Das surpresas e das coisas nem tão surpreendentes

Eu acho que todo mundo um dia deveria ler a Poética, de Aristóteles. Da poesia e da tragédia trazemos um monte em nossa vida cotidiana e no palco onde nossas catarses se manifestam — o futebol — ambas são pródigas e alimentam nossa rouquidão, nossa lisura ao final do mês e várias dores de cabeça ao final de cada rodada.

Por incrível que pareça, em outras circunstâncias e pelo andar da carruagem leonina, eu estaria aqui vituperando contra todo o elenco, mas guardo toda a minha raiva em especial pelo infeliz do #8, muito embora ontem o time todo parecia estar vestindo a camisa com o número infamante.

Mas vamos pelas coisas surpreendentes:

Era mais fácil Creonte baixar as fuças pra Antígona do que Serginho fazer um gol. Fez. Muito mais, o time todo depois do empate do Grêmio poderia caminhar cego que nem Édipo por toda a Ática, mas guardou estado de espírito para desempatar e ampliar. Teve até gol de Edmilson, que foi surpreendente também. Não fiquei surpreso foi o dito cujo da 8 ter falhado no primeiro gol do Grêmio.

Algumas coisas são imutáveis.

Daí partimos para o jogo que, junto com São Paulo no Morumbi, a gente assiste de teimoso, mas já sabe o resultado: derrota. Essas partidas contra o Cruzeiro são das coisas mais ingratas do mundo: podemos estar jogando com o melhor dos times, mas ao ver a camisa azul, damos com os burros n’água.

Mas aí veio a peripécia, esse elemento do drama que garante aquilo que hoje acostumamo-nos a chamar de plot twist, que veio com dois gols de Rogério, bancando o Odisseu índio e no palco da lavada consagrou os dois garçons. Inclusive Everton Felipe começar uma jogada com um lance de futsal e não perder a bola até fazer o passe para o gol. Vários espantos e aquela garantia do suspense nas mãos do deus Magrão. Já poderíamos até invadir Troia.

Então viemos para casa como quem já passou das turbulências, mas ela está ali, pronta a nos devorar e com o time reserva do Furacão, jogando mal como quem arremessa água na tocha olímpica, demos pro gasto. O importante, diria Aristóteles, é manter a unidade da trama. E a trama do drama ficaria para ontem.

Aí veio o realmente surpreendente e aquilo que nem me surpreende mais.

Enumeremos:

1 — Gol com lei do ex. Era certo que levaríamos gol de Danilo. Era certo que Serginho estaria na jogada do gol adversário e erraria. Surpreendente foi ter levado um chapéu de Danilo, que finalizou certo, justo na barra onde o arrombado, contra o Goiás, em 2014, tinha tudo pra fazer o gol e acertou a bola lá no Mercado da Boa Vista;

2 — Contra lanternas o Sport deveria fazer um vodu reverso de si próprio e apostar na autoflagelação, porque assim nos livraria da vergonha. E ainda por cima sendo o primeiro jogo do infeliz mês de agosto. Não daria outra;

3 — Mark fazer um gol de cabeça e não sofrer um traumatismo craniano. Isso realmente foi surpresa pra mim, mas ainda assim, depois deste deus ex-machina, o mandaria para uma clínica de imagem.

Ainda estamos mais chamuscados do que os filhos de Tiestes e os próximos jogos, contra Figueirense e o time mais fujão do mundo serão cruciais no nosso calvário, para não acabarmos mais loucos do que Medeia ao final do campeonato e já relegados ao Hades da Série B do ano que vem, nos arriscando a tomar outro gol do América.

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