações piscando a todo momento.

A Lote 42 tem diversos livros que possuem explorações distintas em cada obra. O Seu Azul, por exemplo, tem a capa feita com areia grudada com cola de silicone, os diálogos não tem um narrador descrevendo as reações dos personagem, pelo contrário, foram utilizados recursos tipográficos para passar mais sentimento. É uma experiência literária completa, não apenas visual, mas tátil. Outro detalhe interessante é que alguns livros possuem uma tiragem limitada, criando assim um efeito colecionável e de fetiche nestas obras.

O próprio nome da empresa é a partir disso, Lote 42 é como se fosse o último, o específico, o limitado para mostrar esse conceito da empresa com as tiragens limitadas. Outro detalhe é que 42 é um número cabalístico para os amantes de cultura pop, afinal, segundo o Guia dos Mochileiros da Galáxia, ele é a resposta pra vida, o universo e tudo mais.

Como estamos inseridos no meio digital, é quase uma obrigação que as empresas estejam pensando em estratégias para o online. Todos os livros, por exemplo, possuem uma landing page própria com informações do autor, do livro e do conceito por trás do projeto. A produção de conteúdo é uma das estratégias da empresa, eles produzem book trailers e, também, possuem um canal no YouTube para explicar as ideias dos livros e utilizar redes de influenciadores, como youtubers e blogueiros que falam sobre livros, para produção e divulgação.

Durante a Copa do Mundo no Brasil, a Lote, fez uma promoção que, para cada gol que a nossa seleção sofresse, eles dariam 10% de desconto em qualquer livro de sua loja virtual. Porém, o que eles jamais imaginavam é que a Alemanha faria 7 gols. Claro que poderia ser pior, mas essa promoção criou um buzz enorme, sendo compartilhado em diversos veículos nacionais e internacionais.

Entretanto, em situações que podem levar uma possível crise, eles saíram de maneira magistral, mantiveram o desconto e, em poucas horas, acabaram com todo o estoque de livros da sua loja virtual. Outro detalhe é que o número de seguidores aumentou expressivamente e inseriu a marca em nichos que antes a desconheciam.

Reforçando todo o conceito da empresa, eles possuem a Banca Tatuí, um espaço voltado para publicações independentes, seja da própria Lote 42 e, também, de outras editoras. Atualmente já passaram conteúdos de 120 editoras distintas.

Com uma arquitetura repleta de referências do universo impresso, a banca é mais do que um simples ponto de venda, assim como os livros da editora, possui todo um conceito por trás. Algo interessante que ocorre de tempos em tempos são os shows em cima da banca, no melhor estilo Beatles de ser.

Se você gosta de livros e de empresas com um conceito forte, a Lote 42 com certeza é uma referência. Quer saber mais sobre ela? Dá um pulo no site deles:

www.lote42.com.br


Quem são os fundadores da Lote 42?

JOÃO VARELLA

Jornalista formado e pós-graduado pela PUCPR, trabalhou como repórter de tecnologia na IstoÉ Dinheiro e editor no El Economista América. Já colaborou com diversos veículos, entre eles o jornal Gazeta do Povo e portal R7. Em 2012, ganhou o 2º lugar no prêmio Sebrae de Jornalismo. Junto com Cecilia Arbolave, venceu o prêmio Proyectando Valores 2006 da Câmara Argentina de Anunciantes e escreveu o livro Curitibocas — Diálogos Urbanos

foto: reprodução

THIAGO BLUMENTHAL

Jornalista e doutorando pela Mackenzie. Editou a versão atualizada do Manual da Redação da Folha, além do DNA Paulistano, Outras Notas Musicais (Arthur Nestrovski), Pós-Tudo — 50 Anos de Ilustrada (Marcos Augusto Gonçalves) entre outras publicações. Traduziu o livro Emmanuel Lévinas: Ensaios e Entrevistas. Com passagens pelas redações da Folha de S.Paulo e do portal R7, é colaborador eventual das revistas Dicta & Contradicta e Amarello.

foto: reprodução

CECÍLIA ARBOLAVE

Jornalista argentina formada na Universidad Austral e pós-graduada pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Junto com João Varella, venceu o prêmio Proyectando Valores 2006 da Câmara Argentina de Anunciantes e escreveu o livro Curitibocas — Diálogos Urbanos. Após participar dos cursos de trainee do jornal Estado de S. Paulo e da Editora Abril, foi repórter nas revistas Casa Claudia Luxo e Minha Casa. Em 2011, ganhou o 2º lugar no VII Prêmio Abecip de Jornalismo. É organizadora do Queria Ter Ficado Mais e foi eleita uma das “30 Mulheres com Menos de 30 para ficar de olho” pelo site M de mulher.

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